A lei do vinho e da leitura
Ler e beber vinho tem um estranho parentesco.
Não se pode apreciar um bom vinho se não se tem um paladar
aguçado. E só se adquire um paladar aguçado se ensinamos as nossas papilas gustativas a identificar um bom vinho
através da experimentação de variados tipos de vinho.
Depois, pela diferença que as papilas aprenderam a fazer entre um vinho e outro, compreendemos (porque
recebemos sua essência) o que é um vinho de qualidade, em contraste com um mau
vinho.
Seres humanos, em seu estado natural, só são capazes de
perceber matéria e forma na matéria. Forma abstrata e
essência só podem ser recebidas (e compreendidas) se formamos recipientes
adequados.
Isso vale para o vinho. E vale, também, para os prazeres que
podemos derivar da leitura.
Sem leitura não se aprende a ler. Como não se aprende a
degustar um bom vinho de forma teórica. Assim, como não engolimos o vinho como
um sedento engole água, não devíamos ler como atualmente lemos, saltando de
frase em frase, de texto em texto, rolando o cursor do teclado como se o mundo
fosse acabar amanhã. As palavras deveriam circular em nossa boca como o vinho
circula sobre a língua, os dentes, ativando os nossos sensores de sabor.
Extrair o máximo de prazer de cada espaço mínimo, eis a lei do vinho. E da
leitura.
Não tenho uma opinião amistosa sobre o tipo de leitura que
fazemos hoje, em nossos aparelhos eletrônicos, porque a leitura que se abre
para o infinito das janelas de novos
textos não permite a degustação.
Como o sentido do
texto fica achatado pela velocidade,
pela pressa, pela correria e pela ansiedade do ledor superexcitado pelas possibilidades infinitas que as janelas nos dão, em breve teremos uma
multidão de ledores, e uma pequena
casta de leitores.
Aliás, em sala de aula isso já acontece. E não é só no
Brasil. É um fenômeno da civilização ocidental contemporânea. Essa situação
gera um paradoxo incômodo: quanto melhor o
texto, menos leitores terá.
Vivemos uma nova barbárie, em que o texto raso e insignificante
tem a admiração de uma multidão de tolos, enquanto que o texto denso e
consistente é apreciado por uma pequena minoria com capacidade de sentir prazer
com literatura de qualidade.
Sim, eu sei. E não me angustio nem um pouco com isso. Sou um
professor-dinossauro, uma espécie em extinção. Além de não usar telefone
celular, não utilizo, como método pedagógico, o suporte de projetores e outros
aparelhos zumbidores em sala de aula. Leitura requer silêncio e reverência,
requer respeito pelo autor do texto. Meus alunos são chamados a fixar-se no texto no papel, nas palavras, nas
frases, nos parágrafos. E são convidados a escrever. Ninguém conhece melhor um
bom vinho do que um viticultor.
Talvez eu regrida ainda mais e abandone outras tecniquerías, como dizia Unamuno. Já
estou pensando em pedir que meus alunos e alunas produzam seus textos à mão,
para que sintam o prazer das letras escorregarem dos braços às canetas, nesse
baile das palavras a caminho dos dedos...
O melhor mesmo é ler o bom vinho, e beber o texto,
lentamente.