Os 13 poderes da alma
Introdução
A kabbalah ensina que em todos os níveis da
Criação, desde o reino perfeito de Atzilut (o mundo de pura Emanação Divina)
até o plano imperfeito de nossa existência terrena, existem dez sefirot (Emanações
ou Poderes Divinos), com os quais toda a realidade é construída. A cada uma
dessas sefirot se lhes dá um nome, que descreve sua ação específica na
modelação da existência.
Cada uma das sefirot possui duas dimensões, uma
externa e outra interna. A dimensão exterior de cada uma é identificada com a
função que desempenha no processo da Criação; a dimensão interna é identificada
com a força motivadora oculta que inspira a sua própria atividade. Em seu
aspecto externo, a dimensão interior das sefirot somente pode ser considerada
dentro do contexto de sua manifestação na alma de um cabalista. Dada a
derivação Divina de nossa alma, podemos entender que uma análise de suas
propriedades e poderes essenciais servem como o veículo ideal para adquirir
compreensão sobre o Criador.
O chassidismo descreve a força inspiradora que há
detrás de cada sefirá. Enquanto os nomes cabalísticos servem para expressar o
efeito Divino que cada um desses poderes tem sobre a Criação, os termos que
propõe o chassidismo revelam a dimensão interior de cada uma das sefirot.
Outra forma de explicar a diferença entre kabbalah
e chassidismo é que a primeira trata dos instrumentos ou recipientes (Kelim) da
Criação, enquanto que o chassidismo trata das Luzes (Orot) que enchem esses
recipientes. Esta distinção é evidente também nos seus nomes: a palavra kabbalah
deriva da raiz hebraica kabel: “Algo que serve como receptáculo ou recipiente”,
enquanto que chassidismo provém da raiz chessed, “bondade”, um atributo frequentemente
denominado, simbolicamente, como “a luz do dia”.
Emuná
(Fé)
Emuná é o estado espiritual associado com a
experiência interna da mais elevada das três “cabeças” de keter, a Reisha d'lo
Itiadá (a cabeça incognoscível).
Emuná é a conexão essencial, o pacto entre Israel e
D'us. Diz um ditado chassídico: a “fé simples” (emuná peshutá) do “judeu simples”
(iehudí pashut) o conecta com "a unidade simples (absoluta)" (achdut
peshutá) do Atzmuto de D'us (A essência, acima da revelação de Sua Luz
Infinita, Or Ein Sof). Toda alma herda sua fé dos patriarcas e matriarcas em
geral, e de Abraão, o cabalista, em particular. Como traço hereditário, emuná
está sempre presente na alma de cada judeu, embora não necessariamente em forma
consciente.
A função de Moisés, (presente em cada geração), é
manter e reforçar a consciência da fé de Israel, e consequentemente de sua
identidade judaica, alimentando-a com a Sabedoria da Torá: Graças a Moisés, foi
dado o maná ao povo de Israel. Na Torá, aparece, pela primeira vez por escrito,
como man hu, cujas letras conformam também a palavra emuná.
A predisposição inata do judeu de entregar sua vida
completamente ao serviço de D'us, e até sacrificar a vida por Sua causa, é a
expressão essencial de sua emuná no Criador.
Taanug
(Prazer)
Taanug é o estado espiritual associado, em
particular, com a segunda cabeça de keter, a Reisha d'Ain (“a cabeça do Nada”).
Em geral, taanug é a força vital, o "fluido" ou “águas viventes” de
todos os poderes da alma. Em particular, taanug, que representa o partzuf
interno de keter (Atik Iomin), serve para motivar e dirigir a ratzón (o desejo
supraconsciente), que representa o partzuf externo de keter (Arich Anpin).
Falamos de taanug neelam (o prazer oculto ou
inconsciente), em contraste com o taanug murgash (o prazer que se sente); e o
taanug pashut (o prazer simples, isto é, a experiência do prazer puro ou
serenidade, desligado de todos os outros poderes da alma), em contraste com o
taanug murkav (prazer composto, isto é, o prazer inerente à experiência dos
outros poderes da alma). A Sabedoria da Torá deriva do estado de taanug Divino,
como é expresso pelo Rei Davi, nos Salmos (119:77): “Se não fosse pela Tua Torá
que é meu deleite (shaashuim), teria naufragado na minha aflição”; e por seu
filho, o Rei Salomão, em Provérbios (8:30): “E Eu (a Torá, falando na primeira
pessoa) fui Seu deleite (shaashuim) todo dia...”.
Taanug neelam: Prazer oculto
Taanug murgash: Prazer sentido
Taanug pashut: Prazer simples
Taanug murkav: Prazer Composto
Ratzón
(Vontade
ou Desejo)
Ratzón é o estado espiritual associado com a cabeça
inferior, dentre as três que compõem keter: é a Reisha d'Arich ("a cabeça
estendida").
Com relação ao poder de vontade, está dito: “Nada
pode contra a “própria força de vontade”, e “não há nada tão poderoso quanto a
vontade”.
No partzuf de Arich Anpin (o partzuf exterior de
keter que representa o poder geral de vontade da alma), a “origem da vontade”
está associada com sua “coroa” ou seu “crânio”, conhecido como “galgalta”.
Neste nível, “não há uma causa (racional) para a vontade”. De qualquer maneira,
na sabedoria intrínseca de Arich Anpin, conhecida como mocha stimá (cérebro
oculto), existe “um motivo oculto (inexprimível) da vontade”.
O nível superior da vontade, de natureza totalmente
suprarracional, serve para controlar e dirigir o mundo desde o alto e
prescindindo de todos os poderes conscientes e racionais da alma, a começar
pelo intelecto, que é a base espiritual da própria racionalidade. O nível
inferior da vontade, que possui uma racionalidade oculta, é a origem da força
que tem a alma em perseguir intencionalmente aqueles objetivos racionais
selecionados pela mente. O primeiro nível é denominado ratzón lemaala mitaam
v'daat, (vontade ou desejo acima de qualquer motivo ou razão), e o segundo
nível se chama ratzón al pi taam v'daat, (vontade ou desejo que possui
alguma motivação).
A ratzón Divina encontra sua expressão essencial
nos mandamentos que foram dados a Israel pela Torá. Em nosso serviço Divino,
quando cumprimos com devoção os mandamentos de D'us, só pelo fato de serem
expressão de Sua vontade essencial (l'maala m'taam v'daat), nos
conectamos com o primeiro nível da vontade de D'us. Com nossas intenções
conscientes, baseadas nos segredos e mistérios que nos são revelados na
kabbalah, e que dizem respeito aos efeitos especiais de cada mandamento em
particular, nos conectamos com o segundo nível da vontade de D'us.
Bitul
(Autoanulação
ou Desinteresse)
Bitul é o estado espiritual associado com a
experiência interna de Chochmá, por meio da qual a própria consciência se abre
ao fluxo contínuo da Sabedoria Divina e a novas compreensões, quando
conseguimos anular nossa sensação de autonomia e autossuficiência. É a
experiência de Ayn, de ser nada dentro do esplendor onipresente da luz infinita
de D'us. Em geral, são identificados dois níveis de bitul:
Bitul b'metziut (anulação existencial): constitui a forma absoluta de bitul, durante a
qual o indivíduo perde todo o sentido de sua existência independente. Este é o
estado de bitul no mundo de Atzilut, cuja consciência, permeada pelo nível
supremo de Chochmá (Abba mekanen b'Atzilut), “O Pai”, como se denomina
em Atzilut, está exclusivamente dedicada à onipresença de D'us.
Bitul haiesh (anulação do ego): constitui uma forma inferior de bitul, por meio do
qual o indivíduo se engaja conscientemente no processo de anulação da
vestimenta externa do ser (ego).
Isto se conquista por meio do esforço concentrado
em perceber que a contínua recriação da realidade, incluindo a de nós mesmos, é
“algo do nada”. Desse modo se produz em nossa consciência a imagem de que não
existe uma realidade independente, conectada com nosso sentimento de “ser algo”.
Este é o estado de bitul presente nos três mundos inferiores de Beriá, Yetzirá
e Assyá e sua experiência consciente depende de nosso serviço Divino. A
consciência Divina nos três mundos inferiores deriva de Chochmá de Malchut de
Atzilut, a qual conhecemos como Chochmá inferior e que nos permite nos
elevarmos ao nível inferior de bitul.
Simchá
(Alegria)
Simchá é o estado espiritual associado à sefirá de
Binah. Provém da satisfação espiritual de obter êxito na compreensão de uma
ideia e relacioná-la com nossas próprias emoções (despertando uma resposta
emocional). Está dito da mãe (Binah): “A mãe das crianças está alegre”. A
simchá da maternidade se desenvolve em etapas progressivas.
Primeiro vem a simchá do casamento, que se
desenrola na alegria pela expectativa de ficar grávida (estado mental que
realmente facilita a concepção.). Em seguida aparece a simchá de conceber, que
se estende durante toda a gravidez, incluindo a alegria de esperar pelo nascimento.
Finalmente, “A mãe das crianças está alegre” pelos filhos a que deu à luz, e
diante dos quais sua alegria só aumenta, tendo em vista o futuro em que irá
criá-los e ajudá-los a crescer.
Vemos, então, que cada etapa de simchá inicia com
um nível particular de realização ou conquista, que se orienta com expectativa
ao próximo nível.
Na kabbalah, a simchá de Binah (chamada no Sefer
Yetzirá de omek acharit, “profundidade do futuro”), está associada com a
simchá do mundo futuro.
Os três níveis descritos de simchá correspondem às
três festividades da Torá, as quais nos foram dadas para lhe permitir
experimentar a verdadeira simchá durante o seu serviço Divino. A simchá de
Pesach é o casamento e a consequente expectativa pela gravidez; a entrega da
Torá a Israel em Shavunot gera a simchá da concepção que acarreta a expectativa
do nascimento; e a simchá de Sucot representa a alegria do nascimento e a
dedicação à criança da família para que ela viva com Torá (Simchá Torá).
Festividades
(Etapas
de Simjá)
Pesach: Casamento
Shavuot: Gravidez
Sucot: Nascimento
Simchá Torá: Criança da Família
Yichud
(Unificação)
Yichud descreve a unificação dos corpos ou almas, o
tornar-se Um. Sobre a criação de Adão e Eva, está dito (com relação a toda
humanidade): “E ele se aferrará à sua esposa e se tornarão uma só carne”.
(Genesis 2:24). Subsequentemente, esta união é descrita como um ato de Daat: “E
Adão conheceu sua esposa Eva” (Genesis 4:1).
O poder de Yichud (tanto no plano espiritual quanto
no físico) é visto, portanto, como arraigado em nosso poder de Daat, a
habilidade de conhecer as próprias decisões e estabelecer com elas um
entendimento autêntico. Yichud é o processo de “voltar a unir” as duas metades
perdidas do que foi inicialmente uma só entidade.
As kavanot (intenções) da kabbalah são também
conhecidas como Yichudim, já que o seu objetivo é efetuar unificações entre as
múltiplas dimensões da realidade (começando com as do reino divino de Atzilut).
A intenção de que todas as ações que alguém realiza sejam feitas “em nome do
céu” é conhecida como yichud hamaasé (a unificação da ação).
Ahavá
(Amor)
É o estado espiritual associado à sefirá de
Chessed. Ahavá é o poder essencial de “crescimento” inerente à existência. D'us
criou o mundo com o amor e o sustenta com amor.
A experiência de ahavá começa com um sentido de
atração ou de ser conduzido em direção ao outro, que continua crescendo e se
expandido até que o indivíduo e o ser amado são virtualmente abarcados no
processo de unir-se um ao outro. O amor é um vetor ou, ainda, canais de atração
e força. Existem trezes destes vetores (ahavá = 13), correspondentes aos 13
estados espirituais associados com as sefirot:
1. O amor de D'us por Israel.
2. O amor de Israel por D'us (a origem deste par de
amores é conhecida como ahavá rabá, o “grande [e infinito] amor”).
3. O amor do mestre por seu discípulo
4. O amor do discípulo por seu mestre
5. O amor entre discípulos (A origem destes três
amores é o amor à Torá).
6. O amor do marido por sua mulher
7. O amor da mulher por seu marido
8. O amor entre amigos (A origem destes três amores
é o amor de Israel).
9. O amor dos pais por seus filhos
10. O amor dos filhos por seus pais
11. O amor entre os irmãos (A origem destes três
amores é o amor à terra de Israel, a conexão física eterne entre as gerações)
12. O amor do rei por seus súditos
13. O amor dos súditos por seu rei (A origem deste
par de amores é conhecida como havat olam, “amor mundano” [finito]).
Nosso amor por D'us se expressa em três fases
crescentes: com todo o coração, com toda a alma e com toda a força
(Deuteronômio 6:5). Estas três fases se revelam em todos os níveis descritos
anteriormente (o espectro completo dos 13 vetores de amor, que manifestam suas
cinco origens gerais).
O versículo “e amarás a Havayá, teu D'us, com todo
teu coração, com toda tua alma e com toda tua força” tem 39 letras, assim como
o versículo completo, que contém a seguinte frase de 13 letras: “e amarás ao
próximo como a ti mesmo”. 39 = 3 x 13 (as três fases de cada um dos 13 amores),
que equivalem a Havayá (26) e Echad (13), “Havayá é Um” (Deuteronômio 6:4).
Irá
(Temor)
Irá é o estado espiritual associado à sefirá de guevurá.
Contrastando com o desejo inicial de doar derivado de ahavá, inato no coração,
irá expressa o sentimento profundo de preocupação e temor de que aquilo que é
dado caia nas mãos de um receptor indigno, que possa fazer disso um mau uso, de
maneira destrutiva.
Irá evoca guevurá, o poder necessário para rechaçar
e lutar contra forças destrutivas e negativas.
Os poderes de ahavá e irá complementam-se um ao
outro e atuam em dupla, como as mãos do corpo em seu esforço coordenado para
construir ou como as asas do pássaro em seu esforço para levantar voo. Num
sentido mais geral, irá representa a própria sensibilidade diante da presença
do outro. A sensibilidade dá origem à consideração dos sentimentos dos demais e
ao respeito por eles (como na expressão irat hakavod: “temor
respeitoso”). Enquanto ahavá produz atração e união, irá se mantém à distância,
com temor respeitoso.
Em relação a D'us, há muitos níveis de irá: irat
haromemut (assombro diante da presença da exaltada Divindade infinita), irat
hamalchut (temor frente à presença do reinado Divino), e irat haonesh
(medo da punição). Este último nível não é completamente “puro” (não tem D'us
como objetivo direto do próprio temor), uma vez que sua motivação deriva mais
propriamente da klipat noga (casca transparente ou neutra) da
experiência da própria alma, possuindo, portanto, uma mistura de bem (porque
impossibilita pecar) e de mal (porque obscurece nossa consciência com
pensamentos que derivariam em consequências danosas).
Irat haromemut: assombro diante da presença da exaltada Divindade infinita
Irat hamalchut: temor frente à presença do reinado Divino
Irat haonesh: medo da punição
Rachamim
(Misericórdia)
Rachamim é o estado espiritual associado à sefirá
de Tiferet. Rachamim se segue aos atributos de ahavá e irá, como o poder de
sintetizar suas duas forças aparentemente opostas – o desejo de doar e a
vontade de preservar.
Ahavá vê a tudo como potencial receptor de sua
benevolência.
Irá julga cada potencial receptor, considerando-o
indigno de receber.
Rachamim é o sentido da verdadeira empatia com as
outras almas, em sua situação de vida atual. Mesmo que o outro seja
aparentemente indigno, rachamim consegue ver por debaixo e mais além desta
objetividade relativamente superficial e o julga digno em sua essência.
Assim podemos compreender aquela expressão de
nossos sábios de que D'us, em seu juízo da Criação, levanta-se de trono do
julgamento severo e se senta no trono da misericórdia. Ainda que a entrega de
ahavá e chessed seja quantitativamente maior que a de rachamim, esta última é
de melhor qualidade. A partir de rachamim, cada um dá seu próprio ser ao outro,
porque a empatia é tão grande que sentimos que o outro é uma extensão de nós
mesmos. Servir a D'us com o atributo de rachamim significa reconhecer sempre a
D'u como nosso “pai misericordioso” e despertar constantemente em nossa
consciência Sua misericórdia por nós, Seus filhos, para que nos redima de nosso
estado de exílio.
Bitachom
(Confiança)
Bitachom é o estado espiritual associado à sefirá
de Netzach.
Há duas formas de Bitachom: ativo e passivo.
Bitachom ativo é a confiança no próprio poder e
habilidade para obter êxito nas suas ambições de vida.
Bitachom passivo é a confiança na Providência
Divina, na ideia de que “tudo vai ficar bem”.
Este Bitachom em particular é associado à sefirá de
Netzach, enquanto o passivo é mais ligado à sefirá de Hod (ou, mais
precisamente à intersecção de Hod em Netzach). Isto é assim de acordo com o
princípio geral de que um estado ativo é relativamente “masculino”, e de que um
passivo é relativamente “feminino” (ainda que, é necessário dizer, tanto o
feminino quanto o masculino carregam ambos os estados psicológicos).
Se diz desse par de sefirot: “Ele (em sua união com
ela) está em (estado psicológico geral de) Netzach e ela (em sua união com ele)
está em (estado psicológico de) Hod.”
O Bitachom ativo de Netzach representa o poder da
alma de tomar iniciativas. D'us deseja de nós uma grande e independente
iniciativa: a de consertar e trazer redenção ao mundo inteiro. Em nossa própria
tomada de iniciativa devemos reconhecer permanentemente que “é Ele quem nos dá o
poder de conseguir êxito”. É a Sua força de vida e energia a fonte de
inspiração para atingir nossos objetivos. Em nosso Bitachom ativo se torna
manifesto o Netzach Israel – D'us, a vitória e a eternidade de Israel.
Temimut
(Sinceridade)
Temimut é o estado espiritual associado à sefirá de
Hod, que comprende três níveis gerais:
Temimut haratzon (sinceridade de vontade).
Temimut halev (sinceridade de coração).
Temimut hamaasé (sinceridade de ação).
Teminut implica sempre “plenitude”. No serviço a
D'us representa o nível de completa vontade de cumprir os Seus desejos. Este
nível de emoção é relativamente makif (circundante) e não penetra
necessariamente o domínio interior da alma e suas emoções, que são diretamente
responsáveis por nossas ações físicas.
No nível do coração, temimut representa a total
“seriedade” da nossa experiência no esforço devoto de servir a D'us. No nível
da ação, representa a intenção de empenhar-se e dedicar-se sensatamente a
cumprir meticulosamente cada um dos detalhes dos mandamentos de D'us. Em linhas
gerais, o chassidismo ensina que todas as emoções do coração, temimut, em todos
os seus aspectos, são um presente inato de D'us à alma e, portanto, o atributo
mais difícil de conseguir através de esforços conscientes.
Temimut representa:
Haratzón: desejo de cumprir a vontade de D'us.
Halev: esforço sério e devoto por servir a D'us
Hamaasé: empenho em cumprir cada detalhe dos mandamentos de D'us.
Assim como temimut implica “plenitude” também
implica “simplicidade”. É o atributo essencial do “judeu simples”. (Notemos que
Hod é a raiz da palavra Yehudi, judeu). Na Torá, temimut aparece em uma
expressão idiomática junto com o verbo “caminhar”. O pé esquerdo (associado à
sefirá de Hod) é que “controla” o poder de caminhar (como estabelece o Sefer
Yetzirá). Sendo assim, com temimut, o judeu anda no caminho de D'us e, em essência,
caminha com Ele.
Emet
(Verdade)
Emet é o estado espiritual associado à sefirá de
Yesod.
Nas palavras de nossos sábios: “O selo de D'us é a
verdade”. As letras finais das três palavras com que se conclui o relato da
Criação - Bará Elokim laasot (“D'us criou para fazer” [Gênesis 2:3]) –
formam a palavra Emet.
D'us criou a realidade para “fazer”, isto é, Ele
incumbiu a nós, Suas criaturas, a completar o que foi feito (isto é, consertar)
a Criação.
Emet, cujas três letras se referem ao começo, ao
meio e ao fim do alef-bet, significa a verificação (final ou rubrica) e a
realização da vontade primordial de D'us (o princípio) na Criação. (Emet em seu
sentido intelectual representa o plano de D'us para a existência, o qual segue
a Sua vontade e precede sua rubrica, que corresponde à etapa intermediária de
Emet).
Como uma emoção espiritual da alma, emet é
entendida como a experiência da conduta menos impulsiva da alma, o fim de uma
busca criativa, para torná-la realidade (verdade). Emet, então, carrega a
experiência da autorrealização em todos os empreendimentos de nossa vida.
O Tzadik (“o fundamento do universo”, conhecido
como “Tzadik Emet”) é aquele a quem foi conferido o poder de “decretar” que
D'us realize e cumpra na realidade todas as boas promessas que fez a Israel. O
potencial interior de cada um dos cabalistas é chegar a ser tzadik emet. Sendo
assim, emet é o poder de realizar nosso potencial mais profundo, que é de fato
o poder da alma e que leva à realização definitiva do potencial de D'us.
Shiflut
(Humildade)
Shiflut é o estado espiritual associado à sefirá de
Malchut.
Ao contrário de bitul (autoanulação), que é o
estado espiritual associado a Chochmá, shiflut não implica a negação do ser,
mas a experiência da própria “baixeza” existencial, a sensação de estar muito
afastado de D'us. Em shiflut, experimentamos um estado inato de pecado como
Davi (que é a alma arquetípica de Malchut, atributo interno de shiflut)
expressa nos Salmos (51:7): “Em pecado fui concebido por minha mãe”. Como um
atributo sagrado da Torá, que serve para conectar nossa consciência com D'us,
diz-se de shiflut: “D'us só se mostra para mim desde longe”. A verdadeira
essência de D'us é revelada à alma que, em shiflut, sente a si mesma “muito
afastada” Dele, mais que àquela que se sente “próxima”.
Shiflut é a maior motivação que uma alma pode
receber para querer voltar em teshuvá a Hashem. O salmo de Davi, citado acima,
é a expressão quintessencial de teshuvá da Bíblia. Baal Shem Tov (descendente
de Davi) ensina que o princípio de todo serviço Divino é experimentar uma
identificação existencial com todas as criaturas mais baixas da Terra, dizendo
a si mesmo: “todos eles cumprem fielmente as intenções que D'us tem para com
eles, serei capaz de fazer o mesmo!”
Em proporção direta a seu estado existencial de
shiflut (cuja raiz shefel significa “maré baixa”), o verdadeiro rei é capaz de
manifestar esse estado de “nobreza” (geut, “maré alta”) necessário para
orientar construtivamente o seu povo. (Ambos os termos – shefel e geut – tem a
mesma equivância na guemátria).
(Tradução
de Giulia Barão)