Amor próprio
Chanun Katan abriu e disse:
- Não tive amor próprio quando
trabalhava de ceifador, aos seis anos de idade, em troca de um prato de arroz e
feijão;
- Não tive amor próprio quando
afundava as perninhas nas barreiras de um banhado para construir tijolos que
não fizeram parte da construção da minha casa, mas que se transformaram em pão
e café aguado;
- Não tive amor próprio quando fui
armador de um boliche, levantando pinos até de madrugada, para dormir na aula
de matemática no dia seguinte e ser acusado de preguiçoso e dorminhoco pelo
professor e colegas;
- Não tive amor próprio quando
passava sinteco em pisos de carvalho e era dispensado do emprego por crises de
asma;
- Não tive amor próprio quando
danifiquei vértebras da coluna por excesso de peso das sacas de arroz e feijão
que carregava na cabeça;
- Não tive amor próprio em dezenas de
outras atividades a que me submeti para sobreviver por que não nasci herdeiro
de fazenda, filho de magnata, filho de investidor de bolsa;
- Na minha bolsa só carreguei
humilhação, pai ausente e mãe maluca, e uma penca enorme de crueldades
gratuitas;
- E como não tive amor próprio, fui
me deixando morrer, já quem nem a dignidade para um suicídio eu tinha...
- Assim, que ninguém venha me falar
em amor próprio. Eu morri. E retornei. E descobri que o amor próprio, tão citado
e tão cantado, é o destilado mais sofisticado do Serpente.
- Um justo não tem amor próprio, tem amor incondicional, inclusive por aqueles que o acusam de não ter amor próprio.