domingo, 5 de janeiro de 2020

Introdução ao Livro do Zohar (1)




INTRODUÇÃO AO LIVRO DO ZOHAR

VOLUME DOIS

O SEGREDO ESPIRITUAL DA CABALÁ

(Textos originais: Rav Yehuda Ashlag. Comentários: Michael Laitman. Tradução de Maria Carolina Ribeiro até o Ponto 17; a partir do ponto 18, tradução de Tati Frantz; Copidescagem e revisão de Charles Kiefer)



Por muitos séculos, a sabedoria da Cabalá esteve inacessível a qualquer um que não lesse em hebraico. Agora, pela primeira vez na historia do mundo ocidental, leitores de outros idiomas comprometidos com a Cabalá têm a oportunidade de aprender essa Sabedoria através do maior cabalista do século XX, Baal Ha Sulam. Neste texto, os estudantes encontrarão uma apresentação sistemática e qualificada da Cabalá, diferente de todos os outros textos disponíveis. Este texto vem com comentários de Michael Laitman, um cientista e cabalista que recebeu a Tradição da Cabalá a partir da linhagem que inclui Ari, Baal Há Sulam e seu filho Rabash, professor do Laitman.

Introdução ao Livro do Zohar será, certamente, uma companhia constante do leitor em sua exploração dos Mundos Superiores por muitos e muitos anos. Aproveite.



PREFÁCIO AO LIVRO DO ZOHAR

(Baal Ha Sulam)

 1. A profundidade da sabedoria e da ciência contida no Livro do Zohar está oculta atrás de mil portões fechados.

Comentário de Michael Laitman: Por que "oculta atrás de mil portões fechados?" De fato, não há nada oculto, ninguém esconde nada; tudo existe dentro do sistema das leis naturais da criação. Diferentemente deste nosso mundo, no espaço espiritual não há uma chave que abra portas. O mundo espiritual é completamente aberto; uma pessoa apenas avança de um nível espiritual para outro e deixa um reino para entrar em outro ao modificar seus próprios atributos. 

Em nosso mundo, um objeto pode mover-se por deslocamento mecânico, ao passo que no mundo espiritual é preciso que se faça um movimento interior para ir de um lugar a outro. Isto é o que se entende por "portão fechado"; enquanto o indivíduo limitar-se a um lugar, o seguinte manter-se-á oculto, "fechado" para ele.

O que pode ser feito para que se abram as portas? Mudar em si algo que traga harmonia, que entre em conformidade com o espaço onde se anseia entrar. E, então, entrar. Muito simples.

Tudo existe dentro do homem. Ao acessar interiormente suas capacidades, qualquer um pode, facilmente, mover-se no espaço espiritual, partir do presente, chegar ao infinito perfeito e fundir-se com o Criador.

Toda sabedoria de como se avançar no mundo espiritual encontra-se no método cabalístico. Então, vejamos. É dito que "a profundidade da sabedoria está oculta atrás de mil portões fechados". Não está oculta atrás de nenhum portão externo, físico. Todas as portas e todas as chaves estão dentro de nós. Realizar ações espirituais de correção pessoal e abrir as portas com nossas próprias chaves é o nosso método. É este o propósito do estudo do Livro do Zohar e da sabedoria da Cabalá como um todo. 

A linguagem humana, por ser pobre e limitada, não nos serve nem como uma ferramenta adequada nem como um meio de expressão suficiente para desvelar todos os significados contidos em cada sentença do Zohar. 

Comentário de Michael Laitman: Até mesmo a mais curta frase do Zohar, que pode parecer muito clara numa primeira leitura, para ser corretamente interpretada dependerá do nosso nível, do nosso recebimento no momento da leitura. Desenvolvendo gradualmente nosso potencial espiritual, adaptando-nos a diferentes leis e atributos espirituais, começaremos a descobrir grande profundidade em cada frase e sentença do livro do Zohar, diferente do que conseguimos captar num primeiro momento do estudo. Uma percepção mais profunda depende, apenas, do nível de recebimento.

Minhas explicações são apenas degraus de uma escada.

Comentário de Michael Laitman: A estrutura dos comentários (feitos para o Livro do Zohar) se assemelha a uma escada. O que não significa que o primeiro volume do livro seja destinado aos iniciantes e o último aos estudantes mais avançados. Cada palavra, cada sentença inclui diferentes níveis espirituais de entendimento, em todos os fatos e estados ali descritos.

O texto é composto de maneira que o leitor desvele gradualmente os significados e consiga, aos poucos, ver todo o quadro. O estudante deve, apenas, procurar descobrir alguma mensagem espiritual contida no texto. Algo que todas as pessoas podem vir a entender num primeiro estágio. Mas, este começo, este sintonizar-se, já é suficiente para que o livro comece a afetá-lo. 

Eu pretendia ajudar os estudantes a atingirem o máximo de recebimentos, a atingir as alturas, de onde eles poderiam ver e investigar o que o Zohar expõe por si só. Por esta razão, neste prefácio, acho necessário preparar o estudante interessado no livro do Zohar, fornecendo a ele definições corretas, demonstrando como estudar o livro para aprender com ele. 

Comentário de Michael Laitman: Em outras palavras, o objetivo de se estudar o Zohar é alcançar os Mundos Superiores, sentir e controlar os espaços, começar a viver não apenas dentro dos limites desta nossa realidade, mas dentro de um plano maior, eterno e perfeito.


sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

Suor no Rosto (4)



4


Fecho os olhos por um instante e sinto o ar rarefeito e gelado da despensa da velha casa da colina, casa que Vilma, minha avó materna, tanto amou, e da qual só se afastou para morrer. É um cheiro quase doce, a emergir do edifício imenso da recordação, uma mistura complexa, acidez de vinagre, gordura animal, linóleo, cravo e manjericão. Às vezes, o cheiro de um lombo de porco assado em alguma casa da vizinhança me transporta ao passado e me revejo, na companhia de meus tios, roubando pedaços de carne das latas de banha, porções que comíamos frias, e escondidos. Vilma, à noite, na hora do banho de gamela, com seu faro de perdigueira, percebia o que tínhamos feito, mas não nos denunciava ao patriarca.



Antes do advento da luz elétrica às terras do interior, a lata de banha substituía com eficiência a geladeira. Nela se colocavam nacos de carne pré-cozida, que ali podiam ficar imersas na gordura, sem risco de degradação, por muitos meses. Um costume milenar, que foi usado pelos povos mais antigos da terra, e que perdurou até a década de setenta do século passado em minha região, quando os ventos da modernização urbano-industrial varreram o velho mundo imigrante. Ventos que varreram também, e sem piedade, as casas de minha infância.



A cozinha colonial, de origem alemã, constituía-se, àquele tempo, basicamente, de feijão, arroz, carne suína e seus derivados, frutas e verduras. Nas festas de casamento, e na família de minha mãe foram muitas, havia também carne de rês, assada ao modo antigo, em espetos de pessegueiro ou açoita-cavalo sobre braseiros em terra cavada. Por conta dessa dieta ampla e consistente, os colonos do Alto Uruguai não conheciam os malefícios da desnutrição, e a taxa de mortalidade infantil era baixíssima. Como se sabe, a carne de porco cozida – frita ou assada –, a banha e o torresmo, as morcilhas brancas e as morcilhas de sangue, as copas, os salames e as salsichas são alimentos altamente calóricos, mas nem por isso havia obesidade na família Lenhardt. Em primeiro lugar, porque só se comia o necessário; e, em segundo, porque o trabalho braçal nas lavouras de milho e soja consumia qualquer excesso energético.



Vilma, apesar de ter parido treze vezes, e longe de médicos e hospitais, jamais perdeu um filho, nem mesmo Paulo, o caçula, que teve a testa perfurada por um cartucho de espingarda, numa tarde de domingo. Vi esse tio, que eu carregara muitas vezes no colo, cair ao meu lado feito um galho de árvore, estatelado, duro, como que morto, num dia em que eu visitava meus avôs. Mais adiante, conto melhor essa história.


São tantas as casas que me visitam em meus devaneios memorialísticos, a casa da tapera, a casa da colina, a casa da cadela, a casa velha sem reboco, a casa de salpique verde, a casa da ponte, a casa da tempestade, a casa da bicicleta quebrada, a casa do armazém e a casa do velório, mas da casa em que nasci nada recordo, e dela não sobraram mais que os vestígios de uma calçadinha de tijolos, localizada próximo do eucalipto sob o qual se sentava, todas as tardes, o meu avô Bernardo, a sofrer, interminavelmente, de um reumatismo que eu herdaria, e a ensinar-me, em silêncio, que as coisas são o que as coisas querem ser. Pelo deslocamento das nuvens, sua direção e velocidade, ele vaticinava os aguaceiros e os temporais, com três dias de antecedência. Muitos anos depois, sentado eu às margens do Rio Iowa, no meio oeste norte-americano, ouvi de um índio, em inglês, o que meu avô dizia em português: Don´t push the river”. Eu queria, naquelas intermináveis tardes yankees, que o tempo passasse mais depressa, para que eu pudesse regressar logo a Porto Alegre e a minha gente, mas o tempo só passa depressa quando se está feliz. E era quando devia ser lento, espesso, paquidérmico. Enfim, as coisas são o que as coisas querem ser, não adianta empurrar o rio. Esta máxima, falsamente conformista, eu a ouvi também de um grande professor de estética, quando ainda se estudava isso nas faculdades de letras, o Odone Quadros. O velho mestre, herdeiro da antiga tradição ética, não se furtava de declinar a fonte de seu idealismo fatalista: Luigi Brentano. Mas cumpramos aqui o recomendado pelo escravo frígio, no palíndromo dos palíndromos, que diz, em latim: Sator arepo tenet opera rotas. O lavrador mantém o arado no seu curso. E o colono em mim, que não morreu, procura manter certa linearidade no relato, mas aplicando aqui a fórmula de Fibunacci: retorno sempre ao mesmo lugar, mas acima, numa espiral ascendente que se perde no Ayin Sof, Sem Fim, ou mais vulgarmente conhecido como Infinito. Retornemos, pois, à verga de minha infância, ao caudal mais fundo e flexível, às águas mais densas.



O desejo de ascensão social fez de meu pai um verdadeiro cigano, a morar em muitos lugares em busca de uma vida melhor. Talvez venha daí a sensação que tenho de que não passo de visita, de que estou sempre de passagem. Trago, impressa em meus genes, a síndrome do imigrante: a eterna esperança de encontrar a terra prometida (que não se alcança nunca) e a saudade irredimível da terra natal (que nunca se teve). Sei que esse estar-entre, esse ser-em-viagem, essa angústia do deslocamento só se pacifica com a morte. Por que na morte, ou na Luz, como alguns preferem chamar, o tempo, o espaço e o movimento deixam de existir, e tudo se transforma numa cálida, aprazível e infinita Presença, mas uma Presença Absoluta, que talvez fosse melhor denominar de consciência. Ou alma. O cognato alma vem de Animus, Anima, em latim, e que significa “o que anima”. Na Kabbalah, alma é uma estrutura complexa, a que chamamos de Naranchay, que é um acrônimo, composto de Nefesh, Ruach, Neshamá, Chayá e Yechidá. Mas voltemos à palavra em nosso idioma, para não complicar demais as coisas. Em hebraico, alma seria nefesh, força vital. Em sânscrito, atman. E em grego, psykhé. Que também significa borboleta. Os filósofos-cabalistas gregos foram grandes poetas. É de uma delicadeza extraordinária e de uma precisão cirúrgica chamar o “Ohr em nós” de borboleta. Linda, frágil e inquieta. E capaz de transformações estupendas. A pesada e lenta lagarta se transforma em leve e ágil borboleta. Na morte, somos capazes de entender o que Moisés ouviu da Sarça Ardente: Eyeh Asher Eyeh. Sou o que sou.



 O ser-em-viagem em mim gosta de quartos de hotel, de pensões, de hospedarias de estrada porque sei que eles não me apegarei e que deles recordarei apenas instantes, acrescentados já à grande caravana de pousadas em meu caminho. Das casas oníricas, no entanto, casas compostas de ilusões e sonhos, de cheiros e sabores, chegam-me fluxos indescritíveis de sensações e de lembranças, e é nelas, nessas casas de vento, que encontro a paz da verdadeira intimidade. Esse é o meu espaço, onde posso enrodilhar-me sobre mim mesmo e descansar.



Contar clareia, disse o personagem principal de meu romance Quem faz gemer a terra. Talvez, e aos poucos, a luz do verbo ilumine os cantos escuros de meu passado. Das paredes que ouviram meu primeiro grito, tenho apenas informações de terceiros, especialmente de minha mãe. Não restaram em mim sequer fragmentos desses instantes inaugurais da existência. Sei que estão gravados em algum lugar do cérebro, formaram sinapses, mas jazem soterrados agora por camadas e mais camadas de entulhos.



A casa primeira e mais sólida, porque mais simbólica, e que mergulha nas profundezas de meu psiquismo, ou da borboleta que se agita em mim, é a casa da tapera, assentada sobre quatro sólidos cepos de guajuvira. Se eu quisesse construir uma alegoria simples e maniqueísta poderia dizer que esses pares de troncos decepados eram Lindolfo e Vilma, do lado materno, e Bernardo e Regina, do paterno. O Kiefer que trago no nome é uma espécie de pinheiro selvagem, madeira com que se fazem móveis na Alemanha. Mas Kiefer também significa maxilar. Assim, me apraz imaginar que sou uma estranha mistura de osso e tronco, rijo, rígido, difícil de vergar, mas talhável, se o formão estiver em mãos hábeis e pacientes. Por outro lado, eu próprio fui me marchetando, podei os meus excessos, alisei os meus nós, escondi os veios mais salientes. Ainda hoje, embora mais enfeitado e mais comedido, se agredido ou injustiçado o núcleo de osso e cerne se revela. Dissociaram-se, em mim, o camponês e o professor? Um estava no outro – caroço na fruta? Ou no tronco antigo enxertou-se um ramo exótico, que produziu fruta nova?



Da casa da tapera o que tenho ainda na memória é o potreiro, a mesa de madeira falquejada, o fogão à lenha que nos aquecia nas noites de inverno e, especialmente, a lembrança do som do vento fazendo ranger os taquarais, dias e noites. Rangido triste e comprido, que só findava nas noites paradas, que anunciavam as tempestades.



Para se chegar a essa casa, egresso da cidade, era preciso percorrer, já em terras do meu avô, uma estradinha de chão batido, úmida e fresca, que atravessava uma floresta composta de canjaranas, cedros, louros e ipês, dentre as tantas árvores nativas de meu torreão natal. Nessa mata sobreviviam ainda gatos-do-mato, jaguatiricas, bichos-preguiça e tucanos, e uma infinidade de outras aves e animais de pequeno porte, que seriam extintos depois, com o advento das lavouras de soja. Com freqüência, vínhamos de Três de Maio, eu, minha mãe e Lola, minha irmã, para passarmos os finais de semana com meus avôs. Meu pai, que mantinha relações difíceis com os familiares de mamãe, não nos levava até a casa da tapera. Deixava-nos a uns dois ou três quilômetros de distância, no estradão, e partia em seu reluzente Studebacker, automóvel que emprestei para o pai de Circe Brechen, em meu romance Os ossos da noiva e que ele enterrou, num duplo delito, incriminando o negro da história, e roubando-me uma das imagens mais poderosas de minha infância. Aquele automóvel inglês de muitos cavalos ainda há de passear, garboso, por outra história minha, se algum dia eu voltar a fazer ficção. E o que estou fazendo aqui? Ficção, do latim, fingus, finx, fingere. O passado está morto. Na PUC, onde ensinei Escrita Criativa, lembrava sempre aos meus alunos que um dos sentidos da palavra ficção é “pentear os cabelos”, “afeitar”. O passado está morto e estendido no chão. Esgrouvinhado, amarrotado, amassado. E descabelado. Agora, faço o que fazem os preparadores de cadáveres das funerárias, maquiagem.



Percorríamos, nós três, minha mãe, minha irmã e eu, o trajeto a pé, cantando, contando histórias, para espantar o medo. Minha mãe era, e ainda é, uma mulher alta, bonita e determinada. Nas fotos com as amigas de juventude, está sempre sentada, para não sobressair-se demais, para não ofendê-las com a desproporção. Eram tempos de delicadezas sutis, de gestos solidários e dignos. Como as canafístulas e as canjaranas, esses atos de civilidade sumiram do mapa, mas podem ser replantados, basta que o desejemos. Nós somos o que é a nossa sociedade e a nossa cultura, e não há escusas. Não são os outros, os mal-educados. Não são os outros, os corruptos. Não são os outros, os violentos. Somos nós, nós mesmos.



Daquela floresta tirei o nome para a minha cidade-símbolo, a Pau-d´Arco de tantos livros, de tantas misérias e grandezas. Mas Pau-d´Arco é apenas isso, um dos nomes do ipê-roxo. E, na minha obra, o nome é uma homenagem às árvores de minha infância, que foram substituídas por uma leguminosa rasteira, mas lucrativa, a soja, que hoje faz a alegria dos exportadores.



As paredes da casa da tapera eram de pinho. Com o passar dos anos, os nós das tábuas afrouxavam e caíam, deixando buracos. No inverno, esses vazios eram tapados com chumaços de pano ou de palha de milho, mas, no verão, eram reabertos para permitir a circulação de ar. Nas casas dos colonos pobres, a lata de banha substituía a geladeira; as labaredas no fogão, as telenovelas; e os buracos nas tábuas, o condicionador de ar.



Recordo a casa da tapera já recoberta de um musgo suave, quase uma poeira acinzentada, manchada pela intempérie, mas que havia sido azul, segundo minha mãe, que a pintou aos doze ou treze anos. Não sei como nem por quem foi construída, mas participei de sua destruição, em 1965, quando a família mudou-se para a casa de alvenaria, no alto da colina, às margens do estradão.



Dessa casa da tapera restaram farelos desconexos de memória, súbitas iluminações, temporalidades que se sobrepõem. São sensações vagas, cheiros, texturas, imagens, que se misturam a lembranças de outras casas. A escada de acesso, ao contrário do que eu imaginava, ficava nos fundos, segundo a minha mãe. A porta da frente, por causa do desnível do terreno, não necessitava de degraus, ela me corrigiu. Talvez os cepos de sustentação não fossem quatro, mas três. Talvez apenas dois, já que o próprio barranco podia servir de escora. O teto, na minha lembrança, não tinha forro, e tinha. As vigas expostas que enxergo são de outra residência. Para mim, eram muitos os quartos de dormir, para abrigar tantos filhos. No entanto, havia só quatro: o dos meninos, o das meninas, o do casal e o de hóspedes. Do aparelho de rádio eu me recordo muito bem. Ficava no canto da sala, próximo a uma janela. Os estalidos de extática, secos, que fazia ecoam ainda em meus ouvidos. Imagino, passados tantos anos, o quanto devia ser difícil captar as emissões que vinham de Ijuí e de Cruz Alta, cidades que possuíam torres de transmissão, mas que ficavam a centenas de quilômetros de distância. Agora, ao escrever tudo isso, num insight impressionante, vem-me à memória a figura de meu avô, agastado com um temporal que derrubou a antena que ele colocara na cumeeira do galpão.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

Suor no Rosto (3)


 3

Lindolfo Lenhardt, meu avô materno, havia sido músico em sua terra natal. Trompetista de banda, artista de bailes, festas e quermesses. Com suas performances, economizou dinheiro suficiente para comprar uma colônia de terras no Distrito de Caravaggio, a seis quilômetros da cidade de Três de Maio. Terras que quase nada valiam, recobertas por florestas infestadas de animais e formigueiros.



Quase ao mesmo tempo, meu avô paterno, Bernardo Augusto Kiefer, que também fora músico em Cachoeira do Sul, e plantador de fumo, comprou um salão de bailes no Distrito da Consolata, a quatro quilômetros de distância das terras da família de minha mãe, e um pouco mais distante da cidade de Três de Maio. Anos mais tarde, em 1950, praticamente faliu, porque os católicos foram proibidos de freqüentar os salões de baile por ordem do Papa. Vendeu, então, a casa de diversões e se tornou proprietário de uma pequena olaria, que existe ainda hoje e que me forneceu o barro para a construção de Valsa para Bruno Stein.



"Tijolo e pão o mundo sempre irá precisar", ele dizia, ensinando-me as primeiras noções de sobrevivência e de comércio.



De um lado, herdei notas de flauta e de trompete; e de outro, acordes de violão e de violino. Meu pai e minha mãe foram cantores de rádio, antes de meu nascimento. Só não me tornei músico porque a fumaça de cigarro nos salões de baile, única alternativa profissional para um músico em minha terra natal, me impediu. Sou alérgico, reativo a fumaças, pós e polens. Ainda hoje, para serenar o espírito, ou para entreter as filhas, dedilho um violão e canto. Sofia é boa pianista e boa desenhista. Um dos significados de seu nome é o de “fazer bem com as mãos”. Anna, que ainda não fala e nem caminha, já balança o corpo ao ouvir alguma melodia. Eu e ela passamos horas vendo e ouvindo clipes musicais. Mas, ao lutar com as palavras, tento transferir para a linguagem escrita o timbre, o ritmo e a harmonia das notas musicais bem dispostas no pentagrama. Faço e refaço os meus textos tantas vezes quantas forem necessárias para conseguir a fluidez e a falsa simplicidade do solista. Sei que ninguém mais se importa com isso, mas escrevo, na verdade, para mim mesmo; sei que o texto medíocre e superficial é o que vende mais, o que mais agrada às multidões de bárbaros, mas essa é a minha última – e hoje única – trincheira. Procurei sempre transferir aos meus alunos essa concepção radical de arte literária.  



Meu avô Lindolfo era “católico, apostólico e romano”, como gostava de dizer. E meu avô Bernardo, era de “confissão luterana”, ele também gostava de dizer. A igreja do primeiro era enorme, deslumbrante, e a do segundo, pequena, e de uma simplicidade constrangedora. Levei muito tempo para compreender as grandes diferenças entre as duas famílias que me constituíram. Meu pai, protestante, teve apenas um irmão e uma irmã. Minha mãe, católica, teve nove irmãos e três irmãs. Por muito tempo, imaginei que Regina, a mãe de meu pai, fosse pouco fértil. Depois de ler Max Weber, na adolescência, e de ter começado a compreender a ética protestante e o espírito capitalista, perguntei-lhe como mantivera tão reduzida prole. “Com o chá dos bugres”, respondeu-me, com a sinceridade seca que também me persegue. Morreu recentemente, com mais de cem anos.



Vivi a infância mais perto da família católica, e a adolescência mais perto da família protestante. As diferenças me assombravam e nunca consegui fazer a síntese entre as duas visões de mundo. Ainda hoje, uma parte de mim se encanta com a missa do galo e sua pompa; a outra, não se submete a nenhuma autoridade, não aceita o fausto. Uma parte acumula; a outra, culpada, inventa filantropia. O cético, em mim, não desdenha da fé; o crente não prega. E ambos observam com perplexidade a guerra entre ciência e religião. Ao encontrar a Fonte dessas duas visões de mundo, descansei. Agora, posso afirmar com serenidade aos meus alunos de Kabbalah: “Não acreditem em nenhuma das minhas palavras. Façam os exercícios e experimentem vocês mesmos”. Kabbalah, para quem não sabe, é a Ciência do Recebimento. 

quarta-feira, 1 de janeiro de 2020

Shamati (9)







9. Quais são as três coisas que ampliam a mente de alguém durante o Trabalho?



(Escutei em Elul, em agosto de 1942)



O Sagrado Zohar interpreta a seguinte frase que nossos sábios escreveram: “Três coisas ampliam nossa mente: uma bela mulher, uma bela morada e belos Kelim (vasos)”. Quando diz “uma bela mulher” refere-se à Sagrada Shekiná (Divindade). “Uma bela morada” é o coração, e “belos Kelim são os órgãos.



Precisamos explicar que a Sagrada Shekiná não pode se manifestar em sua verdadeira forma, que é um estado de graça e de beleza, exceto quando a pessoa possui belos Kelim, que representam os “órgãos” recebidos do coração. Isto significa que a pessoa deve, em primeiro lugar, purificar seu coração para transformá-lo numa bela morada, anulando o desejo de receber para si mesmo, e acostumando-se a trabalhar em ações que em sua totalidade estejam governadas pela finalidade de outorgar. Dessa forma, são obtidos belos Kelim, isto é, que seus desejos, chamados Kelim, foram purificados da recepção para si mesmos. Agora, ao contrário, são puros e discernidos como outorgamento.



No entanto, se a morada não é bela, então o Criador declara: “Ele e Eu não podemos habitar embaixo do mesmo teto”. A razão disso é que deve haver equivalência de forma entre a Luz e o Kli (vaso). Desse modo, quando alguém assume e aceita a fé na pureza, tanto na mente quanto no coração, é recompensado com uma bela mulher, que se refere à Sagrada Shekiná, manifestando-se diante dele em graça e beleza. E isso amplia a sua mente.



Noutras palavras, através do prazer e do regozijo, a Sagrada Shekiná manifesta-se em suas entranhas, enchendo os seus Kelim externos e internos. Isso se obtém através da inveja, da luxúria e da honra que “afastam a pessoa do mundo”. Ao falar de inveja, refere-se à inveja a respeito da Sagrada Shekiná, relacionada com o ciúme, no mesmo sentido da frase “O ciúme do Senhor das Hostes”.  A honra significa que a pessoa deseja incrementar a Glória dos Céus. E a luxúria se diz em virtude de “Haveis escutado o desejo dos humildes”.

terça-feira, 31 de dezembro de 2019

Suor no rosto (2)



2


As terras vermelhas do Planalto Médio Central eram férteis, bem servidas de rios e afluentes, e muito baratas. A região, escassamente povoada, precisava de braços para o trabalho de desmatamento e de ampliação das lavouras. Um novo país estava nascendo, a reboque da revolução getulista, e ele precisaria de novos e mais variados produtos agrícolas. Na época, não se pensava em crescimento sustentado, equilíbrio ecológico, vacum rastreado. Na adolescência, no Colégio Estadual Cardeal Pacelli, tive um professor que falava muito em ecologia, em destruição dos recursos naturais e nos perigos da superpopulação mundial. A cidade inteira dizia que ele era louco. Sempre, na história humana, os visionários e os profetas são vistos pelas massas ignorantes como doentes mentais, desequilibrados ou poetas. Ridicularizados em vida, depois recebem homenagens póstumas, especialmente quando seus vaticínios se cumprem. Os antigos, com sua Sabedoria derivada da Mesopotâmia, onde apareceram os primeiros cabalistas, usavam a mesma palavra para designar os loucos e os poetas: vate. Daí, vaticínio, vidência, adivinhação. Não se sabe se o vocábulo tem origem latina, grega ou celta.    



Para os migrantes era um imperativo de sobrevivência colocar abaixo as milenares canafístulas e canjaranas e plantar em seu lugar mandioca, feijão e arroz do seco. A soja, que transformaria completamente a estrutura fundiária da região, viria bem mais tarde, na década de 50. Não tenho saudade de madelaines, porque nunca as tive, mas o cheiro de pão de milho assado no forno à lenha desperta-me também memórias involuntárias. Outro odor de que tenho saudade é o de madeira recém-cortada por motosserras ou serras-fitas, por mais agressivo e politicamente incorreto que seja admitir isso. Eu brincava de cowboy numa serraria, com meus colegas de escola. Os troncos de canafístula, compridos, majestosos, e as tábuas de guajuvira, louro ou cedro já cortadas, serviam-nos de abrigo contra as bolinhas de mamona, jogadas pelos estilingues que chamávamos de bodoques. Apesar da violência do folguedo, que nossos pais certamente não conheciam, nunca tivemos um olho vazado. Havia uma regra, que era respeitada por todos os meninos: jamais atirar na cabeça. O infortúnio é um erro de cálculo, sempre repito, plagiando não sei quem. A frase é muito boa para ser minha, preciso admitir. O infortúnio é um erro de cálculo e também uma questão de acaso. Centenas de bolinhas de mamona voando para lá e para cá a velocidades espantosas e nenhum acidente grave, exceto alguns vermelhões. Talvez por isso eu tenha sido tão obsessivo com a segurança da Sofia, a filha do meio. E seja obsessivo agora com a segurança da Anna, a filha mais nova. Crianças só caem e se machucam quando os adultos se descuidam. Quando nos hospedamos em hotéis e pousadas, ou na casa de familiares e amigos, vasculho fios desencapados, escadas perigosas, móveis com arestas pontiagudas, janelas sem proteção. O mundo, já me convenci, foi planejado para os adultos. A sobrevivência das crianças é um milagre. Eu próprio me surpreendo de ter chegado aos sessenta anos praticamente ileso, com exceção de algumas escoriações, fraturas e cicatrizes.



Na serraria, entre restolhos de madeira, troncos e serragem, muitas vezes encontrei os escorpiões negros que reapareceriam quarenta anos depois em meu romance O escorpião da sexta-feira. Naquele tempo, e naquela região, as madeireiras eram comuns. Quando a matéria-prima escasseou, migraram para o norte do Paraná. E depois para a Amazônia, que está sendo devastada a uma velocidade impressionante. O que a natureza levou centenas de milhares de anos para construir, nós destruiremos em um século. Por isso, é preciso reflorestar o Rio Grande do Sul com urgência, para que as serrarias voltem. Que me perdoem os líricos, os ingênuos e os ignorantes, mas a ecologia só produzirá efeitos reais quando for um bom negócio.



Meu pai, quando criança, sentava-se sobre toras de cedro com uma canequinha de alumínio e molhava o longo serrote manual para que o calor não emperrasse a lâmina que meu avô e meu tio Olavo puxavam o dia inteiro. Para complementar os rendimentos da olaria, eles produziam dormentes para os trilhos da linha de trem de Santa Rosa, em construção. Trinta anos depois, para economizar as passagens de ônibus, eu percorria a pé o trajeto entre Cruzeiro, onde morava na casa de meu tio Silvano, e Santa Rosa, onde eu trabalhava no Jornal O Noroeste, exatamente sobre aqueles trilhos, assoviando, e sonhando em viver de literatura. O sonho, como os trens, perdeu-se na distância. Hoje, com várias dezenas de livros publicados, e traduzido em outros países, vendo infinitamente menos do que vendia na década de 80 do século passado. Ainda assovio, e para sobreviver ensinei a muitos a arte de escrever. Hoje, não ensino mais Escrita Criativa, nem Literatura. Dedico-me agora a mais antiga ciência da humanidade, a Chochmá Nistará, a Sabedoria Secreta, que os gregos aprenderam com os babilônios. Hoje eu entendo o Aristóteles, que recomendava que não se ensinasse a Sabedoria para alunos eticamente despreparados. Ou, como diz o Talmude, para alguns alunos é melhor que fiquem sentados e que não façam nada. Referiam-se, os antigos sábios, aos Segredos e não aos Sabores. Os Sabores são para todos; os Segredos, para alguns. Quando Julius Robert Oppenheimer, o físico responsável pelo Projeto Manhattan, enviou o telegrama a Albert Einstein comunicando que tinham acabado de “libertar Saturno”, falava de Segredos. Imagino que ele, judeu e conhecedor da Sabedoria de seu povo, tenha pensado na Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal ao contemplar o cogumelo formado no deserto de Los Alamos, no Novo México, quando a primeira bomba atômica foi detonada.



Da primitiva cobertura vegetal, que era quase completa no noroeste do estado do Rio Grande do Sul, e que a natureza levou tanto tempo para produzir, pouco restou. Hoje, as terras altas estão transformadas num infinito tapete verde e rasteiro de soja. Com a fauna e a flora devastadas, a região, agora, sofre com as estiagens, os temporais violentos e as invasões de colonos sem-terra.

segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

Suor no Rosto (1)




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Durante a década de 30, em conseqüência da modernização que começava a produzir-se no Brasil, houve um surto migratório em direção ao Alto Uruguai, a noroeste do Rio Grande do Sul. Numa dessas levas, meus antepassados, que viviam no município de Cachoeira do Sul, viajaram em carroções, como no Velho Oeste, e subiram a serra em direção ao Planalto Médio Central, onde se instalaram. Em Aventura no Rio Escuro contei às crianças parte dessa história, ficcionalmente. Meio século depois, eu faria o caminho inverso dos meus avôs, retornando à planície, migrante também. Sem uma cachorra como a Baleia, de Graciliano Ramos, mas com uma filha, que hoje é a filha mais velha, Maíra, casada com Armando Júnior, e que já me deram dois lindos netos, o Bernardo e a Ana Bella.



Segundo Bernardo Augusto Kiefer, meu avô paterno, que encheu os meus primeiros anos de vida com as maravilhosas aventuras de Till Eulenspiegel, e com a sabedoria caseira dos antigos Almanaques, a viagem teria durado dezesseis dias, em carroções lentos e desconfortáveis. Contei fragmentos dessa saga em A face do abismo, meu romance faulkneriano. Esse livro é cheio de maneirismos lingüísticos, cortes narrativos abruptos, vazados em linguagem torrencial, de difícil leitura. Por muitos anos, acalentei a esperança, e a ilusão, de um dia reescrevê-lo. Eu não sabia que eu tinha uma morte “no meio do caminho”, que no “meio do caminho” eu tinha uma morte. E a experiência da morte, eu soube depois de ser reanimado, modifica tudo. Durante 49 anos eu quis ser escritor, eu quis ter o meu nome gravado nos livros de história da literatura. Passava semanas fechado dentro de um quarto, a inventar narrativas, sem contato com as pessoas. Hoje, passo semanas sentado no meu pomar, brincando com a filha mais nova, a Anna, que tem um ano e meio, ou conversando com meus amigos e alunos, ou olhando as estrelas na companhia da filha do meio, a Sofia, ou tomando chimarrão com a Marta, essa extraordinária companheira que Hashem colocou em meu caminho. Agora, não quero ser nada a não ser alguém capaz de compartilhar com os outros tudo que aprendeu num outro mundo, muito além desse mundinho em que ter o nome nos livros de história da literatura tem alguma importância.



Confesso que em meu fracassado projeto de ser escritor faltou-me o fôlego e a paciência descritiva de um John Steinbeck, escritor que tanto admirei na juventude. Fôlego talvez eu também o tivesse. Não tive, na verdade, condições econômicas para ser aquilo que eu queria ter sido ou o que poderia ter sido no campo da arte narrativa. Dinheiro compra tempo, e tempo nunca tive. Minha predileção pela história curta, o conto e a novela, não foi tão inocente, e nem tão esquemática, como eu próprio, às vezes, fiz crer, em entrevistas, artigos e palestras. Um conto, pela sua própria natureza, pode ser escrito num feriado prolongado. Ou numa tarde de domingo. Embora gestado longamente. E burilado ainda mais demoradamente. Mas não um romance. E muito menos um romance épico. De Machado de Assis, também confesso agora, eu só invejo o emprego de funcionário público. Mesmo hoje, enquanto ainda luto para comer o pão no suor do meu rosto, só me lancei à perigosa aventura de escrever memórias porque aproveitei as forçadas férias da epidemia de gripe que, em agosto de 2009, assustou aqueles que já esqueceram que a luta pela sobrevivência do ser humano sempre foi contra os vírus e as bactérias. A maior parte de nossa massa corporal é composta de bactérias, numa estranha, inquietante e hilária simbiose. Sem esses seletivos e selecionadores microorganismos nós não estaríamos aqui. Mais de 10 anos depois que a epidemia de gripe me levou a iniciar a escritura de Suor no rosto, eu retomo o projeto, por culpa de um amigo paulista, chamado Carlos Mendes, que é um dos responsáveis pelo programa Afinal, o que somos nós? Depois de uma longa entrevista que dei ao seu Canal de Youtube, retornei para Porto Alegre com a vontade de voltar a escrever minhas memórias. Assim, voltemos ao passado e aos seus fios invisíveis, que são incapazes de nos salvar do que nos espera no fundo do túnel, com ou sem pandemias. Não, não nos salvam, mas nos recarregam com a energia que brota do ônfalos.

domingo, 29 de dezembro de 2019

Hillulot (11)


Rabi Yair Chayim Bacharach

Rabi alemão e maior posek (Juiz Halachico) do século XVII

1º de Tevet | 29/12/2019

Nascido em Lipník nad Bečvou, República Checa, em 1638
Falecido em Moravia, República Checa, em 1702

O Rabi Yair Chayim Bacharach viveu primeiramente em Koblenz, na Alemanha, mas passou a maior parte da sua vida nas cidades de Worms e Mainz, também na Alemanha. Sua avó, Eva Bacharach era neta do Maharal de Praga, enquanto seu pai, Moses Samson Bacharach, e seu avô foram rabinos em Worms.

É o autor de Chavos Yair ("Vilas de Yair"), publicado em Frankfurt em 1699, uma compilação de responsas cujo título veio a ser o nome pelo qual é conhecido, além de ser uma referência à sua avó, Chava, e também a um local mencionado em Números 32:41 e em outros livros da Bíblia judaica. Também escreveu Mekor Chayim, obra que pretendia ser o principal comentário ao Sulchan Aruch, mas que foi recolhida por Bacharach quando o mesmo descobriu que outros comentários haviam surgido, especialmente o Taz e Magen Avraham. Mesmo assim, ainda é considerado como principal fonte de referência acerca dos minhagim (costumes) da época e região. Bacharach também escreveu uma crítica à obra do Rabi Aharon Teomim-Frankel, Mateh Aharon, na qual condena a metodologia do pilpul, popular entre os rabinos da época. Além de sua erudição haláchica, também dominava todas as ciências, música, história e escrevia poesia, e compilou uma enciclopédia de 46 volumes sobre vários assuntos. 

Em 1689, a comunidade de Worms foi dizimada pelos franceses durante a Guerra dos Nove Anos, sendo reconstruída pouco a pouco. Em 1699, Bacharach foi indicado como rabino da cidade e, seguindo o legado do seu pai e avô, serviu como tal por três anos, até sua morte em 1702. Seu epitáfio inicia com as seguintes palavras: "Um terrível e grave horror recai sobre nós quando a luz do nosso mestre (Rabbeinu) se oculta...". Em 1982, sua principal obra, Mekor Chayim, é finalmente publicada por Machon Yerushalayim.
Considerações
Bacharach era cauteloso quanto suas opiniões sobre a Kabbalah. Ainda que considerasse a Kabbalah algo muito sagrado, sustentava que a mesma também trazia um grande risco teológico e que por isso deveria ser estudada apenas pelos mais devotos e apenas sob orientação de um professor. Na sua responsa, Bacharach conta que alguém lhe pediu para explicar as fórmulas cabalísticas comumente impressas nos livros de orações. Bacharach se recusou a responder, mas quando a pessoa insistiu, limitou-se a dizer que desconhecia a explicação. Ainda que desencorajasse o estudo aprofundado da Kabbalah, estimulava a leitura simples do Zohar.

Que o mérito do tzadik Rabi Yair Chayim Bacharach proteja a todos nós, Amém.

Shamati (137)

    137. Zelofeade estava coletando madeira (Ouvi em Tav - Shin - Zayin , 1946-1947)   Zelofeade estava coletando madeira. O Zohar i...