terça-feira, 31 de dezembro de 2019

Suor no rosto (2)



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As terras vermelhas do Planalto Médio Central eram férteis, bem servidas de rios e afluentes, e muito baratas. A região, escassamente povoada, precisava de braços para o trabalho de desmatamento e de ampliação das lavouras. Um novo país estava nascendo, a reboque da revolução getulista, e ele precisaria de novos e mais variados produtos agrícolas. Na época, não se pensava em crescimento sustentado, equilíbrio ecológico, vacum rastreado. Na adolescência, no Colégio Estadual Cardeal Pacelli, tive um professor que falava muito em ecologia, em destruição dos recursos naturais e nos perigos da superpopulação mundial. A cidade inteira dizia que ele era louco. Sempre, na história humana, os visionários e os profetas são vistos pelas massas ignorantes como doentes mentais, desequilibrados ou poetas. Ridicularizados em vida, depois recebem homenagens póstumas, especialmente quando seus vaticínios se cumprem. Os antigos, com sua Sabedoria derivada da Mesopotâmia, onde apareceram os primeiros cabalistas, usavam a mesma palavra para designar os loucos e os poetas: vate. Daí, vaticínio, vidência, adivinhação. Não se sabe se o vocábulo tem origem latina, grega ou celta.    



Para os migrantes era um imperativo de sobrevivência colocar abaixo as milenares canafístulas e canjaranas e plantar em seu lugar mandioca, feijão e arroz do seco. A soja, que transformaria completamente a estrutura fundiária da região, viria bem mais tarde, na década de 50. Não tenho saudade de madelaines, porque nunca as tive, mas o cheiro de pão de milho assado no forno à lenha desperta-me também memórias involuntárias. Outro odor de que tenho saudade é o de madeira recém-cortada por motosserras ou serras-fitas, por mais agressivo e politicamente incorreto que seja admitir isso. Eu brincava de cowboy numa serraria, com meus colegas de escola. Os troncos de canafístula, compridos, majestosos, e as tábuas de guajuvira, louro ou cedro já cortadas, serviam-nos de abrigo contra as bolinhas de mamona, jogadas pelos estilingues que chamávamos de bodoques. Apesar da violência do folguedo, que nossos pais certamente não conheciam, nunca tivemos um olho vazado. Havia uma regra, que era respeitada por todos os meninos: jamais atirar na cabeça. O infortúnio é um erro de cálculo, sempre repito, plagiando não sei quem. A frase é muito boa para ser minha, preciso admitir. O infortúnio é um erro de cálculo e também uma questão de acaso. Centenas de bolinhas de mamona voando para lá e para cá a velocidades espantosas e nenhum acidente grave, exceto alguns vermelhões. Talvez por isso eu tenha sido tão obsessivo com a segurança da Sofia, a filha do meio. E seja obsessivo agora com a segurança da Anna, a filha mais nova. Crianças só caem e se machucam quando os adultos se descuidam. Quando nos hospedamos em hotéis e pousadas, ou na casa de familiares e amigos, vasculho fios desencapados, escadas perigosas, móveis com arestas pontiagudas, janelas sem proteção. O mundo, já me convenci, foi planejado para os adultos. A sobrevivência das crianças é um milagre. Eu próprio me surpreendo de ter chegado aos sessenta anos praticamente ileso, com exceção de algumas escoriações, fraturas e cicatrizes.



Na serraria, entre restolhos de madeira, troncos e serragem, muitas vezes encontrei os escorpiões negros que reapareceriam quarenta anos depois em meu romance O escorpião da sexta-feira. Naquele tempo, e naquela região, as madeireiras eram comuns. Quando a matéria-prima escasseou, migraram para o norte do Paraná. E depois para a Amazônia, que está sendo devastada a uma velocidade impressionante. O que a natureza levou centenas de milhares de anos para construir, nós destruiremos em um século. Por isso, é preciso reflorestar o Rio Grande do Sul com urgência, para que as serrarias voltem. Que me perdoem os líricos, os ingênuos e os ignorantes, mas a ecologia só produzirá efeitos reais quando for um bom negócio.



Meu pai, quando criança, sentava-se sobre toras de cedro com uma canequinha de alumínio e molhava o longo serrote manual para que o calor não emperrasse a lâmina que meu avô e meu tio Olavo puxavam o dia inteiro. Para complementar os rendimentos da olaria, eles produziam dormentes para os trilhos da linha de trem de Santa Rosa, em construção. Trinta anos depois, para economizar as passagens de ônibus, eu percorria a pé o trajeto entre Cruzeiro, onde morava na casa de meu tio Silvano, e Santa Rosa, onde eu trabalhava no Jornal O Noroeste, exatamente sobre aqueles trilhos, assoviando, e sonhando em viver de literatura. O sonho, como os trens, perdeu-se na distância. Hoje, com várias dezenas de livros publicados, e traduzido em outros países, vendo infinitamente menos do que vendia na década de 80 do século passado. Ainda assovio, e para sobreviver ensinei a muitos a arte de escrever. Hoje, não ensino mais Escrita Criativa, nem Literatura. Dedico-me agora a mais antiga ciência da humanidade, a Chochmá Nistará, a Sabedoria Secreta, que os gregos aprenderam com os babilônios. Hoje eu entendo o Aristóteles, que recomendava que não se ensinasse a Sabedoria para alunos eticamente despreparados. Ou, como diz o Talmude, para alguns alunos é melhor que fiquem sentados e que não façam nada. Referiam-se, os antigos sábios, aos Segredos e não aos Sabores. Os Sabores são para todos; os Segredos, para alguns. Quando Julius Robert Oppenheimer, o físico responsável pelo Projeto Manhattan, enviou o telegrama a Albert Einstein comunicando que tinham acabado de “libertar Saturno”, falava de Segredos. Imagino que ele, judeu e conhecedor da Sabedoria de seu povo, tenha pensado na Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal ao contemplar o cogumelo formado no deserto de Los Alamos, no Novo México, quando a primeira bomba atômica foi detonada.



Da primitiva cobertura vegetal, que era quase completa no noroeste do estado do Rio Grande do Sul, e que a natureza levou tanto tempo para produzir, pouco restou. Hoje, as terras altas estão transformadas num infinito tapete verde e rasteiro de soja. Com a fauna e a flora devastadas, a região, agora, sofre com as estiagens, os temporais violentos e as invasões de colonos sem-terra.

segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

Suor no Rosto (1)




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Durante a década de 30, em conseqüência da modernização que começava a produzir-se no Brasil, houve um surto migratório em direção ao Alto Uruguai, a noroeste do Rio Grande do Sul. Numa dessas levas, meus antepassados, que viviam no município de Cachoeira do Sul, viajaram em carroções, como no Velho Oeste, e subiram a serra em direção ao Planalto Médio Central, onde se instalaram. Em Aventura no Rio Escuro contei às crianças parte dessa história, ficcionalmente. Meio século depois, eu faria o caminho inverso dos meus avôs, retornando à planície, migrante também. Sem uma cachorra como a Baleia, de Graciliano Ramos, mas com uma filha, que hoje é a filha mais velha, Maíra, casada com Armando Júnior, e que já me deram dois lindos netos, o Bernardo e a Ana Bella.



Segundo Bernardo Augusto Kiefer, meu avô paterno, que encheu os meus primeiros anos de vida com as maravilhosas aventuras de Till Eulenspiegel, e com a sabedoria caseira dos antigos Almanaques, a viagem teria durado dezesseis dias, em carroções lentos e desconfortáveis. Contei fragmentos dessa saga em A face do abismo, meu romance faulkneriano. Esse livro é cheio de maneirismos lingüísticos, cortes narrativos abruptos, vazados em linguagem torrencial, de difícil leitura. Por muitos anos, acalentei a esperança, e a ilusão, de um dia reescrevê-lo. Eu não sabia que eu tinha uma morte “no meio do caminho”, que no “meio do caminho” eu tinha uma morte. E a experiência da morte, eu soube depois de ser reanimado, modifica tudo. Durante 49 anos eu quis ser escritor, eu quis ter o meu nome gravado nos livros de história da literatura. Passava semanas fechado dentro de um quarto, a inventar narrativas, sem contato com as pessoas. Hoje, passo semanas sentado no meu pomar, brincando com a filha mais nova, a Anna, que tem um ano e meio, ou conversando com meus amigos e alunos, ou olhando as estrelas na companhia da filha do meio, a Sofia, ou tomando chimarrão com a Marta, essa extraordinária companheira que Hashem colocou em meu caminho. Agora, não quero ser nada a não ser alguém capaz de compartilhar com os outros tudo que aprendeu num outro mundo, muito além desse mundinho em que ter o nome nos livros de história da literatura tem alguma importância.



Confesso que em meu fracassado projeto de ser escritor faltou-me o fôlego e a paciência descritiva de um John Steinbeck, escritor que tanto admirei na juventude. Fôlego talvez eu também o tivesse. Não tive, na verdade, condições econômicas para ser aquilo que eu queria ter sido ou o que poderia ter sido no campo da arte narrativa. Dinheiro compra tempo, e tempo nunca tive. Minha predileção pela história curta, o conto e a novela, não foi tão inocente, e nem tão esquemática, como eu próprio, às vezes, fiz crer, em entrevistas, artigos e palestras. Um conto, pela sua própria natureza, pode ser escrito num feriado prolongado. Ou numa tarde de domingo. Embora gestado longamente. E burilado ainda mais demoradamente. Mas não um romance. E muito menos um romance épico. De Machado de Assis, também confesso agora, eu só invejo o emprego de funcionário público. Mesmo hoje, enquanto ainda luto para comer o pão no suor do meu rosto, só me lancei à perigosa aventura de escrever memórias porque aproveitei as forçadas férias da epidemia de gripe que, em agosto de 2009, assustou aqueles que já esqueceram que a luta pela sobrevivência do ser humano sempre foi contra os vírus e as bactérias. A maior parte de nossa massa corporal é composta de bactérias, numa estranha, inquietante e hilária simbiose. Sem esses seletivos e selecionadores microorganismos nós não estaríamos aqui. Mais de 10 anos depois que a epidemia de gripe me levou a iniciar a escritura de Suor no rosto, eu retomo o projeto, por culpa de um amigo paulista, chamado Carlos Mendes, que é um dos responsáveis pelo programa Afinal, o que somos nós? Depois de uma longa entrevista que dei ao seu Canal de Youtube, retornei para Porto Alegre com a vontade de voltar a escrever minhas memórias. Assim, voltemos ao passado e aos seus fios invisíveis, que são incapazes de nos salvar do que nos espera no fundo do túnel, com ou sem pandemias. Não, não nos salvam, mas nos recarregam com a energia que brota do ônfalos.

domingo, 29 de dezembro de 2019

Hillulot (11)


Rabi Yair Chayim Bacharach

Rabi alemão e maior posek (Juiz Halachico) do século XVII

1º de Tevet | 29/12/2019

Nascido em Lipník nad Bečvou, República Checa, em 1638
Falecido em Moravia, República Checa, em 1702

O Rabi Yair Chayim Bacharach viveu primeiramente em Koblenz, na Alemanha, mas passou a maior parte da sua vida nas cidades de Worms e Mainz, também na Alemanha. Sua avó, Eva Bacharach era neta do Maharal de Praga, enquanto seu pai, Moses Samson Bacharach, e seu avô foram rabinos em Worms.

É o autor de Chavos Yair ("Vilas de Yair"), publicado em Frankfurt em 1699, uma compilação de responsas cujo título veio a ser o nome pelo qual é conhecido, além de ser uma referência à sua avó, Chava, e também a um local mencionado em Números 32:41 e em outros livros da Bíblia judaica. Também escreveu Mekor Chayim, obra que pretendia ser o principal comentário ao Sulchan Aruch, mas que foi recolhida por Bacharach quando o mesmo descobriu que outros comentários haviam surgido, especialmente o Taz e Magen Avraham. Mesmo assim, ainda é considerado como principal fonte de referência acerca dos minhagim (costumes) da época e região. Bacharach também escreveu uma crítica à obra do Rabi Aharon Teomim-Frankel, Mateh Aharon, na qual condena a metodologia do pilpul, popular entre os rabinos da época. Além de sua erudição haláchica, também dominava todas as ciências, música, história e escrevia poesia, e compilou uma enciclopédia de 46 volumes sobre vários assuntos. 

Em 1689, a comunidade de Worms foi dizimada pelos franceses durante a Guerra dos Nove Anos, sendo reconstruída pouco a pouco. Em 1699, Bacharach foi indicado como rabino da cidade e, seguindo o legado do seu pai e avô, serviu como tal por três anos, até sua morte em 1702. Seu epitáfio inicia com as seguintes palavras: "Um terrível e grave horror recai sobre nós quando a luz do nosso mestre (Rabbeinu) se oculta...". Em 1982, sua principal obra, Mekor Chayim, é finalmente publicada por Machon Yerushalayim.
Considerações
Bacharach era cauteloso quanto suas opiniões sobre a Kabbalah. Ainda que considerasse a Kabbalah algo muito sagrado, sustentava que a mesma também trazia um grande risco teológico e que por isso deveria ser estudada apenas pelos mais devotos e apenas sob orientação de um professor. Na sua responsa, Bacharach conta que alguém lhe pediu para explicar as fórmulas cabalísticas comumente impressas nos livros de orações. Bacharach se recusou a responder, mas quando a pessoa insistiu, limitou-se a dizer que desconhecia a explicação. Ainda que desencorajasse o estudo aprofundado da Kabbalah, estimulava a leitura simples do Zohar.

Que o mérito do tzadik Rabi Yair Chayim Bacharach proteja a todos nós, Amém.

segunda-feira, 8 de julho de 2019

PITUM HA-KETORET (1)




Em hebreu: פִּטּוּם הַקְּטֹרֶת. Tradução para português: “Ingredientes do incenso". Palavras iniciais da baraita (Ker. 6a e TJ, Yoma 4:5, 41d) que enumeram as várias espécies de incenso oferecido no  Templo no serviços da noite e da manhã (Êxodo 30: 34–38).



Na liturgia ashkenazi essa passagem talmúdica é recitada nos sábados e nos feriados no final da oração Musaf, imediatamente depois do hino Ein Ke-Elohenu. Na ritualística sefaradita é recitado a cada manhã e tarde.



O Zohar (Num. 224a) declara que a pessoa que recita o Pitum ha Ketoret será poupado da morte.



Os cabalistas recitam o Pitum ha Ketoret todos os dias, às 9h e às 15h.

quarta-feira, 29 de maio de 2019

Glossário de Termos Cabalisticos (8)




Haka´a



Essa palavra significa impacto e é resultante, na experiência cabalística, do contato entre a Ohr e a Masach, a Luz e a Tela, e se assemelha a interação de dois objetos sólidos, quando um deseja penetrar o outro, e este resiste à penetração.



O prazer derivado desse Zivug de Haka´a, dessa Cópula de Impacto, é indescritível. E esse é um dos significados de “levar contentamento ao Criador”, que é a essência do trabalho dos cabalistas.



Como essa é uma experiência que somente cabalistas são capazes de vivenciar, somente cabalistas são capazes de entender o que isso significa.   

quinta-feira, 21 de março de 2019

Naassê Venishmá (2)



Primeiro, a Luz envolve (Ohr Makif); depois, a Luz preenche (Ohr Pnimi).



Mas o que é a Luz, ou que Luz é essa?



Na ausência de um termo melhor, os cabalistas chamam a Essência Divina de Luz, Ohr, no original hebraico.



Não há termo melhor que Ohr para expressar o remmez (indício) da Essência do Ayin, mas traduzir por Luz, em português, é muito problemático, já que Luz se opõe a escuridão, gerando uma incômoda dicotomia. A Essência Divina é, também, escuridão, porque Nele Luz e Trevas são uma coisa só. A Ohr é uma imanência transcendente e uma transcendência imanente, simultaneamente. Platão chamou a isso de Phytourgós, aquilo que faz o que é vir a ser. Seu aluno Aristóteles, menos místico e mais pragmático, chamou aquilo de Energuéia, que deu origem, em português, à palavra energia, mais neutra e não necessariamente luminosa.



Ohr, Luz, Energia, Brilho (Bahir), Esplendor (Zohar), Radiância, Potência, Escuridão...



Luz, corpúsculo de onda, limitada a uma velocidade de quase trezentos mil quilômetros por segundo, não define o que os cabalistas recebem em seus Kelim (Vasos) corrigidos. Oneg (Prazer) talvez fosse uma definição melhor para Luz, manifestação da Essência Divina.



Como expressar o inexprimível? Como definir o indefinível?



A Experiência Mística é tão imanente e pessoal que não pode ser explicada, e é tão transcendente e universal que não pode ser compartilhada.



No limite da compreensão humana, podemos apenas dizer que a Luz Circundante (Ohr Makif) envolve; e que a Luz Interna (Ohr Pnimi) preenche.



E o resto é prazer.

segunda-feira, 18 de março de 2019

Guerei Tzedek (1)


  

Dezoito convertidos ao judaísmo que você deveria conhecer




Batya



Mais conhecida como Bityah, ela aparece na Tora simplesmente como a filha do faraó que encontrou o bebê Moshê flutuando no Rio Nilo e levou-o ao palácio para criá-lo como um príncipe egípcio. Segundo o Talmud, Batya tinha ido ao rio para se purificar da idolatria da casa de seu pai e converter-se à religião judaica. Uma mulher justa, seu próprio nome significa “filha de D’us”, e a tradição nos diz que ela estava entre os poucos seletos que entraram no Jardim do Éden (Paraíso) sem passar pela morte.





Yitro



Um sacerdote instruído que tinha explorado todas as divindades conhecidas pelo homens na época, Yitro, sogro de Moshê, juntou-se aos israelitas no deserto, proclamando: “Agora eu sei que D’us é maior que todos os deuses”. Quando ele viu que Moshê estava tentando por si mesmo aconselhar todo o povo no deserto, ele entendeu que a situação era difícil e o encorajou a designar juízes para ajudá-lo [daqui originou-se a estrutura dos tribunais e julgamento por juízes e suas instâncias]. Ele é mencionado por sete nomes diferentes no decorrer da Escritura.





Rahab



Os sábios nos dizem que Rahab era excepcionalmente bela. Quando o povo de Israel se preparava para entrar na Terra Prometida, enviaram dois exploradores para inspecionar a cidade de Jericó. Rahab, que é descrita como uma zoná – que pode ser traduzido como “meretriz” ou “estalajadeira” – abrigou os enviados e os ajudou a fugirem da captura, e como recompensa pela sua bondade ela e sua família foram poupadas da destruição da cidade. Após se converter, Rahab casou-se com Joshua, e sua união produziu lideres como Yirmiyahu e Yechezekel.





Ruth



Princesa moabita que ficou viúva de seu marido judeu, Ruth seguiu fielmente sua ex-sogra até Bethlehem na Judéia, com a famosa expressão: “Onde quer que você vá, eu irei; e onde te abrigares, eu me abrigarei; teu povo será meu povo, e teu D’us meu D’us”. Sua devoção foi percebida por Boaz, um líder piedoso e rico. Como é descrito no Livro de Ruth, os dois se casaram, e seu bisneto foi ninguém menos que o Rei David. Ruth é considerada com uma convertida exemplar, e sua história é lida em Shavuot, o dia quando todos nos convertemos no Sinai.





Obadia, o profeta



Obadia é o autor do minúsculo Livro de Obadia, que possui apenas 21 versos. Embora a escritura nos conte pouco sobre sua linhagem, os sábios explicam que D’us escolheu Obadia para dar a profecia sobre o supremo triunfo de Israel sobre Edom porque ele era um edomita convertido. Um ministro do perverso Rei Ahab e da Rainha Jezebel, Obadia é descrito como alguém que “temia muito a D’us”. Quando Jezebel organizou sua campanha para exterminar os profetas de D’us, Obadia corajosamente escondeu 100 profetas em cavernas e gastou todo seu dinheiro para alimentá-los e sustentá-los. Sua esposa foi a mulher para quem Elisha realizou o milagre do óleo que continuou brotando, em seu mérito.





Shemayah e Avtalyon



Descendentes de Sennacherib, da Assíria, esses dois eruditos atuaram ao mesmo tempo como presidente e chefe de justiça do Sanhedrin – a Suprema Corte, em Jerusalém. Os registros são escassos, e é possível que eles fossem os filhos de convertidos em vez de eles próprios os convertidos. Apesar disso, é claro que suas realizações de Torá foram amplamente reconhecidas e muito valorizadas. Em um Yom Kipur enormes multidões se reuniram ao redor deles e isso despertou a inveja do sumo sacerdote, que zombou da humilde origem deles. Eles não ficaram passivos e responderam sabiamente.

Shemayah ensinava: “Ame o trabalho, despreze o domínio sobre os outros, e evite intimidade com o governo.

O ensinamento mais conhecido de Avtalyon: “Eruditos, sejam cuidadosos com suas palavras, pois vocês podem ser exilados a um local habitado por maus elementos [que irão distorcer suas palavras para adequar aos seus propósitos negativos]. Os discípulos que vieram depois de vocês irão então beber dessas águas más e ser destruídos, e o Nome do Céu será profanado”.





Ben Bag Bag e Ben Hey Hey



Na geração após Shemayah e Avtalyon, encontramos outro par de convertidos conhecidos como Ben Bag Bag e Ben Hey Hey. Presumivelmente por causa do perigo envolvido em converter-se ao Judaísmo na época, seus nomes na verdade eram códigos para suas verdadeiras identidades. Hey é a letra hebraica que foi adicionada aos nomes de Avraham e Sarah. Assim Ben [“filho de”] hey hey confere ao convertido o status como um filho de Avraham e Sarah. Bag bag leva o código um pouco além, pois bag é soletrado beit e gimmel, que juntas têm o mesmo valor numérico que hey. Alternativamente, Bag Bag pode ser um acrônimo para Ben gueir uben guiyoret (“o filho de um convertido e uma convertida”). Qualquer que seja o motivo para seu nome, Rabi Yochanan Ben Bag Bag era conhecido por ser fluente em todas as áreas da Torá, e Ben Hey Hey era famoso por conversar com Hillel.





Rainha Helena de Adiabene



Helena (ou Hilni, como era conhecida em hebraico) foi a rainha de um pequeno país idólatra. Ela e seus filhos ouviram falar sobre o Judaísmo e aceitaram as crenças judaicas como suas. Seus sete filhos se esforçaram em Torá e se tornaram excelentes eruditos. Quando um foi para a guerra, ela prometeu ser uma Nazir por sete anos. Viajou a Jerusalém para levar os sacrifícios exigidos, e ficou. Era extraordinariamente generosa com o povo judeu em Jerusalém e com os cofres do Templo, doando muitos vasos de ouro.





Rei Monobaz



O Rei Monobaz (ou Munbaz) II, filho de Helena, seguiu o exemplo de sua mãe, partilhando livremente sua riqueza, até mesmo esvaziando seus cofres reais durante períodos de fome em Jerusalém. Quando seus parentes reclamaram, “Seus pais preservaram aquilo que receberam e até acrescentaram, enquanto você simplesmente desperdiça tudo!”, ele respondeu calmamente: “Sim, meus pais juntaram fortunas aqui, mas eu juntei uma fortuna no céu”.





Rabi Yochanan Ben Torta



Rabi Yochanan Ben Torta foi um dos grandes sábios e líderes na geração que viveu durante a destruição de Jerusalém. Como ele entrou no Judaísmo? Certa vez ele comprou uma vaca de um judeu. A vaca trabalhava a semana inteira, mas se recusava a trabalhar no Shabat. Ao aprender sobre o conceito do Shabat, ele ficou tão impressionado que se converteu ao Judaísmo e se destacou em seus estudos.





Onkelos



Em sua edição padrão dos Cinco Livros de Moshê com comentário, pode-se ver a tradução de Onkelos à esquerda do texto principal em hebraico.
Onkelos foi sobrinho do imperador romano Adriano. Bem preparado nas culturas grega e romana, ele se afastou da riqueza e do poder de sua família e se converteu ao Judaísmo. Notando que o aramaico estava se tornando rapidamente o idioma dominante do povo judeu, Onkelos transcreveu uma fiel tradução aramaica da Torá, que foi impressa desde então em toda edição padrão.





O Kuzari



Uma das obras filosóficas mais importantes de todos os tempos foi escrita por Rabi Yehudah Halevi, um erudito e poeta judeu que viveu na Espanha. Conhecido como o Kuzari, o livro é formado ao redor de conversas teóricas de um rei Khazar que estava procurando a “verdadeira fé”. Ele cita um sábio judeu e representantes de outras religiões, e no decorrer de suas conversações se torna convencido de que o Judaísmo é a verdade, decidindo enfim se converter.

Embora o livro certamente não seja uma narrativa histórica de uma verdadeira conversa (ou séries de conversas), reflete uma verdade histórica. Havia um reino de Khazares, cuja nobreza tinha se convertido ao Judaísmo. Pouco se sabe sobre eles com absoluta certeza.





Outro Obadia



Johannes, filho de Dreux, nascido numa família normanda nobre ao sul da Itália, estava a caminho do sacerdócio cristão quando ouviu falar do arcebispo de Bari se convertendo ao Judaísmo. No ano 1102, seguindo um sonho impressionante, ele começou a explorar o Judaísmo, e logo determinou que as profecias na Torá não podiam ser entendidas da maneira como os cristãos geralmente as interpretavam. Mesmo enquanto judeus estavam sendo abatidos pelos cruzados, dos quais alguns eram membros de sua própria família, ele decidiu se juntar ao povo judeu, adotando o nome Obadia. Vários dos seus escritos foram preservados na guenizá do Cairo, incluindo fragmentos de sua autobiografia e um hino que ele compôs para ser entoado em Shavuot em homenagem a Moshê.





Mais Outro Obadia?


Na mesma época encontramos evidências de outro Obadia, que se converteu do Islã ao Judaísmo. Ele poderia dizer as partes da prece que se referem a Avraham, Yitschac e Yacov como seus antepassados? Poderia ele agradecer a D’us por ter “nos” tirado do Egito ou agradecer a Ele por não ter feito dele um não-judeu – todas as partes da liturgia de prece padrão? Maimônides respondeu a suas cartas, assegurando que ele poderia. Como um total membro da nação judaica, Obadia era tanto um descendente de nossos patriarcas, e herdeiro de uma tradição majestosa, como qualquer outro judeu.





Moshe Ben Avraham



Nascido em Nikolsburg ou Praga (ambas atualmente na República Tcheca), Moshe foi um impressor no início do século 18 que trabalhou em muitos livros judaicos importantes em Amsterdam, onde tinha se convertido ao Judaísmo. Ele escreveu Tolaot Moshê, que se acredita ser o primeiro livro yidiche de geografia. Eli inclui seções das Dez Tribos, o Jardim do Éden, África, Groenlândia, as Américas, Europa e Ásia, e conclui com um capítulo sobre a era messiânica.





Lord George Gordon



Nascido numa família nobre escocesa em Londres em 1751, Lord George Gordon foi abençoado com um forte senso de justiça. Ficava aborrecido pelo tratamento dos escravos nas Américas quando esteve na Jamaica na Marinha Real, e decidiu entrar na política. Como membro do Parlamento envolveu-se nas questões da Guerra da Independência Americana, e foi acusado (e mais tarde absolvido) de traição após liderar uma marcha através de Londres para petição ao Parlamento sobre o assunto. Depois disso, suas opiniões religiosas vieram à tona, e ele começou a se encontrar com judeus e estudar a Torá. Embora seu pedido inicial tenha sido negado, ele por fim se converteu ao Judaísmo, adotou o nome Yisrael e juntou-se à comunidade judaica de Birmingham. Com uma barba longa e tradicional roupa judaica, ele se devotava à Torá, mitsvot e caridade. Ele foi preso uma segunda vez porque o governo estava ressentido pelo seu abandono anterior. Sua família se envolveu e conseguiu arranjar para ele uma dieta casher, observar os Shabatot e os feriados, e tocar violino para outros prisioneiros. Para demonstrar simchá (alegria) em face da adversidade, ele fazia festas em sua grande cela para quem quisesse comparecer, e pessoas de todas as esferas da vida se tornaram interessadas em sua conversão e na Torá como resultado. Mesmo quando sua sentença terminou, recusaram a sua libertação. Contraiu tifo e faleceu na prisão aos 42 anos.





 Avraham ben Avraham



Perto do túmulo do Gaon de Vilna estão os restos mortais de Avraham ben Avraham, que se converteu ao Judaísmo no Século 18. Um membro legendário da nobre família Potocki, ele viajou secretamente a Amsterdam para se converter de acordo com a tradição, e então devotou muitos anos ao estudo de Torá. Ele foi delatado pelas autoridades enquanto morava perto de Vilna e, após recusar-se a renunciar a sua fé judaica, foi queimado na estaca pela Igreja Católica Romana no feriado de Shavuot.





Warder Cresson



Nascido numa família Quaker na Filadélfia em 1798, Warder Cresson foi escolhido como o primeiro cônsul americano em Jerusalém. Quando chegou à Terra Santa, porém, ele descobriu que sua nomeação tinha sido rescindida. Mas ele estava tão interessado pela comunidade judaica que resolveu se converter. Voltou à Filadélfia para resolver seus negócios antes de mudar para a Terra Santa permanentemente. Sua esposa e família tentaram detê-lo, alegando que ele estava insano e precisava ser internado. Num julgamento amplamente divulgado ele foi considerado como estando com a mente sã, e logo fez a viagem para Jerusalém novamente. Ali ele se casou com uma mulher sefaradita chamada Rachel Modelano (ele e sua primeira esposa tinham se divorciado), e viveu como um judeu sefaradita sob o nome de Michael Boaz Yisrael até seu falecimento em 1860.





A Família na Porta ao Lado

O mundo judaico contemporâneo está profundamente enriquecido pela presença de milhares de sinceros convertidos ao Judaísmo – homens e mulheres de um caleidoscópio de origens que decidiram se juntar ao povo judeu. Invariavelmente foi uma longa jornada que provavelmente incluiu muita busca na alma, conflito, dúvida, e uma grande dose de fé e convicção. Pode ser a mulher sentada ao seu lado na sinagoga, o professor de hebraico de seu filho, ou a família da mesma rua. Os guerei tsedek (justos convertidos) são parte integrante da mishpachá judaica (família) e se você mesmo é um guer tsedek, estendemos-lhe os nossos cumprimentos: bem-vindo a bordo! Estamos felizes por estar conosco.

(Fonte: Ministério da Educação de Israel)

Shamati (137)

    137. Zelofeade estava coletando madeira (Ouvi em Tav - Shin - Zayin , 1946-1947)   Zelofeade estava coletando madeira. O Zohar i...