sábado, 3 de outubro de 2026

Contos de Chanun Katan (10)

  

Amor próprio

 

Chanun Katan abriu e disse:

 

- Não tive amor próprio quando trabalhava de ceifador, aos seis anos de idade, em troca de um prato de arroz e feijão;

 

- Não tive amor próprio quando afundava as perninhas nas barreiras de um banhado para construir tijolos que não fizeram parte da construção da minha casa, mas que se transformaram em pão e café aguado;

 

- Não tive amor próprio quando fui armador de um boliche, levantando pinos até de madrugada, para dormir na aula de matemática no dia seguinte e ser acusado de preguiçoso e dorminhoco pelo professor e colegas;

 

- Não tive amor próprio quando passava sinteco em pisos de carvalho e era dispensado do emprego por crises de asma;

 

- Não tive amor próprio quando danifiquei vértebras da coluna por excesso de peso das sacas de arroz e feijão que carregava na cabeça;

 

- Não tive amor próprio em dezenas de outras atividades a que me submeti para sobreviver por que não nasci herdeiro de fazenda, filho de magnata, filho de investidor de bolsa;

 

- Na minha bolsa só carreguei humilhação, pai ausente e mãe maluca, e uma penca enorme de crueldades gratuitas;

 

- E como não tive amor próprio, fui me deixando morrer, já quem nem a dignidade para um suicídio eu tinha...

 

- Assim, que ninguém venha me falar em amor próprio. Eu morri. E retornei. E descobri que o amor próprio, tão citado e tão cantado, é o destilado mais sofisticado do Serpente.

 

- Um justo não tem amor próprio, tem amor incondicional, inclusive por aqueles que o acusam de não ter amor próprio.

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