domingo, 1 de novembro de 2026

Os 13 poderes da alma

 

 

Os 13 poderes da alma

 

Introdução

 

A kabbalah ensina que em todos os níveis da Criação, desde o reino perfeito de Atzilut (o mundo de pura Emanação Divina) até o plano imperfeito de nossa existência terrena, existem dez sefirot (Emanações ou Poderes Divinos), com os quais toda a realidade é construída. A cada uma dessas sefirot se lhes dá um nome, que descreve sua ação específica na modelação da existência.

 

Cada uma das sefirot possui duas dimensões, uma externa e outra interna. A dimensão exterior de cada uma é identificada com a função que desempenha no processo da Criação; a dimensão interna é identificada com a força motivadora oculta que inspira a sua própria atividade. Em seu aspecto externo, a dimensão interior das sefirot somente pode ser considerada dentro do contexto de sua manifestação na alma de um cabalista. Dada a derivação Divina de nossa alma, podemos entender que uma análise de suas propriedades e poderes essenciais servem como o veículo ideal para adquirir compreensão sobre o Criador.

 

O chassidismo descreve a força inspiradora que há detrás de cada sefirá. Enquanto os nomes cabalísticos servem para expressar o efeito Divino que cada um desses poderes tem sobre a Criação, os termos que propõe o chassidismo revelam a dimensão interior de cada uma das sefirot.

 

Outra forma de explicar a diferença entre kabbalah e chassidismo é que a primeira trata dos instrumentos ou recipientes (Kelim) da Criação, enquanto que o chassidismo trata das Luzes (Orot) que enchem esses recipientes. Esta distinção é evidente também nos seus nomes: a palavra kabbalah deriva da raiz hebraica kabel: “Algo que serve como receptáculo ou recipiente”, enquanto que chassidismo provém da raiz chessed, “bondade”, um atributo frequentemente denominado, simbolicamente, como “a luz do dia”.

 

 

Emuná

(Fé)

 

Emuná é o estado espiritual associado com a experiência interna da mais elevada das três “cabeças” de keter, a Reisha d'lo Itiadá (a cabeça incognoscível).

 

Emuná é a conexão essencial, o pacto entre Israel e D'us. Diz um ditado chassídico: a “fé simples” (emuná peshutá) do “judeu simples” (iehudí pashut) o conecta com "a unidade simples (absoluta)" (achdut peshutá) do Atzmuto de D'us (A essência, acima da revelação de Sua Luz Infinita, Or Ein Sof). Toda alma herda sua fé dos patriarcas e matriarcas em geral, e de Abraão, o cabalista, em particular. Como traço hereditário, emuná está sempre presente na alma de cada judeu, embora não necessariamente em forma consciente.

 

A função de Moisés, (presente em cada geração), é manter e reforçar a consciência da fé de Israel, e consequentemente de sua identidade judaica, alimentando-a com a Sabedoria da Torá: Graças a Moisés, foi dado o maná ao povo de Israel. Na Torá, aparece, pela primeira vez por escrito, como man hu, cujas letras conformam também a palavra emuná.

 

A predisposição inata do judeu de entregar sua vida completamente ao serviço de D'us, e até sacrificar a vida por Sua causa, é a expressão essencial de sua emuná no Criador.

 

Taanug

(Prazer)

 

Taanug é o estado espiritual associado, em particular, com a segunda cabeça de keter, a Reisha d'Ain (“a cabeça do Nada”). Em geral, taanug é a força vital, o "fluido" ou “águas viventes” de todos os poderes da alma. Em particular, taanug, que representa o partzuf interno de keter (Atik Iomin), serve para motivar e dirigir a ratzón (o desejo supraconsciente), que representa o partzuf externo de keter (Arich Anpin).

 

Falamos de taanug neelam (o prazer oculto ou inconsciente), em contraste com o taanug murgash (o prazer que se sente); e o taanug pashut (o prazer simples, isto é, a experiência do prazer puro ou serenidade, desligado de todos os outros poderes da alma), em contraste com o taanug murkav (prazer composto, isto é, o prazer inerente à experiência dos outros poderes da alma). A Sabedoria da Torá deriva do estado de taanug Divino, como é expresso pelo Rei Davi, nos Salmos (119:77): “Se não fosse pela Tua Torá que é meu deleite (shaashuim), teria naufragado na minha aflição”; e por seu filho, o Rei Salomão, em Provérbios (8:30): “E Eu (a Torá, falando na primeira pessoa) fui Seu deleite (shaashuim) todo dia...”.

 

Taanug neelam: Prazer oculto

Taanug murgash: Prazer sentido

Taanug pashut: Prazer simples

Taanug murkav: Prazer Composto

 

 

Ratzón

(Vontade ou Desejo)

 

Ratzón é o estado espiritual associado com a cabeça inferior, dentre as três que compõem keter: é a Reisha d'Arich ("a cabeça estendida").

 

Com relação ao poder de vontade, está dito: “Nada pode contra a “própria força de vontade”, e “não há nada tão poderoso quanto a vontade”.

 

No partzuf de Arich Anpin (o partzuf exterior de keter que representa o poder geral de vontade da alma), a “origem da vontade” está associada com sua “coroa” ou seu “crânio”, conhecido como “galgalta”. Neste nível, “não há uma causa (racional) para a vontade”. De qualquer maneira, na sabedoria intrínseca de Arich Anpin, conhecida como mocha stimá (cérebro oculto), existe “um motivo oculto (inexprimível) da vontade”.

 

O nível superior da vontade, de natureza totalmente suprarracional, serve para controlar e dirigir o mundo desde o alto e prescindindo de todos os poderes conscientes e racionais da alma, a começar pelo intelecto, que é a base espiritual da própria racionalidade. O nível inferior da vontade, que possui uma racionalidade oculta, é a origem da força que tem a alma em perseguir intencionalmente aqueles objetivos racionais selecionados pela mente. O primeiro nível é denominado ratzón lemaala mitaam v'daat, (vontade ou desejo acima de qualquer motivo ou razão), e o segundo nível se chama ratzón al pi taam v'daat, (vontade ou desejo que possui alguma motivação).

A ratzón Divina encontra sua expressão essencial nos mandamentos que foram dados a Israel pela Torá. Em nosso serviço Divino, quando cumprimos com devoção os mandamentos de D'us, só pelo fato de serem expressão de Sua vontade essencial (l'maala m'taam v'daat), nos conectamos com o primeiro nível da vontade de D'us. Com nossas intenções conscientes, baseadas nos segredos e mistérios que nos são revelados na kabbalah, e que dizem respeito aos efeitos especiais de cada mandamento em particular, nos conectamos com o segundo nível da vontade de D'us.

 

 

Bitul

(Autoanulação ou Desinteresse)

 

Bitul é o estado espiritual associado com a experiência interna de Chochmá, por meio da qual a própria consciência se abre ao fluxo contínuo da Sabedoria Divina e a novas compreensões, quando conseguimos anular nossa sensação de autonomia e autossuficiência. É a experiência de Ayn, de ser nada dentro do esplendor onipresente da luz infinita de D'us. Em geral, são identificados dois níveis de bitul:

 

Bitul b'metziut (anulação existencial): constitui a forma absoluta de bitul, durante a qual o indivíduo perde todo o sentido de sua existência independente. Este é o estado de bitul no mundo de Atzilut, cuja consciência, permeada pelo nível supremo de Chochmá (Abba mekanen b'Atzilut), “O Pai”, como se denomina em Atzilut, está exclusivamente dedicada à onipresença de D'us.

 

Bitul haiesh (anulação do ego): constitui uma forma inferior de bitul, por meio do qual o indivíduo se engaja conscientemente no processo de anulação da vestimenta externa do ser (ego).

Isto se conquista por meio do esforço concentrado em perceber que a contínua recriação da realidade, incluindo a de nós mesmos, é “algo do nada”. Desse modo se produz em nossa consciência a imagem de que não existe uma realidade independente, conectada com nosso sentimento de “ser algo”. Este é o estado de bitul presente nos três mundos inferiores de Beriá, Yetzirá e Assyá e sua experiência consciente depende de nosso serviço Divino. A consciência Divina nos três mundos inferiores deriva de Chochmá de Malchut de Atzilut, a qual conhecemos como Chochmá inferior e que nos permite nos elevarmos ao nível inferior de bitul.

 

 

Simchá

(Alegria)

 

Simchá é o estado espiritual associado à sefirá de Binah. Provém da satisfação espiritual de obter êxito na compreensão de uma ideia e relacioná-la com nossas próprias emoções (despertando uma resposta emocional). Está dito da mãe (Binah): “A mãe das crianças está alegre”. A simchá da maternidade se desenvolve em etapas progressivas.

 

Primeiro vem a simchá do casamento, que se desenrola na alegria pela expectativa de ficar grávida (estado mental que realmente facilita a concepção.). Em seguida aparece a simchá de conceber, que se estende durante toda a gravidez, incluindo a alegria de esperar pelo nascimento. Finalmente, “A mãe das crianças está alegre” pelos filhos a que deu à luz, e diante dos quais sua alegria só aumenta, tendo em vista o futuro em que irá criá-los e ajudá-los a crescer.

 

Vemos, então, que cada etapa de simchá inicia com um nível particular de realização ou conquista, que se orienta com expectativa ao próximo nível.

 

Na kabbalah, a simchá de Binah (chamada no Sefer Yetzirá de omek acharit, “profundidade do futuro”), está associada com a simchá do mundo futuro.

 

Os três níveis descritos de simchá correspondem às três festividades da Torá, as quais nos foram dadas para lhe permitir experimentar a verdadeira simchá durante o seu serviço Divino. A simchá de Pesach é o casamento e a consequente expectativa pela gravidez; a entrega da Torá a Israel em Shavunot gera a simchá da concepção que acarreta a expectativa do nascimento; e a simchá de Sucot representa a alegria do nascimento e a dedicação à criança da família para que ela viva com Torá (Simchá Torá).

 

Festividades

(Etapas de Simjá)

 

Pesach: Casamento

Shavuot: Gravidez

Sucot: Nascimento

Simchá Torá: Criança da Família

 

 

Yichud

(Unificação)

 

Yichud descreve a unificação dos corpos ou almas, o tornar-se Um. Sobre a criação de Adão e Eva, está dito (com relação a toda humanidade): “E ele se aferrará à sua esposa e se tornarão uma só carne”. (Genesis 2:24). Subsequentemente, esta união é descrita como um ato de Daat: “E Adão conheceu sua esposa Eva” (Genesis 4:1).

 

O poder de Yichud (tanto no plano espiritual quanto no físico) é visto, portanto, como arraigado em nosso poder de Daat, a habilidade de conhecer as próprias decisões e estabelecer com elas um entendimento autêntico. Yichud é o processo de “voltar a unir” as duas metades perdidas do que foi inicialmente uma só entidade.

 

As kavanot (intenções) da kabbalah são também conhecidas como Yichudim, já que o seu objetivo é efetuar unificações entre as múltiplas dimensões da realidade (começando com as do reino divino de Atzilut). A intenção de que todas as ações que alguém realiza sejam feitas “em nome do céu” é conhecida como yichud hamaasé (a unificação da ação).

 

 

Ahavá

(Amor)

 

É o estado espiritual associado à sefirá de Chessed. Ahavá é o poder essencial de “crescimento” inerente à existência. D'us criou o mundo com o amor e o sustenta com amor.

A experiência de ahavá começa com um sentido de atração ou de ser conduzido em direção ao outro, que continua crescendo e se expandido até que o indivíduo e o ser amado são virtualmente abarcados no processo de unir-se um ao outro. O amor é um vetor ou, ainda, canais de atração e força. Existem trezes destes vetores (ahavá = 13), correspondentes aos 13 estados espirituais associados com as sefirot:

 

1. O amor de D'us por Israel.

2. O amor de Israel por D'us (a origem deste par de amores é conhecida como ahavá rabá, o “grande [e infinito] amor”).

3. O amor do mestre por seu discípulo

4. O amor do discípulo por seu mestre

5. O amor entre discípulos (A origem destes três amores é o amor à Torá).

6. O amor do marido por sua mulher

7. O amor da mulher por seu marido

8. O amor entre amigos (A origem destes três amores é o amor de Israel).

9. O amor dos pais por seus filhos

10. O amor dos filhos por seus pais

11. O amor entre os irmãos (A origem destes três amores é o amor à terra de Israel, a conexão física eterne entre as gerações)

12. O amor do rei por seus súditos

13. O amor dos súditos por seu rei (A origem deste par de amores é conhecida como havat olam, “amor mundano” [finito]).

 

Nosso amor por D'us se expressa em três fases crescentes: com todo o coração, com toda a alma e com toda a força (Deuteronômio 6:5). Estas três fases se revelam em todos os níveis descritos anteriormente (o espectro completo dos 13 vetores de amor, que manifestam suas cinco origens gerais).

O versículo “e amarás a Havayá, teu D'us, com todo teu coração, com toda tua alma e com toda tua força” tem 39 letras, assim como o versículo completo, que contém a seguinte frase de 13 letras: “e amarás ao próximo como a ti mesmo”. 39 = 3 x 13 (as três fases de cada um dos 13 amores), que equivalem a Havayá (26) e Echad (13), “Havayá é Um” (Deuteronômio 6:4).

 

 

Irá

(Temor)

 

Irá é o estado espiritual associado à sefirá de guevurá. Contrastando com o desejo inicial de doar derivado de ahavá, inato no coração, irá expressa o sentimento profundo de preocupação e temor de que aquilo que é dado caia nas mãos de um receptor indigno, que possa fazer disso um mau uso, de maneira destrutiva.

 

Irá evoca guevurá, o poder necessário para rechaçar e lutar contra forças destrutivas e negativas.

 

Os poderes de ahavá e irá complementam-se um ao outro e atuam em dupla, como as mãos do corpo em seu esforço coordenado para construir ou como as asas do pássaro em seu esforço para levantar voo. Num sentido mais geral, irá representa a própria sensibilidade diante da presença do outro. A sensibilidade dá origem à consideração dos sentimentos dos demais e ao respeito por eles (como na expressão irat hakavod: “temor respeitoso”). Enquanto ahavá produz atração e união, irá se mantém à distância, com temor respeitoso.

 

Em relação a D'us, há muitos níveis de irá: irat haromemut (assombro diante da presença da exaltada Divindade infinita), irat hamalchut (temor frente à presença do reinado Divino), e irat haonesh (medo da punição). Este último nível não é completamente “puro” (não tem D'us como objetivo direto do próprio temor), uma vez que sua motivação deriva mais propriamente da klipat noga (casca transparente ou neutra) da experiência da própria alma, possuindo, portanto, uma mistura de bem (porque impossibilita pecar) e de mal (porque obscurece nossa consciência com pensamentos que derivariam em consequências danosas).

 

Irat haromemut: assombro diante da presença da exaltada Divindade infinita

Irat hamalchut: temor frente à presença do reinado Divino

Irat haonesh: medo da punição

 

 

Rachamim

(Misericórdia)

Rachamim é o estado espiritual associado à sefirá de Tiferet. Rachamim se segue aos atributos de ahavá e irá, como o poder de sintetizar suas duas forças aparentemente opostas – o desejo de doar e a vontade de preservar.

 

Ahavá vê a tudo como potencial receptor de sua benevolência.

Irá julga cada potencial receptor, considerando-o indigno de receber.

 

Rachamim é o sentido da verdadeira empatia com as outras almas, em sua situação de vida atual. Mesmo que o outro seja aparentemente indigno, rachamim consegue ver por debaixo e mais além desta objetividade relativamente superficial e o julga digno em sua essência.

 

Assim podemos compreender aquela expressão de nossos sábios de que D'us, em seu juízo da Criação, levanta-se de trono do julgamento severo e se senta no trono da misericórdia. Ainda que a entrega de ahavá e chessed seja quantitativamente maior que a de rachamim, esta última é de melhor qualidade. A partir de rachamim, cada um dá seu próprio ser ao outro, porque a empatia é tão grande que sentimos que o outro é uma extensão de nós mesmos. Servir a D'us com o atributo de rachamim significa reconhecer sempre a D'u como nosso “pai misericordioso” e despertar constantemente em nossa consciência Sua misericórdia por nós, Seus filhos, para que nos redima de nosso estado de exílio.

 

 

Bitachom

(Confiança)

 

Bitachom é o estado espiritual associado à sefirá de Netzach.

Há duas formas de Bitachom: ativo e passivo.

 

Bitachom ativo é a confiança no próprio poder e habilidade para obter êxito nas suas ambições de vida.

 

Bitachom passivo é a confiança na Providência Divina, na ideia de que “tudo vai ficar bem”.

 

Este Bitachom em particular é associado à sefirá de Netzach, enquanto o passivo é mais ligado à sefirá de Hod (ou, mais precisamente à intersecção de Hod em Netzach). Isto é assim de acordo com o princípio geral de que um estado ativo é relativamente “masculino”, e de que um passivo é relativamente “feminino” (ainda que, é necessário dizer, tanto o feminino quanto o masculino carregam ambos os estados psicológicos).

Se diz desse par de sefirot: “Ele (em sua união com ela) está em (estado psicológico geral de) Netzach e ela (em sua união com ele) está em (estado psicológico de) Hod.”

 

O Bitachom ativo de Netzach representa o poder da alma de tomar iniciativas. D'us deseja de nós uma grande e independente iniciativa: a de consertar e trazer redenção ao mundo inteiro. Em nossa própria tomada de iniciativa devemos reconhecer permanentemente que “é Ele quem nos dá o poder de conseguir êxito”. É a Sua força de vida e energia a fonte de inspiração para atingir nossos objetivos. Em nosso Bitachom ativo se torna manifesto o Netzach Israel – D'us, a vitória e a eternidade de Israel.

 

Temimut

(Sinceridade)

 

Temimut é o estado espiritual associado à sefirá de Hod, que comprende três níveis gerais:

 

Temimut haratzon (sinceridade de vontade).

Temimut halev (sinceridade de coração).

Temimut hamaasé (sinceridade de ação).

 

Teminut implica sempre “plenitude”. No serviço a D'us representa o nível de completa vontade de cumprir os Seus desejos. Este nível de emoção é relativamente makif (circundante) e não penetra necessariamente o domínio interior da alma e suas emoções, que são diretamente responsáveis por nossas ações físicas.

 

No nível do coração, temimut representa a total “seriedade” da nossa experiência no esforço devoto de servir a D'us. No nível da ação, representa a intenção de empenhar-se e dedicar-se sensatamente a cumprir meticulosamente cada um dos detalhes dos mandamentos de D'us. Em linhas gerais, o chassidismo ensina que todas as emoções do coração, temimut, em todos os seus aspectos, são um presente inato de D'us à alma e, portanto, o atributo mais difícil de conseguir através de esforços conscientes.

 

Temimut representa:

 

Haratzón: desejo de cumprir a vontade de D'us.

Halev: esforço sério e devoto por servir a D'us

Hamaasé: empenho em cumprir cada detalhe dos mandamentos de D'us.

 

Assim como temimut implica “plenitude” também implica “simplicidade”. É o atributo essencial do “judeu simples”. (Notemos que Hod é a raiz da palavra Yehudi, judeu). Na Torá, temimut aparece em uma expressão idiomática junto com o verbo “caminhar”. O pé esquerdo (associado à sefirá de Hod) é que “controla” o poder de caminhar (como estabelece o Sefer Yetzirá). Sendo assim, com temimut, o judeu anda no caminho de D'us e, em essência, caminha com Ele.

 

 

Emet

(Verdade)

 

Emet é o estado espiritual associado à sefirá de Yesod.

Nas palavras de nossos sábios: “O selo de D'us é a verdade”. As letras finais das três palavras com que se conclui o relato da Criação - Bará Elokim laasot (“D'us criou para fazer” [Gênesis 2:3]) – formam a palavra Emet.

 

D'us criou a realidade para “fazer”, isto é, Ele incumbiu a nós, Suas criaturas, a completar o que foi feito (isto é, consertar) a Criação.

 

Emet, cujas três letras se referem ao começo, ao meio e ao fim do alef-bet, significa a verificação (final ou rubrica) e a realização da vontade primordial de D'us (o princípio) na Criação. (Emet em seu sentido intelectual representa o plano de D'us para a existência, o qual segue a Sua vontade e precede sua rubrica, que corresponde à etapa intermediária de Emet).

 

Como uma emoção espiritual da alma, emet é entendida como a experiência da conduta menos impulsiva da alma, o fim de uma busca criativa, para torná-la realidade (verdade). Emet, então, carrega a experiência da autorrealização em todos os empreendimentos de nossa vida.

 

O Tzadik (“o fundamento do universo”, conhecido como “Tzadik Emet”) é aquele a quem foi conferido o poder de “decretar” que D'us realize e cumpra na realidade todas as boas promessas que fez a Israel. O potencial interior de cada um dos cabalistas é chegar a ser tzadik emet. Sendo assim, emet é o poder de realizar nosso potencial mais profundo, que é de fato o poder da alma e que leva à realização definitiva do potencial de D'us.

 

 

Shiflut

(Humildade)

 

Shiflut é o estado espiritual associado à sefirá de Malchut.

 

Ao contrário de bitul (autoanulação), que é o estado espiritual associado a Chochmá, shiflut não implica a negação do ser, mas a experiência da própria “baixeza” existencial, a sensação de estar muito afastado de D'us. Em shiflut, experimentamos um estado inato de pecado como Davi (que é a alma arquetípica de Malchut, atributo interno de shiflut) expressa nos Salmos (51:7): “Em pecado fui concebido por minha mãe”. Como um atributo sagrado da Torá, que serve para conectar nossa consciência com D'us, diz-se de shiflut: “D'us só se mostra para mim desde longe”. A verdadeira essência de D'us é revelada à alma que, em shiflut, sente a si mesma “muito afastada” Dele, mais que àquela que se sente “próxima”.

 

Shiflut é a maior motivação que uma alma pode receber para querer voltar em teshuvá a Hashem. O salmo de Davi, citado acima, é a expressão quintessencial de teshuvá da Bíblia. Baal Shem Tov (descendente de Davi) ensina que o princípio de todo serviço Divino é experimentar uma identificação existencial com todas as criaturas mais baixas da Terra, dizendo a si mesmo: “todos eles cumprem fielmente as intenções que D'us tem para com eles, serei capaz de fazer o mesmo!”

 

Em proporção direta a seu estado existencial de shiflut (cuja raiz shefel significa “maré baixa”), o verdadeiro rei é capaz de manifestar esse estado de “nobreza” (geut, “maré alta”) necessário para orientar construtivamente o seu povo. (Ambos os termos – shefel e geut – tem a mesma equivância na guemátria).

 

(Tradução de Giulia Barão)

 

 

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