terça-feira, 20 de março de 2018

Shamati (2)


2. A Shechinah no Exílio
Escutei em 1942

O Zohar Sagrado diz: "Ele é Shochen (Morador) e Ela é Shechinah (Divindade)". Assim devemos interpretar essas palavras: É sabido que não há transformação alguma relativamente à Luz Superior (ela não muda). Assim está escrito: "Eu, o Senhor, não mudo". Todos os nomes e denominações dizem respeito somente aos Kelim (vasos), que consistem no desejo de receber incluído em Malchut, a raiz da Criação. Desde lá, ele desce até nosso mundo, até as criaturas.


Todos esses discernimentos, começando com Malchut, que é a raiz da criação dos mundos, até as criaturas, é denominado Shechinah. O Tikkun (correção) geral ocorrerá quando a Luz Superior brilhar nelas, nas criaturas, em plenitude e perfeição.


A Luz que brilha nos vasos se chama Shochen, e os vasos geralmente são chamados Shechinah. Em outras palavras, a Luz reside dentro da Shechinah. Isto quer dizer que a Luz é chamada Shochen, porque está dentro dos vasos; ou seja, que a totalidade (ou o conjunto) dos Kelim se chama Shechinah.


O tempo que precede o brilho da Luz nos Kelim em absoluta plenitude se chama "Tempo de Correções". Isto significa que realizamos correções para que a Luz possa brilhar plenamente dentro dos vasos. Antes disto, esse estado é chamado "Divindade no Exílio".



Isso significa que ainda não há perfeição nos Mundos Superiores. Abaixo, nesse mundo, deve existir um estado através do qual a Luz Superior se encontra dentro do desejo de receber. Este Tikkun é considerado “receber com o fim de doar”. Entretanto, o desejo de receber é preenchido de discernimentos desprezíveis e inúteis, que não honram aos Céus. Isto significa que o lugar em que o coração deveria ser um Tabernáculo para a Luz de Deus, se converte em um espaço de desperdícios e de sujeira. Em outras palavras, a vilania toma conta de todo o coração.

Isto se chama "Divindade no pó". Significa que ela é rebaixada ao nível do chão, e que todos desprezam tudo o que é relativo à Santidade, e que não existe nenhum desejo de retirá-la do pó. Ao invés disso, eles escolhem coisas desprezíveis, e isto gera tristeza à Shechina, porque a pessoa não constrói um lugar no coração que possa ser convertido em um Tabernáculo para a Luz Divina. (Tradução de Clarissa Porto Alegre Schmidt).
 

segunda-feira, 19 de março de 2018

Hamashbir (1)


E se judeus, cristãos e muçulmanos...



E se, ao invés de incitarmos a desavença entre judeus, cristãos e muçulmanos, fizéssemos como o Rabino Guershon, da Sibra, Sinagoga de Porto Alegre, e ajudássemos a promover o diálogo interreligioso?



Sabem judeus, cristãos e muçulmanos que um grupo de tribos judaicas (que vivia em Yathrib, local próximo de Meca) convidou o profeta Maomé para atuar como mediador em uma disputa judaica? E que Maomé aceitou?



Sabem judeus, cristão e muçulmanos o que revelou Maomé na Surata 29?



“Não disputeis com os Adeptos do Livro, senão da melhor forma, exceto com os iníquos dentre eles. Dizei-lhes: Cremos no que nos foi revelado, assim como no que vos foi revelado antes: Nosso Deus e o vosso são Um e a ele nos submetemos”.



Maomé, nessa Surata, está se referindo aos judeus como “Adeptos do Livro” por causa da Matan Torah, e está pregando o mesmo que Moisés, ou seja, a Unicidade absoluta de Deus, e está se submetendo ao Altíssimo, como o fizeram os israelitas ao pé do Monte Sinai, quando disseram em uníssono: “Faremos, e ouviremos”.



Sabem judeus, cristãos e muçulmanos que Allah é um dos Nomes do Criador revelado por Adam Ha Rishon naquilo que talvez seja o primeiro livro de Kabbalah da história, o Sefer Ha Shmot, o Livro dos Nomes?



Sabem judeus, cristãos e muçulmanos que Abraão, o pai das três grandes religiões monoteístas do mundo, criou um grupo de Kabbalah ao qual chamou de Yashar El, que significa “Direto a Deus”? Sabem que esse grupo de 40 mil alunos transformou-se no que hoje chamamos de judaísmo, cristianismo e islamismo?



E se realmente nos uníssemos, com “toda a nossa força, com todo o nosso coração e com toda a nossa alma”, para transformar em realidade tangível o que profetizou Isaías, no livro que leva o seu nome, capítulo 11, versículo 9, quando diz: “Não se fará mal nem dano algum em todo o monte da minha santidade porque a Terra se encherá do conhecimento de Deus como as águas cobrem o mar”?



E se cumpríssemos, judeus, cristãos e muçulmanos, o mandamento de Abraão de amar ao próximo como a si mesmo e de não fazer ao outro o que não queremos que nos façam?  

domingo, 18 de março de 2018

Karati (1)


Joseph Saltoun e Árvore da Vida 


Shamati significa “Eu ouvi”.



Rabash, filho de Baal Ha Sulam, “ouviu” inúmeras aulas de Kabbalah proferidas por seu pai, o maior cabalista do século XX.



Aqui, neste blog, vou postar as traduções dessas aulas que estamos fazendo, Clarissa Porto Alegre Schmidt e eu. A primeira já está postada em Shamati (1).



Karati significa “Eu li”.



Quando eu nasci, um anjo esplêndido me disse: “Vai, Charles, ser um homem-biblioteca”. E desde então procuro cumprir esse mandato. O que mais faço na vida é ler, e faço isso desde criança. Minhas leituras no campo da literatura e da teoria literária transformaram-se em mais de 40 livros, que estão publicados por aí, em várias editoras brasileiras, e também em editoras de Portugal, França e Israel.



Nos últimos 7 anos, minhas leituras concentraram-se na Chochmá Nistará, a Sabedoria Secreta, nome que lhe davam os antigos, e que nós chamamos, hoje, de Kabbalah.



Aqui, em Karati, vou escrever sobre os cabalistas e os livros que escreveram. E para inaugurar essa sessão, escolhi Joseph Saltoun, e seu primeiro livro publicado, Árvore da vida – A arte de viver segundo a cabala. São Paulo: Instituto Meron, 2016.



Saltoun vive em Vancouver com a esposa e as filhas, mas ensina em Israel, França, Inglaterra, Estados Unidos, no próprio Canadá e no Brasil.



Somos amigos. E mais que isso, somos “irmãos de alma”. Aos que conhecem os “Mistérios das Neshamot” isso é suficiente. Os velhos cabalistas preconizavam: “Revela um terço; e esconde dois terços”.



No futuro, Saltou receberá a alcunha de Yad Ha Shem. Em geral, os cabalistas são conhecidos por acrônimos, e alguns por sintagmas respeitosos, como no caso de Isaac Lúria que é conhecido como Ari HaKadosh, o Sagrado Ari. Yad Ha Shem significa “A mão do Nome”.



O primeiro livro publicado por Joseph Saltoun, Árvore da Vida, não foi pensado como opus. É uma coletânea de palestras que realizou ao longo de trinta anos de atividade de ensino. Nesse sentido, é extraordinário, pois é o resultado decantado de inúmeras páginas e diligências espirituais.



Seu livro compõem-se de 5 partes: Introdução, Ciência e cabala, A última geração, A vida na Árvore da Vida e Meditações.



Em Ciência e cabala, Saltoun explica porque a kabbalah (prefiro a transliteração inglesa) é definida como Sabedoria da Verdade ou Chochmá HaEmet, como a preferia chamar nosso mestre de sagrada memória, o Ari.



Em Consciência e imortalidade, o autor trata da entrada da consciência (que veio do futuro) em Adam Ha Rishon (o primeiro cabalista) no corpo físico (que veio do passado) há quase seis mil anos.



Em Gênesis o autor vai explicar porque seres espirituais (ou como eu afirmo em aula, Seres de Ohr com aleph transformados em Seres de Ohr com ayn) entraram em corpos físicos.



Em Ciência e cabala, Saltoun demonstra porque não há contradição entre o que dizem, na atualidade, os cientistas, e o que disseram os cabalistas há milhares de anos antes do aparecimento das metodologias científicas (aliás, em outra sessão pretendo elaborar em profundidade essa questão e demonstrar que se existe alguma contradição entre ciência e kabbalah, ela está no positivismo pseudo-científico e na mentalidade tacanha de alguns cientistas, e não nos dois objetos).



Para não cansar meus leitores e leitoras com essa resenha, vou citar apenas os conteúdos das outras partes do livro, esperando que todos conheçam a obra diretamente.



Em A última geração o autor trata do Conhecimento Cósmico, explica o que significa A última geração, A escravidão no Egito, Compaixão e Julgamento, A morte e a imortalidade, Os anjos caídos, O poder do Nome e o Poder dos Salmos.



Em A vida na Árvore da vida elabora sobre As fases da vida, o Tetragrama, Ambição e Prosperidade, o Corpo Humano e o Maguen David, O compartilhar, o Tikun, A cortina, Resistência (o processo de revelar a Luz), Luz Circundante e Luz Interna, Os Santos, A Energia do Sol e o Livre Arbítrio.



A última parte, Meditações, é composta de alguns exercícios cabalísticos.



Recomendo a todos a leitura, a releitura e a decaleitura dessa obra. Como sabem os cabalistas, os Kelim (Vasos de Recepção) se expandem lentamente, e assim que vão sendo expandidos maiores níveis de profundidade e de complexidade vão surgindo nos Mochim.



Ler livros de Kabbalah ajuda a expandir os Kelim.

sábado, 17 de março de 2018

Mocha de Ilaah (1)


O Acusador

(Charles Kiefer)

É preciso compreender que existem dois aspectos importantes na vivência cabalística, o Sistema da Tuma´a e o Sistema da Tahara ou a Árvore do  Conhecimento do Bem e do Mal e a Árvore da Vida. O primeiro é o Reino das Klipot e o segundo o Reino da Kedushá.

Assim que acontece o Tzimtzum Aleph, quando recebemos a masach e se inicia o Ibur, e o conseqüente desenvolvimento da Nefesh, o Sistema da Tuma´a nos envia um Acusador.

É como se o Sistema dissesse:

“Então queres te tornar cabalista? Vamos ver se resistes...”

Esse Acusador tem a função de testar a sinceridade e a profundidade da kavanah do Iniciado.

O Reino da Tuma´a sempre escolhe alguém próximo, familiar, cônjuge, amigo, colega, porque é mais difícil suportar uma injustiça quando ela nos chega pelas mãos de alguém que amamos do que quando é recebida de um desconhecido qualquer.

Ao cedermos às provocações e reagirmos, defendendo-nos, alimentamos as klipot; se resistimos ao impulso de reagir, e se murmuramos Modeh Ani em nossos corações, alimentamos o Sistema da Kedushá.

É importante, também, compreender que sempre que falhamos, afastando-nos da Kedushá, produzimos nas outras pessoas, especialmente nos que não praticam a Kabbalah, a RM, a Revelação do Mal. Não para eles, evidentemente, mas para nós mesmos. Como eles vivem no Sistema da Tuma´a, como estão em nível mineral de alma, cabalisticamente, eles não percebem as potências negativas e positivas de que o Universo é composto. Sempre que nossos Acusadores entram em ação, sabemos exatamente onde está a raiz do nosso mal. Nunca, em nenhum momento, podemos esquecer que o mal é o desejo de receber em benefício próprio. E o bem o desejo de doar em benefício do Criador. Enquanto o mal, em nós, e somente em nossos Kelim, não for corrigido pela Luz que Reforma, a Luz Circundante, a Ohr Makif, continuaremos a ser atacados, implacavelmente. Pequenos erros cotidianos que cometemos, um copo que não lavamos ou uma toalha que deixamos atirada depois do banho, transformam-se, nas duríssimas palavras do Acusador, em provas cabais de que a “Kabbalah não funciona”, de que somos “hipócritas”, de que nossas tentativas de purificação são ridículas e ineficientes. As forças da Sitra Achra farão de tudo para nos ver no chão, no pó, fora do Jardim. É que o “outro lado” jamais terá acesso aos sabores inigualáveis do Pardes. Resta-lhe a alegria de nos ver no exílio também.

Na Antiguidade, essa guerra diária e constante entre as forças da Tuma´a e da Tahara levou os cabalistas ao deserto, à solidão e ao isolamento humano. Assim nasceram os anacoretas. Enormes quantidades de energia psíquica são desperdiçadas nesses enfrentamentos a que nos submete o Acusador. Contudo, esse dispêndio psíquico, através de um simples Modeh Ani, converte-se em energia espiritual. Sentir mágoa, sentir rancor, sentir-se injustiçado diante do Acusador é ação de um ego ainda não corrigido. Devemos, sempre, agradecer pela oportunidade de auto-correção que Boreh nos envia através do Acusador.

sexta-feira, 16 de março de 2018

Otiot (1)




Os significados das Letras Hebraicas





1. Conceito
O princípio conceitual subjacente associado com a letra.



2. Significado
O significado literal do nome da letra.



3. Formato
A associação visual primária relacionada ao formato das letras.



4. Número
O valor numérico da letra segundo calculado pela Guemátria. Correspondências básicas nas três dimensões de espaço, tempo e alma.



5. Espaço
Os elementos físicos, os corpos celestiais e os signos do zodíaco.



6. Tempo
As estações, os dias da semana e os meses do ano.



7. Alma
Os membros e órgãos do corpo humano, responsáveis por mediar experiências relacionadas com o "eu".



Significados associados:



8. Qualidade, dom ou sentido
Expressões inatas ou adquiridas de experiência vivida, controlada pelos membros e órgãos da alma.



9. Arquétipo
Figuras arquetípicas da história espiritual.



10. Canal
Os canais horizontais, verticais e diagonais conectando as Dez Sefirot.


quarta-feira, 14 de março de 2018

Sefer Ha Zohar (1)


 Beresheet A


1.    Fazendo um entalhe sobre a Luz Primordial



(O Zohar discute a fase primordial que ativou o processo de Criação. Essa fase produziu um espaço vazio, um vácuo, dentro do qual o nosso Universo físico, eventualmente, nasceria. Assim como a semente contém todos os estágios que produzirão uma árvore desenvolvida, incluindo a fruta final, a semente de nosso Universo contém todas as almas da humanidade, incluindo nossa completa e final realização. Compreender isso motiva-nos a completar nosso próprio trabalho espiritual. Isso acelera nossa transformação espiritual pela revelação de nossas conexões com a semente, que é a causa das causas.)





1


 No começo da manifestação do desejo do Criador de criar, isto é, quando o Rei quis emanar e criar o mundo, uma forte faísca fez um entalhe sobre a Luz Celestial. Essa forte faísca (que emanou da mais oculta das coisas ocultas, do Segredo de Ein Sof) assumiu uma forma sem forma. A faísca foi então inserida no centro de um círculo, que não era nem branco, nem preto, nem vermelho, nem verde, nem de nenhuma outra cor. Quando as medições começaram, a faísca criou cores que brilharam dentro do espaço vazio e dentro do entalhe. De dentro da faísca, dessa forte faísca, uma fonte brotou, da qual as matizes aqui embaixo receberam suas cores.



2


Da mais oculta das coisas ocultas, do segredo da Luz Sem Fim, duas Faces emanaram: uma se dividiu e a outra não se dividiu. A atmosfera da Luz Sem Fim era desconhecida até que sopros vigorosos formaram Atik (Keter), e um ponto celestial escondido brilhou. Além desse ponto, nada é cognoscível e, por causa disso, ele é chamado pelo nome Bereshit, que significa o primeiro de todos os enunciados.



(ASHLAG, Yehuda. The Zohar. Los Angeles: The Kabbalah Centre International Inc. Vol. 1, p. 152-3).


terça-feira, 13 de março de 2018

Hillulot das Faíscas Sagradas


Rabi Yitzchak Luria


5 de Av |17/07/2018

(Tradução de Tati Franz)



Nascido em: Jerusalém, Israel, 1534

Falecido em: Safed, Israel, 1572



Respeitosamente conhecido como Ari HaKadosh, o Santo Ari. O nome Ari é um acrônimo de Eloki Rabbi Yitzchak. Há quem diga que significa Leão, pois ele foi o leão da sua geração.



“Nosso Mestre disse que onde termina a filosofia, começa a Kabbalah. E onde terminam os ensinamentos cabalísticos do Ramak, começam os ensinamentos do Ari”, escreveu o Rabi Chaim em nome do seu professor, o Gaon de Vilna.


O Ari perdeu o pai (Shlomo) ainda muito jovem e sua mãe se viu forçada a ir morar com a família no Egito, onde seu tio, Rabi Moshe Francis, que era muito rico, os ajudou e cuidou de todas as suas necessidades, como um pai verdadeiramente atencioso. O Ari casou com uma prima, filha desse mesmo tio.


Estudou na Yeshivá do Rabi David ibn Zimra (o Radbaz), um grande e notável erudito, de quem mais de três mil responsas haláchicas foram publicadas. Seu Rabi foi o Rabi Betzalel Ashkenazi, autor do famoso Shita Mekubetzet. O Ari passava boa parte do seu tempo recluso em uma pequena casa ao lado do Rio Nilo, onde estudava ininterruptamente. Ali, Eliyahu Ha Navi aparecia e lhe ensinava Segredos de Torá, conhecidos como Sod ou Kabbalah.



As fontes da Chochmá (Sabedoria) estavam abertas para ele. Além disso, enquanto dormia, sua alma elevava-se às Esferas Superiores até alcançar a Metivta d’rekiya, a Academia Celestial. Lá, o Anjo que guarda a entrada lhe perguntava com quem desejava estudar. Às vezes, ele escolhia a Yeshivá dos Tzadikim mencionados no Zohar, o tanaíta Rabi Shimon Bar Yochai, Rabi Yeiva Saba ou Rabi Hamnuna Saba, que explicavam-lhe as diversas passagens do Zohar que ele havia estudado naquele dia, mas que não haviam sido totalmente compreendidas. Outras vezes, ele preferia visitar a Yeshivá de Betzalel ben Uri ben Chur, construtor do Mishkan, ou Aharon HaKohen, com quem aprendia todos os segredos aludidos na estrutura do Mishkan e do Avodah, o serviço divino.
        

Em diferentes ocasiões, ele escolhia estudar com os Profetas, com quem refletia acerca dos segredos ocultos nas suas profecias. O Ari precisava apenas dizer a palavra e o Anjo o levaria ao professor de sua escolha. Com isso, o Ari pôde receber o que está além da compreensão e entendimento humanos.



Foi Eliyahu Ha Navi que lhe disse para ir à cidade de Safed, no norte de Israel, onde encontraria o Rabi Chaim Vital, a quem deveria revelar os ensinamentos secretos, que seriam conhecidos como Kabbalah Luriânica. E, assim, em 1570, com apenas 36 anos, dois anos e meio antes da sua morte, o Ari estabeleceu-se em Safed, conhecida como o centro da Kabbalah daquela época. Lá vivia o grande cabalista Rabi Moshe Cordovero, o Ramak (autor do Pardes Rimonim e Or Yakar, obras cabalísticas sobre o Zohar).



Embora o Ramak tenha falecido com 48 anos, e apenas meio ano depois da chegada do Ari à cidade de Safed, referia-se a ele como Moreinu, nosso mestre. Com o tempo, o sistema de estudos cabalísticos desenvolvido pelo Ari foi aceito dentre aqueles que estudam os seus segredos ocultos, substituindo os sistemas antigos.

Ainda que fosse muito jovem (apenas 36 anos), o Ari estava uma “cabeça e um ombro” acima de todos os outros, mesmo daqueles muito mais velhos que ele. Sua santidade e profundo conhecimento tanto do nigleh (Torá revelada) quanto de nistar (Torá oculta) era evidente a todos. Não havia qualquer área da Torá que lhe escapasse. Mesmo os grandes vinham beber de suas águas, implorando-o para serem admitidos no seu círculo de alunos.



O próprio Ari nunca escreveu nenhum de seus ensinamentos cabalísticos. Os únicos escritos seus que temos são uns poucos piyutim e alguns belos zemirot, tais como Azameir Bishvachin, Asader Lis’udata e Bnei Heichala, músicas que são cantadas no Shabat. Quase tudo o que sabemos hoje foi registrado pelo seu estimado aluno, Rabi Chaim Vital. E é preciso ter em mente que tudo isso foi feito no curto espaço de tempo de dezoito meses, pois o Ari faleceu com apenas 38 anos de idade.



Ele ensinou os segredos do Zohar de cabeça, sem qualquer texto na sua frente. E também ensinou yichudim e kavanot especiais a seus alunos. Entretanto, não transmitiu todo o seu conhecimento diretamente a eles. Antes disso, ensinava apenas as notas introdutórias. Só Chaim Vital recebia as explicações completas das palavras do mestre, para o benefício dos outros.



Seus alunos imploravam para que escrevesse seus ensinamentos, a fim de que pudessem estudá-los mais detidamente, e para que as futuras gerações também pudessem se beneficiar de sua sabedoria, mas o Ari sentia que seria melhor que o Rabi Chaim registrasse seus ensinamentos à medida que as palavras fluíam da sua boca. Chaim Vital foi seu fiel escriba e o único em quem o Ari confiava para esta difícil tarefa, e apostava na sua compreensão apurada, pois sabia que Chaim Vital era quem melhor absorveria e transmitiria o que desejava dizer.


Rabi Chaim Vital escreveu sobre o mestre: “O Ari transbordava Torá. Ele era totalmente proficiente no Tanach, na Mishná, no Talmud, em Pilpul, Midrash, Agadá, Ma’aseh Bereshit e Ma’aseh Merkavá. Era proficiente na linguagem das árvores, dos pássaros e na fala dos Anjos. Ele conseguia ler os rostos das pessoas à maneira descrita no Zohar (2:74b). Ele podia saber tudo o que qualquer pessoa tivesse feito, e também o que faria no futuro. Ele conseguia ler o pensamento das pessoas, frequentemente antes mesmo do pensamento ter entrado na mente delas. Ele sabia dos eventos futuros, estava à par de tudo o que acontecia aqui na Terra, e o que havia sido decretado nos Céus. Ele conhecia os mistérios do Guilgul (reencarnação), quem já havia encarnado antes e quem estava aqui pela primeira vez. Ele conseguia olhar para a pessoa e lhe dizer de que maneira ela estava conectada a Adam Kadmon, o Homem Primordial, e de que forma se relacionava com ele. Era capaz de ler coisas espantosas (sobre as pessoas) na luz de uma vela ou na chama de uma fogueira. Com seus olhos, ele observava e conseguia ver as almas dos Justos, tanto daqueles que haviam falecido há pouco quanto tempo quanto os que haviam vivido em tempos muito antigos. Com estes, ele estudava os verdadeiros mistérios. Pelo cheiro de uma pessoa, ele podia saber tudo o que ela tinha feito, uma habilidade que o Zohar atribui à Yenika (criança) Celestial (Zohar 3:188a). Era como se todos esses mistérios estivessem no seu íntimo, esperando para serem ativados sempre que ele desejasse. Ele não precisava fazer mitboded (isolar-se) para encontrá-los. Tudo isso nós vimos com os nossos próprios olhos. Não foram coisas de que ouvimos falar. Eram coisas maravilhosas que não se viam mais no mundo desde a época do Rabi Shimon bar Yochai. Nada disso foi recebido por ele através de magia, os ceus proíbam, mas vieram a ele automaticamente, como resultado da sua santidade e ascetismo, após muitos anos de estudo em textos cabalísticos tanto antigos quanto mais recentes. Com isso, ele aumentou sua misericórdia, ascetismo, pureza e santidade até alcançar um nível em que Eliyahu Ha Navi (o profeta Elias) se lhe revelava constantemente, falando-lhe de “boca a boca” e ensinando-lhe esses mistérios.


Shamati (137)

    137. Zelofeade estava coletando madeira (Ouvi em Tav - Shin - Zayin , 1946-1947)   Zelofeade estava coletando madeira. O Zohar i...