quarta-feira, 28 de outubro de 2026

A Lei do Vinho e da Leitura

 

A lei do vinho e da leitura

 

Ler e beber vinho tem um estranho parentesco.

 

Não se pode apreciar um bom vinho se não se tem um paladar aguçado. E só se adquire um paladar aguçado se ensinamos as nossas papilas gustativas a identificar um bom vinho através da experimentação de variados tipos de vinho.

 

Depois, pela diferença que as papilas aprenderam a fazer entre um vinho e outro, compreendemos (porque recebemos sua essência) o que é um vinho de qualidade, em contraste com um mau vinho.

 

Seres humanos, em seu estado natural, só são capazes de perceber matéria e forma na matéria. Forma abstrata e essência só podem ser recebidas (e compreendidas) se formamos recipientes adequados.

 

Isso vale para o vinho. E vale, também, para os prazeres que podemos derivar da leitura.

 

Sem leitura não se aprende a ler. Como não se aprende a degustar um bom vinho de forma teórica. Assim, como não engolimos o vinho como um sedento engole água, não devíamos ler como atualmente lemos, saltando de frase em frase, de texto em texto, rolando o cursor do teclado como se o mundo fosse acabar amanhã. As palavras deveriam circular em nossa boca como o vinho circula sobre a língua, os dentes, ativando os nossos sensores de sabor. Extrair o máximo de prazer de cada espaço mínimo, eis a lei do vinho. E da leitura.

 

Não tenho uma opinião amistosa sobre o tipo de leitura que fazemos hoje, em nossos aparelhos eletrônicos, porque a leitura que se abre para o infinito das janelas de novos textos não permite a degustação.

 

Como o sentido do texto fica achatado pela velocidade, pela pressa, pela correria e pela ansiedade do ledor superexcitado pelas possibilidades infinitas que as janelas nos dão, em breve teremos uma multidão de ledores, e uma pequena casta de leitores.

 

Aliás, em sala de aula isso já acontece. E não é só no Brasil. É um fenômeno da civilização ocidental contemporânea. Essa situação gera um paradoxo incômodo: quanto melhor o texto, menos leitores terá.

 

Vivemos uma nova barbárie, em que o texto raso e insignificante tem a admiração de uma multidão de tolos, enquanto que o texto denso e consistente é apreciado por uma pequena minoria com capacidade de sentir prazer com literatura de qualidade.

 

Sim, eu sei. E não me angustio nem um pouco com isso. Sou um professor-dinossauro, uma espécie em extinção. Além de não usar telefone celular, não utilizo, como método pedagógico, o suporte de projetores e outros aparelhos zumbidores em sala de aula. Leitura requer silêncio e reverência, requer respeito pelo autor do texto. Meus alunos são chamados a fixar-se no texto no papel, nas palavras, nas frases, nos parágrafos. E são convidados a escrever. Ninguém conhece melhor um bom vinho do que um viticultor.

 

Talvez eu regrida ainda mais e abandone outras tecniquerías, como dizia Unamuno. Já estou pensando em pedir que meus alunos e alunas produzam seus textos à mão, para que sintam o prazer das letras escorregarem dos braços às canetas, nesse baile das palavras a caminho dos dedos...

 

O melhor mesmo é ler o bom vinho, e beber o texto, lentamente.


terça-feira, 27 de outubro de 2026

Shamati (150)

 

  

150. Cantai ao Eterno, pois Ele fez o orgulho

(Ouvi em 14 de Shevat)

 

 

No verso “Cantai ao Eterno, pois Ele fez o orgulho”, parece que “podar” é como: “(O Eterno é) minha força e canção”. Isso significa que devemos sempre podar e tirar os espinhos da vinha do Criador. E mesmo quando o indivíduo sente que está inteiro, e pensa que já removeu os espinhos, o verso conclui “pois Ele fez o orgulho”.

 

Isso significa que Ele aparentemente criou o orgulho neste mundo, que o homem gosta de ser honesto e verdadeiro aos seus próprios olhos. E quando sente sobre si mesmo que já removeu os espinhos e é um homem íntegro, isso é um tipo de orgulho.

 

Antes, o indivíduo deveria sempre examinar suas ações, e checá-las com os dez tipos de exames, e não depender do seu sentimento temporário, pois isso é apenas um tipo de orgulho. É como diz o verso, em nome dos justos: “Vós sois ociosos! Ociosos! Tanto que dizeis: ‘Vamos, sacrifiquemos ao Eterno’” (Êxodo 5:17).

 

Isso significa que Ele disse aos filhos de Israel: “Quando vocês dizem ‘vamos e sacrifiquemos’, e sentem que já estão dispostos a ir e sacrificar a si mesmos no altar perante o Eterno, isso é como ociosidade e fraqueza, pois vocês não querem mais trabalhar e examinar a si mesmos constantemente, para estarem prontos para esse grande trabalho. É por isso que vocês pensam que já estão perfeitos nessa servidão, como interpretam no fim do verso: ‘pois Ele criou o orgulho’.”

 

 

segunda-feira, 26 de outubro de 2026

Shamati (149)

 

 

149. Por que precisamos atrair Chochmá

(Ouvi em 22 de Adar, Tav-Shin-Yod-Gimel, 09 de março de 1953, Tel-Aviv)

 

Ele perguntou: “Por que precisamos atrair o discernimento de Chochmá (Sabedoria), que é o conhecimento, o saber, se todo o nosso trabalho é pelo caminho da fé acima da razão?”

 

Ele respondeu: “Se os justos da geração não estivessem na forma de Saber, Israel inteira não seria capaz de trabalhar na forma da fé acima da razão. Em vez disso, precisamente quando os justos da geração atraem iluminação de Chochmá, suas mentes brilham sobre toda a nação de Israel.”

 

Por exemplo, se a mente do indivíduo sabe e entende o que ele quer, os órgãos executam suas ações e não precisam de nenhum intelecto. Ao contrário, a mão, a perna e o resto dos órgãos fazem o que precisam fazer, e nenhuma pessoa sã pensaria em pedir ou dizer que seu trabalho seria melhor se a mão ou a perna tivessem cérebro.

 

Portanto, a mente não muda os órgãos, mas os órgãos são estabelecidos de acordo com a grandeza da mente. Isso significa que, se o cérebro tem uma grande mente, todos os órgãos são nomeados a partir dele e eles são chamados de “grandes órgãos”.

 

De forma similar, se o coletivo adere a um verdadeiro justo, o qual já foi premiado com o Saber, o coletivo pode fazer as coisas com fé. Eles têm satisfação completa, e não têm nenhuma necessidade por qualquer discernimento de Sabedoria.

 

 

sábado, 24 de outubro de 2026

Shamati (148)

 

148. O escrutínio do amargo e do doce, do verdadeiro e do falso

(Eu ouvi)

 

Há um escrutínio do “amargo e doce”, e há um escrutínio do “verdadeiro e falso”. O escrutínio do “verdadeiro e falso” está na mente, e o escrutínio do “amargo e doce” está no coração. É por isso que devemos prestar atenção ao trabalho no coração, para que seja na forma de doação e não na forma de recepção.

 

Por natureza, apenas a recepção é doce ao homem, e a doação é amarga. E o trabalho, que é transformar recepção em doação, é chamado “o trabalho no coração”.

 

Na mente, o trabalho é de “verdadeiro e falso”. E por isso devemos trabalhar na fé, ou seja, ter fé nos sábios. Isto é assim por que o trabalhador não consegue clarificar a questão de “verdadeiro e falso” por si mesmo.

quarta-feira, 21 de outubro de 2026

Shamati (147)

  

           

147. O trabalho da recepção e da doação

(Ouvi em 21 de Adar,Tav-Shin-Yod-Gimel, 8 de março de 1953)

 

A questão do trabalho na recepção e na doação depende do coração. Isso é considerado VAK. Contudo, o trabalho na fé e no conhecimento é considerado GAR. Apesar de serem um só discernimento, no sentido de que a fé é aceita pelo indivíduo de acordo com o valor do trabalho na recepção e na doação, ainda assim são dois discernimentos distintos.

 

É assim porque mesmo se consegue trabalhar na doação, ele ainda quer ver para quem está doando e quem aceita o seu trabalho. Assim, ele precisa trabalhar na forma de Mocha (Mente), ou seja, acreditar que há um Supervisor que aceita o trabalho dos inferiores.

 

 

terça-feira, 20 de outubro de 2026

Shamati (145)


 

145. O que é “Ele dará Sabedoria especificamente aos sábios”

(Ouvi em Truma 5, Tav-Shin-Gimel, 11 de fevereiro de 1943)

 

        

“Ele dará Sabedoria aos sábios.” Ele perguntou: “Deveria ter dito ‘Ele dará Sabedoria aos tolos’”.

 

E ele disse: “Sabe-se que não há coerção na espiritualidade.” Em vez disso, a cada um é concedido de acordo com o seu desejo. A razão é que a espiritualidade é a fonte de vida e do prazer. Então, como pode haver coerção em uma coisa boa? Por isso, se vemos que ao nos envolvermos com a Torá e as Mitzvot de forma coercitiva, no sentido de que precisamos superar o corpo, já que ele não concorda porque não sente prazer nesse trabalho, isso deve ser porque não sentimos a espiritualidade nos preceitos. É como foi dito, que a espiritualidade é a fonte da vida e do prazer, como está escrito no Zohar: “Onde há trabalho, há a Sitra Achra (Outro Lado).”

 

Esta é a razão pela qual apenas os sábios podem receber Sabedoria, pois os todos não têm necessidade de Sabedoria. Aliás, apenas os sábios podem receber a Sabedoria devido à sua natureza. Isso significa que quem é sábio ama a Sabedoria, e esse é seu único desejo. E seguindo a regra de que “não há prevenções diante de um desejo”, ele faz todo o esforço para obter Sabedoria. Assim, por fim, ele será premiado com a sabedoria. Portanto, aquele que ama a Sabedoria pode ser chamado de “sábio”.

 

Mas está escrito sobre os tolos: “Um tolo não tem desejo pelo entendimento.” O verso “Ele dará Sabedoria aos sábios” vem para nos dizer que quem ama a Sabedoria não ficará impressionado por não ter obtido Sabedoria apesar dos grandes esforços que fez. Ao invés disso, ele continuará o seu trabalho e certamente atingirá a Sabedoria, pois ele ama a Sabedoria. É por isso que eles dizem: “Vá por esse caminho e você certamente terá sucesso”.

 

Porém, devemos entender o seguinte: “A cria de um asno há de nascer como um homem?”. De onde ele tirará o desejo para ansiar pela Sabedoria?

 

Por isso, o conselho de trabalho por meio de “fazedores da Sua palavra” nos é dado, e então “para ouvir a voz da Sua palavra”. Isso significa que o indivíduo faz as coisas para obter aquilo que quer. Por isso, aqui, quando ele não tem nenhum desejo pela Sabedoria, significa que o que lhe falta é o desejo pela Sabedoria. Por essa razão, ele começa a se esforçar e agir para obter o desejo pela Sabedoria, e essa é a única coisa que ele precisa.

 

A ordem é que ele deve se esforçar na Torá e no trabalho apesar de não ter nenhum desejo por isso. Isso é chamado “trabalho”. Isso significa que ele faz as coisas apesar de não ter nenhum desejo por aquilo que faz. É como os nossos sábios disseram: “Tudo o que a sua mão e a sua força puderem fazer, faça.” E, pela virtude do esforço, um desejo e um anseio pela Sabedoria se formarão dentro dele.

 

E então o verso “Ele dará Sabedoria aos sábios” se tornará verdade nele, e ele será recompensado com “ouvir a voz da Sua palavra”. Assim, aquilo que previamente ocorria por meio da ação, um ato sem um desejo, agora tem como prêmio o desejo por isso. Portanto, se quisermos saber quem ama a Sabedoria, devemos olhar para aqueles que se esforçam pela Sabedoria apesar de ainda não terem sido recompensados para estarem entre os que amam a Sabedoria. Como dissemos, a razão é que, por meio do esforço, eles serão premiados para estarem entre aqueles que amam a Sabedoria.

 

Depois, quando eles tiverem um desejo pela Sabedoria, serão premiados com Sabedoria. Portanto, o desejo pela Sabedoria é o Kli (vaso), e a Sabedoria é a Luz. Esse é o significado de “não há coerção na espiritualidade”.

 

A Luz da Sabedoria significa a Luz da Vida. Não percebemos a Sabedoria como um conceito intelectual, mas como a vida em si, a essência da vida, na medida que, sem ela, o indivíduo é considerado morto. Por isso, podemos dizer que, por essa razão, a Sabedoria é chamada Chaya [viva].

 

 


domingo, 18 de outubro de 2026

Shamati (146)

  

146. Um comentário sobre o Zohar

(Ouvi no ano Tav-Reish-Tzadi-Chet, 1937-1938)

 

No Zohar: “Quando alguém nasce, ele recebe uma alma do lado da pura besta”. E ele interpreta que também essa alma animal concorda em ser um servo do Criador. “Se mais adiante ele é recompensado, recebe uma alma do lado das rodas.” Isso significa que ele tem uma alma que sempre anseia, e rola de um lugar a outro. Como uma roda sempre girando, ela vira e rola para se apegar à Kedushá (Santidade).

 

 

A Lei do Vinho e da Leitura

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