domingo, 8 de março de 2020

Pergunte ao Maguid (1)




Pergunta: Considerando que existem muitas palavras positivas em hebraico que começam com Aleph e muitas palavras negativas que começam com Beit, por que a Torá começa com a Letra Beit e é considerada Benção. Não poderia esse Beit ter um significado negativo?



Resposta do Maguid: Considero essa pergunta extraordinária, e a sua resposta poderia virar uma tese de doutorado no campo da hermenêutica.  Mas não viajemos tão longe... O bom problema dessa pergunta é que ela reproduz exatamente a questão da letra Beit, que representa o Mundo da Dualidade, o mundo das palavras positivas e das palavras negativas. A Torah (Instrução pela Luz) trabalha no Mundo da Dualidade e não no Mundo da Unidade. Em Keter, tudo é Um. Já a partir de Chochmá, tudo se divide. A Torah nos conta a história da alma (não de pessoas, povos ou países) a partir do Mundo de Beriá, o Mundo da Criação, por isso começa com Beit. Começasse com Aleph, a Torah contaria a história do Mundo de Atzilut ou do Mundo de Adam Kadmon. Estou escrevendo muitos livros de Kabbalah, simultaneamente, e um deles se chama Sefer Sodot ha Beit (Os segredos da Letra Beit).

sábado, 7 de março de 2020

Nevuah (9)




Observações e Recomendações



1.    O coronavirus vai infectar de 40 a 70 por cento da Humanidade (de 3,2 bilhões de pessoas a 5,6 bilhões);


2.    O coronavirus vai desarranjar a economia mundial, produzindo uma recessão que vai durar de 10 a 15 anos;


3.    Os dias difíceis, que venho profetizando já faz anos aos meus alunos e alunas de Kabbalah, podem ser mitigados se tomarmos alguns cuidados básicos;


4.    A Taxa de Mortalidade (TM) varia conforme a idade e as condições sanitárias e de saúde do infectado;


5.    Crianças de 1 a 10 anos estão enormemente protegidas (como anunciei, profeticamente, ao Rabino Saltoun e a minha esposa Marta faz tempo, porque são “almas da primeira geração”);


6.    De 10 a 40 anos a TM é de 0,02 por cento (2 pessoas morrerão em cada mil infectadas);


7.    Entre 40 e 60 anos, a TM aumenta muito (chegando até a 10 vezes a TM do Influenza);


8.    De 60 a 80 anos, a TM aumenta exponencialmente (chegando à mortalidade de 20 por cento);


9.    Fumantes, independentemente da idade, são mais suscetíveis à Síndrome Severa;


10.                      Diabéticos, idem;


11.                      Pessoas com problemas cardíacos, idem;


12.                      Pessoas com doenças crônicas (artrite, reumatismo, asma, alergias graves e etc) idem; 


13.                      Adoshem Ylachem Lashem.







Conselhos



1.    Lave as mãos com freqüência, por mais de 20 segundos, usando sabonete e/ou detergente. Não deixe de usar álcool-gel;


2.    Não toque a boca, o nariz e os olhos;


3.    Higienize corrimãos de escadas, maçanetas de portas e botões de elevadores com freqüência com álcool gel;


4.    Lave as mãos depois de tocar em cédulas de dinheiro ou moedas;

5.    Reforce seu sistema imunológico;


6.    Mantenha distância social de 1 metro: não cumprimente com as mãos, não abrace, não dê beijinhos e não compartilhe seu chimarrão;


7.    Lembrem-se: a História da Humanidade é a História da luta contra os vírus, as bactérias e outros patógenos. Nós sempre vencemos. Nós sempre venceremos;


8.    Aproveite a quarentena voluntária ou obrigatória que virá para ler os livros Germes, de Judith Miller, e A História da Humanidade contada pelos vírus, de Stefan Cunha Ujvari, e outros livros com o mesmo conteúdo. Só entra em pânico quem tem Síndrome do Pânico, que precisa tratar com psicanalista, e quem é ignorante;


9.    Lembre-se: O infortúnio é um erro de cálculo;


10.                      Adoshem Ylachem Lashem.



Obs. Compartilhe em suas redes sociais e familiares estas Observações e Recomendações.

sexta-feira, 6 de março de 2020

Introdução ao Livro do Zohar (29)




29. Com isso, compreendemos que a divisão do Mundo de Atzilut em três componentes, como descrito em Zohar Tikunim, é "Ele, Sua Luz e Suas Ações, que são Um".



Se no nosso atual estado sentimos o Universo ao nosso redor, e a nós mesmos fazendo parte dele, podemos complementar essa cena com o Criador e Sua influência. Como resultado, chegamos a uma ideia extremamente complexa. Na verdade, entretanto, quando ascendemos ao Mundo Espiritual e entramos no Mundo de Atzilut, o Criador, Sua influência sobre nós e o Universo que percebemos fundem-se em uma unidade chamada "adesão do Criador com a criação", a Unidade infinita, ilimitada, irrestrita.



Essa adesão ocorre do nível do Mundo de Atzilut para cima, quando "o Criador, Sua Luz e Suas Ações são um", assim, Atzilut emana a cor branca apesar do fato de que lá existe apenas uma unidade simples, sem criaturas. Isso ocorre porque o Criador significa a Divindade em si mesma (a qualidade de doação), cuja essência não compreendemos. "Suas Ações" constituem os Dez Kelim HuBTuM existentes Nele, que se assemelham à cor branca do Livro da Sabedoria. É impossível discernir a abundância no branco, pois nada que lá exista produz qualquer delimitação, já que tudo é branco.



Não caracterizamos nem o Criador nem Suas Ações no Mundo de Atzilut. Portanto, o Zohar nada menciona sobre Atzilut ou acima, apenas sobre os Mundos de BYA, já que de outra forma seria impossível nos transmitir o conhecimento. Nós simplesmente seríamos incapazes de recebê-lo.



A matéria das letras começa nos Mundos de BYA. Primeiro, as encontramos nos Kelim de Keter, Chochmá, Biná, ZA, e Malchut do Mundo de Atzilut, mas somente pela mediação da cor branca, que permite que as letras tenham forma enquanto ainda não existe cor. Quando ascendemos ao Mundo de Atzilut através Mundos de BYA vemos que a cor branca possui uma multiplicidade de formas, embora ela mesma não tenha forma, pois o Criador executa muitas ações ainda que, na verdade, Ele não execute nenhuma. Muitas contradições passam a convergir e desaparecer na unidade simples, nesse recebimento da Perfeição.



Os Dez Kelim do Mundo de Atzilut revelam-se em inúmeras mudanças conforme a sua luminosidade nos Mundos de BYA, que é semelhante ao modo com que o projeto mental de uma casa é implementado durante a sua construção.



Assim, todas as modificações realizadas nos Mundos de BYA ocorrem apenas sob a influência da luminosidade nos Kelim das Dez Sefirot HuBTuM de Atzilut. Por pertencermos àqueles que recebem nos Mundos de BYA, podemos distinguir as várias mudanças que ocorrem na cor branca. Em relação ao próprio Mundo de Atzilut, é como se a cor branca não adquirisse as cores das letras. De fato não há, de modo algum, distinções nela.



Nós não recebemos a cor branca através de outras letras, isto é, por meio dos Mundos de BYA que se sobrepõe ao Mundo de Atzilut. Não recebemos nada, pois não há ação ou quantificação ali, apenas a Luz simples e inalcançável.



A Cabalá explica como devemos corrigir nossa percepção do mundo ao nosso redor a fim de sentirmos o Mundo do Infinito ao invés do nosso. Tudo depende das nossas sensações e da nossa correta adaptação à verdadeira realidade ao invés da ilusão, que é o que percebemos com nossos cinco sentidos.



Já dissemos que a noção "O Criador, a Luz e a Suas Ações no Mundo de Atzilut são um" não se enquadra em várias categorias, tais como as percebemos no nosso mundo. O nosso mundo, nossas ações, o Criador, Suas Ações, todas essas, parecem estar totalmente desunidos. Apesar disso, na medida em que corrigimos nossa percepção da realidade, ela se fundirá à grande Força Superior, que tudo rege.


quinta-feira, 5 de março de 2020

Introdução ao Livro do Zohar (28)




28. É claro que os Kelim das Dez Sefirot dos Mundos de BYA recebem todos os seus componentes e aspectos do Mundo de Atzilut. Eles existem como o projeto mental de todas as partes que serão realizadas, em uma sequência apropriada, enquanto os Mundos de BYA estiverem sendo construídos.



Cada mínimo detalhe ou ação já se encontra completo e realizado no Mundo de Atzilut, antes mesmo da sua descida aos Mundos de BYA.



Baal HaSulam nos encoraja a parar de pensar que nossas ações podem modificar qualquer coisa. Quando aceitamos essa verdade, nossa atitude em relação à vida e ao mundo muda. Deixaremos de desperdiçar energia com coisas que não podemos mudar e, ao invés disso, passaremos a procurar um propósito com a ajuda do qual poderemos transformar o mundo.



Com isso, compreendemos que os Kelim das Dez Sefirot HuBTuM dos Mundos de BYA recebem dos vasos HuBTuM correspondentes no Mundo de Atzilut, ou seja, do seu projeto mental. Portanto, cada parte individual nos Mundos de BYA recebe das respectivas Sefirot: Keter, Chochmá, Biná, Zeir Anpin, e Malchut dos Mundos de Atzilut.



Sendo assim, se descobrimos dentro de nós mesmos o mais insignificante aspecto espiritual composto de Dez Sefirot, podemos alcançar as Dez Sefirot de Atzilut, pois elas estão conectadas diretamente entre si. Chamamos a cor dos Kelim de Atzilut de "branco", que não é nem mesmo uma cor - ela é acromática. Entretanto, ela é a fonte de todas as outras cores.



Todas as raízes das Dez Sefirot emanam da cor branca, que nos proporciona toda a variedade de sensações.



Semelhante à cor branca das páginas de um Livro da Sabedoria (apesar do fato de que nada pode ser compreendido através da cor branca), ela é portadora de tudo o que há no Livro da Sabedoria. Por isso ela brilha ao redor de cada letra e dentro de cada letra, conferindo-lhes forma e determinando a posição específica de cada combinação.



Não podemos ver a Sabedoria da cor branca de Atzilut, ela manifesta-se através da sua luminosidade nos Mundos de Beriá, Yetzirá, e Assiyá.



Do mesmo modo, podemos dizer que a matéria das letras (vermelho, verde e preto) é absolutamente inalcançável. Isso ocorre porque a matéria é sem vida. Recebemos todos os nossos attainments e conhecimento através da matéria do Livro, que é o branco. A luminosidade ao redor e no interior das letras lhes confere sua forma, o que nos revela a Sabedoria do Livro.



Por um lado, isso significa que lemos as letras e, por outro, que lemos a cor branca ao redor de cada letra. Somente sobrepondo as duas noções de Infinito ao elevar nossas sensações, nossas letras, ao nível dos Mundos do Infinito, onde elas se fundem numa unidade, ocorre o recebimento da verdadeira Sabedoria.



Essa é a essência das Dez Sefirot de Atzilut. Elas são semelhantes à cor branca, e nada se pode saber sobre elas: nem quantidade, nem variações. Entretanto, ao mesmo tempo, a luminescência do branco sobre os Mundos de BYA, que são as três cores das letras, cria os Kelim das Dez Sefirot de Atzilut.

terça-feira, 3 de março de 2020

Mocha de Ilaah (8)






Meu aluno de Estudos Avançados de Kabbalah, Leon Naifleisch, que participa do Grupo Hey, o Grupo da Nevuah, fez-me uma refinada pergunta:



“O que significam os nomes Harel e Ariel, em Ezequiel 43:15, no original hebraico?”



A pergunta de meu aluno requer Sabedoria (Chochmá) e Entendimento (Daat), e muito escrutínio. Comecemos pelas traduções.



A maioria dos tradutores do Velho Testamento para o português opta por traduzir com simplicidade e clareza, evitando os espinhos Harel e Ariel. Também sou tradutor e também vivo o mesmo dilema: sacrificar a literalidade do original em nome do entendimento rasteiro das massas ou ser fiel ao original, sacrificando a compreensão dos leitores comuns?



Vamos a algumas traduções disponíveis em nosso idioma:



“E o Altar terá quatro cúbitos de altura, e desde o Altar, apontando para cima, haverá quatro chifres” (Bíblia Hebraica, Editora Sefer, tradutores David Gorodovits e Jairo Fridlin);



“E a fornalha do Altar terá dois metros de altura e se levantarão quatro pontas, da lareira do altar para cima” (Bíblia King James Atualizada, tradução do Comitê Internacional de Tradução da Bíblia King James para a Língua Portuguesa);



“A lareira de quatro côvados de altura; da lareira para cima se projetavam quatro chifres” (Bíblia Sagrada, Editora Maltese, tradução de “eminentes teólogos, para o linguajar de nossos dias, baseado na tradução do Padre Antonio Pereira de Figueiredo”).



Eu poderia continuar citando várias outras edições, pois tenho quase uma dúzia Bíblias, mas vou ficar com essas três e mais uma: a primeira, da Editora Sefer, é judaica; a segunda é inglesa, anglicana; e a terceira, é católica. Essas três preferem ignorar os nomes dos dois Arcanjos que se encontram no original em língua hebraica, o Harel e o Ariel.



No entanto, a Bíblia Sagrada, edição da Imprensa Bíblica Brasileira, 1971, traduzida ao português por João Ferreira de Almeida, apresenta a passagem da profecia sobre a construção do futuro Templo assim:



“E o Harel, de quatro côvados, e desde o Ariel até acima havia quatro cornos”.



Será, Leon Naifleisch, que João Ferreira de Almeida, um dos meus tradutores preferidos, sabia que nós, no futuro, saberíamos que Harel significava, no tempo dos grandes profetas, “altar superior”, e que Ariel significava “lareira do altar”?



Pois é, no nível Pshat (literal e histórico) todos os tradutores, de uma forma ou de outra, acertaram, mas, no nível Sod (dos segredos cabalísticos), a questão é outra... Essa resposta, Leon, eu te darei de “boca a ouvido”.

segunda-feira, 2 de março de 2020

Baal HaSulam (3)




A essência da Sabedoria da Cabalá



Antes que eu fale sobre elucidar a história da Sabedoria da Cabalá, exposta por muitos, acho necessário começar com uma clarificação completa da essência desta Sabedoria, a qual eu acredito que tão poucos conhecem. Naturalmente, é impossível falar da história de algo antes de sabermos o que é este algo.



Embora este conhecimento seja mais amplo e profundo do que o mar, eu tentarei, com toda a força e conhecimento que adquiri neste campo, clarificá-lo e iluminá-lo de todos os lados, o suficiente para que qualquer pessoa tire as conclusões corretas, como elas realmente são, sem deixar espaço para o erro, como é freqüente em tais assuntos.




Do que trata a Sabedoria



Esta questão vem à mente de toda pessoa bem-intencionada. Para tratar disso apropriadamente, providenciarei uma definição confiável e duradoura: Esta Sabedoria não é mais nem menos que um conjunto de raízes de causa e efeito, que seguem leis fixas e determinadas que se entrelaçam num único e exaltado propósito descrito como “a revelação de Sua Santidade às Suas criaturas neste mundo.”



E aqui há uma conduta geral e uma conduta particular:

        

Geral – a humanidade inteira é obrigada a chegar a esse imenso desenvolvimento, como está escrito, “Pois a terra estará cheia do conhecimento do Criador, como a água cobre o mar” (Isaías 11, 9). “E eles não ensinarão mais cada homem a seu vizinho, e cada homem a seu irmão, dizendo, conheça o Criador, pois eles todos Me conhecerão, do menor deles ao maior” (Jeremias 31, 33), e ele diz, “Seu Professor não mais Se ocultará, e seus olhos verão seu Professor” (Isaías 30).



Particular – que, mesmo antes da perfeição da humanidade inteira, essa regra será implementada em alguns poucos indivíduos escolhidos em cada geração. Estes são os que são dotados, em cada geração, com certos graus de revelação de Sua Santidade. Estes são os profetas e os homens de Deus, e como nossos sábios disseram: “Não há geração sem aqueles que são como Abraham, Isaac e Jacó” (Midrash Rabbah Beresheet, Porção 74). Portanto, você vê que a revelação de Sua Santidade é implementada em cada geração, como nossos sábios, que consideramos confiáveis, proclamam.




A abundância de Partzufim, Sefirot e Mundos



De acordo com o escrito acima, surge uma pergunta: já que esta Sabedoria não tem senão um papel, especial e claro, por que há uma abundância de Partzufim, Sefirot, e conexões intercambiáveis, as quais são tão predominantes nos livros de Cabalá?



Na verdade, se você pega o corpo de um pequeno animal, cuja única tarefa é nutrir-se para que possa existir neste mundo por tempo suficiente para procriar e levar adiante sua espécie, você encontrará nele uma estrutura complexa de milhões de fibras e tendões, como os fisiologistas e anatomistas encontraram, e há aí muito ainda que os seres humanos irão descobrir. Do afirmado acima, você pode deduzir a vasta variedade de questões e canais que precisam se conectar para formar e revelar aquele propósito sublime.




Duas Condutas – de Cima para Baixo e de Baixo para Cima

        

A Sabedoria é geralmente dividida em duas ordens paralelas, iguais e idênticas entre si, como duas gotas de um lago. A única diferença entre elas é que a primeira ordem se estende de cima para baixo, para este mundo, e a segunda ordem começa neste mundo e cruza de baixo para cima precisamente pelas mesmas rotas e combinações impressas na raiz delas quando elas apareceram de cima para baixo.



A primeira ordem é chamada “a ordem de descida dos mundos, Partzufim e Sefirot,” em todas as suas ocorrências, sejam elas duradouras ou transitórias. A segunda ordem é chamada “recebimentos (attainments) ou graus de profecia e Espírito Santo.” Uma pessoa recompensada com ela deve seguir as mesmas trilhas e enseadas, e gradualmente alcançar cada detalhe e cada grau, precisamente pelas mesmas regras que foram gravadas nelas quando de sua Emanação de Cima para baixo.



Isto é assim porque o assunto da revelação da Santidade não aparece de uma vez, como na revelação de coisas corpóreas, mas gradualmente, por um período de tempo, dependendo da limpeza daquele que alcança, até que se descubram todos os graus que estão pré-arranjados de Cima para baixo. Por eles virem em uma ordem de recebimento (attainment) um depois do outro e um acima do outro como se fossem degraus de uma escada, eles são chamados “níveis” [degraus].




Nomes abstratos



Muitos acreditam que todas as palavras e os nomes na Sabedoria da Cabalá sejam um tipo de nomes abstratos, já que ela lida com a Santidade e a espiritualidade, as quais estão acima do espaço e do tempo, onde nem mesmo nossa imaginação alcança. Por esta razão, eles decidiram que tudo que é dito sobre tais assuntos são apenas nomes abstratos, até mesmo mais sublimes e exaltados que nomes abstratos, já que são completamente, e desde o princípio, desprovidos de elementos imaginários.



Mas este não é o caso. Ao contrário, a Cabalá usa apenas nomes e denominações que são concretos e reais. É uma lei inflexível para todos os cabalistas que “Qualquer coisa que nós não atingimos, nós não definimos por um nome e uma palavra.” Aqui você deve saber que a palavra “recebimento” (attainment, em hebraico Hasagah) significa o grau definitivo de compreensão. Esse nome deriva da frase, Ki Tasig Yadcha [“Tua mão alcançará/receberá”]. Isto significa que antes que algo se torne completamente lúcido, como se tivesse sido apanhado pela mão de alguém, os cabalistas não o consideram recebido, mas o chamam por outros nomes, como entendimento, compreensão e assim por diante.




A realidade na Sabedoria da Cabalá

        

Coisas reais são encontradas mesmo na realidade corpórea que está posta diante de nossos olhos, embora nós não tenhamos nem percepção nem uma imagem de suas essências. Assim são a eletricidade e o magnetismo, os quais são chamados “fluidos”.



Não obstante, quem pode dizer que esses nomes não são reais, quando nós temos uma consciência completamente satisfatória de suas ações, e somos completamente descuidados a respeito do fato de que não temos percepção da essência do assunto em si, a saber, a eletricidade ela mesma. Este nome é tão tangível e próximo de nós como se fosse inteiramente percebido por nossos sentidos. Todas as criancinhas estão familiarizadas com a palavra “eletricidade”, assim como estão familiarizadas com palavras como “pão”, “açúcar” e assim por diante.



Além disso, se você deseja exercitar suas ferramentas de escrutínio, eu lhe direi que, como um todo, já que não há qualquer percepção do Criador, é impossível receber a essência de qualquer uma de Suas criaturas, mesmo os objetos tangíveis que nós sentimos com nossas mãos.



Portanto, tudo que sabemos sobre nossos amigos e parentes no mundo da ação diante de nós não são mais do que “conhecimento das ações”. Estas são incitadas e nascidas pela associação do encontro delas com nossos sentidos, os quais nos dão satisfação completa embora nós não tenhamos percepção alguma da essência do assunto.



Além disso, você não tem percepção ou recepção alguma mesmo da sua própria essência. Tudo que você sabe sobre sua própria essência não é nada mais que uma série de ações que derivam de sua essência.



Agora você pode facilmente concluir que todos os nomes e denominações que aparecem nos livros de Cabalá são na verdade reais e factuais, embora nós não tenhamos recepção (attainment) do assunto de maneira alguma. Isto é assim porque aqueles que se engajam neles (nos nomes e denominações) têm a satisfação completa de percepção, inclusiva em sua plenitude definitiva, significando apenas a percepção de ações que são estimuladas e nascidas da associação da Luz Superior e seus percebedores.



Porém, isto é suficiente, pois esta é a regra: “Tudo que é medido e se estende desde a Sua orientação de modo a se tornar uma realidade, a natureza da criação, é completamente satisfatório”. Isto é precisamente como alguém que não irá desejar um sexto dedo em sua mão porque os cinco dedos são suficientes.




Os termos corpóreos e os nomes físicos em livros de Cabalá



Qualquer pessoa razoável entenderá que, ao lidar com assuntos espirituais, ainda mais com a Santidade, não temos palavras ou letras para contemplar. Isto é assim porque todo o nosso vocabulário não passa de combinações das letras de nossos sentidos e imaginação, e como elas podem ajudar quando não há nem imaginação nem sentidos?



Mesmo que tomemos a palavra mais sutil que pode ser usada em tais assuntos, tal como “Luz Superior” ou mesmo “Luz Simples”, isto ainda é imaginário e emprestado da luz do sol ou de uma vela, ou de uma luz de contentamento que se sente ao se dirimir uma dúvida. Como podemos utilizá-las em assuntos espirituais e de modos Divinos? Elas oferecem ao examinador nada mais do que falsidade e engano.



Isto é particularmente assim quando se necessita encontrar uma justificativa para ajudar alguém nas negociações costumeiras na pesquisa da Sabedoria. Aqui o sábio deve usar definições rigorosamente acuradas para os olhos dos leitores.



Se o sábio falhar com uma única palavra malsucedida, ele irá confundir e induzir a erro os leitores. Eles não entenderão o que ele diz antes e depois dessa palavra, e tudo o que está conectado a essa palavra não será compreendido, como é sabido por qualquer um que examina livros de Sabedoria.



Assim, devemos nos perguntar como é possível para cabalistas usar palavras falsas para explicar as interconexões nessa Sabedoria. Ainda, é sabido que não há definição através de um nome falso, pois a mentira não tem pernas nem postura.



Na verdade, aqui você deve conhecer em primeiro lugar a “Lei das Raízes e dos Ramos”, através da qual as palavras se relacionam umas com as outras.




A Lei das Raízes e Ramos através da qual os Mundos estão relacionados



Os cabalistas descobriram que a forma dos quatro mundos chamados Atzilut, Beria, Yetzira e Assiya, começando com o primeiro e mais elevado mundo, chamado Atzilut, descendo até este mundo corpóreo e tangível chamado Assiya, é exatamente a mesma em cada item e evento. Isto significa que tudo que sucede e ocorre no primeiro mundo é encontrado inalterado no próximo mundo, abaixo dele, também. É o mesmo em todos os mundos que se seguem, até [chegar a] este mundo tangível.



Não há diferença entre eles, mas unicamente uma diferença de grau percebido na substância dos elementos da realidade em todo e cada mundo. A substância dos elementos da realidade no primeiro e mais elevado mundo é mais refinada do que em todos os mundos abaixo dele. E a substância dos elementos da realidade no segundo mundo é mais densa que no primeiro mundo, mas mais refinada do que tudo que está em um grau mais baixo.



Isto continua de maneira similar até este mundo diante de nós, cuja substância dos elementos de sua realidade é mais grosseira e escura do que em todos os mundos precedentes. No entanto, as formas e elementos da realidade e todas as suas ocorrências vêm inalteradas e iguais em todos os mundos, tanto em quantidade quanto em qualidade.



Eles compararam isto ao comportamento de um carimbo e sua impressão: todas as formas no carimbo são perfeitamente transferidas em cada detalhe e complexidade ao objeto impresso. Assim é com os mundos: cada mundo inferior é uma impressão do mundo acima dele. Consequentemente, todas as formas no mundo superior são meticulosamente copiadas, tanto em quantidade quanto em qualidade, para o mundo inferior.



Portanto, não há um elemento [da realidade] ou uma ocorrência da realidade em um mundo inferior que você não encontrará à sua imagem e semelhança no mundo acima, sendo tão idênticos quanto duas gotas de uma lagoa. E eles são chamados “Raiz e Ramo”. Isto significa que o item no mundo inferior é considerado um ramo de seu padrão encontrado no mundo superior, o qual é a raiz do elemento inferior, já que este é o local onde aquele item no mundo inferior foi impresso e feito para ser.



Esta foi a intenção de nossos sábios quando eles disseram, “Não há uma folha de grama abaixo que não tenha uma fortuna e um guarda acima que bate nela e lhe diz, ‘Cresça’!” (Omissões de O Zohar, p. 251a [fonte em hebraico], Beresheet Rabbah, Capítulo 10). Segue-se que a raiz, chamada “fortuna”, a impele a crescer e assumir seu atributo em quantidade e qualidade, como a impressão e seu carimbo. Esta é a Lei da Raiz e do Ramo que se aplica a cada detalhe e ocorrência na realidade, em cada um dos mundos, em relação ao mundo acima dele.




A linguagem dos cabalistas é uma linguagem de Ramos



Isto significa que os ramos apontam para suas raízes, sendo seus moldes que necessariamente existem no mundo superior. Isto porque não há nada na realidade do mundo inferior que não derive de seu mundo superior. Assim como o carimbo e a impressão, a raiz no mundo superior compele seu ramo no mundo inferior a revelar sua forma e atributo completos, como nossos sábios disseram, que a fortuna no mundo acima, relacionada à grama no mundo abaixo, bate naquela grama e a força a completar seu crescimento. Por causa disso, todo e cada ramo neste mundo define bem seu molde situado no mundo superior.



Assim, os cabalistas encontraram um vocabulário definido e anotado, suficiente para criar uma excelente língua falada. Ela permite a eles conversarem uns com os outros sobre os procedimentos nas raízes espirituais nos mundos superiores apenas mencionando os ramos mais baixos e tangíveis neste mundo, o qual está bem definido para nossos sentidos corpóreos.



Os ouvintes compreendem a raiz superior à qual este ramo corpóreo aponta porque ele está ligado a ela, sendo a sua impressão. Portanto, todos os seres da criação tangível e todas as suas instâncias se tornaram para eles palavras e nomes bem definidos, indicando as altas raízes espirituais. Embora não possa haver uma expressão verbal em seu lugar espiritual, pois este está acima de qualquer imaginação, elas conquistaram o direito de ser expressas por enunciados através de seus ramos, dispostos diante de nossos sentidos aqui no mundo tangível.



Esta é a natureza da linguagem falada entre os cabalistas, através da qual eles transmitem seus recebimentos (attainments) espirituais de pessoa a pessoa e de geração a geração por palavra oral e escrita. Eles compreendem inteiramente uns aos outros, com toda a precisão necessária para ajustes em uma pesquisa de Sabedoria, com definições precisas, nas quais não se pode falhar. Isto é assim porque cada ramo tem sua definição natural e ímpar, e esta definição absoluta indica sua raiz no mundo superior.



Tenha em mente que essa Linguagem de Ramos da Sabedoria da Cabalá é mais adequada para explicar os termos da Sabedoria do que nossas linguagens ordinárias. É sabido, através da teoria do nominalismo, que todas as linguagens foram deturpadas pelas massas, o que significa que devido ao uso excessivo das palavras, elas estão sendo esvaziadas de seu conteúdo correto, resultando em grandes dificuldades para transmitir deduções precisas de uma pessoa a outra por palavra oral ou escrita.



Este não é o caso com a Linguagem dos Ramos da Cabalá: ela é derivada dos nomes das criações e suas ocorrências, estabelecidas diante de nossos olhos, e definidas pelas imutáveis leis da natureza. Os leitores e ouvintes nunca serão confundidos por palavras oferecidas a eles, posto que as definições naturais são absolutas e não podem ser violadas.




Transmissão de um sábio cabalista a um receptor compreensivo



Assim escreveu Nachmânides em sua introdução ao seu comentário sobre a Torá, e Rav Chaim Vital também escreveu de modo similar no ensaio Pesi’ot: “Os leitores deveriam saber que eles não entenderão uma única palavra de tudo o que está escrito nestes ensaios, a menos que elas sejam transmitidas de um sábio cabalista para o ouvido de um receptor sábio que entenda com sua própria mente.” Ainda, nas palavras de nossos sábios (Hagigah 11b): “Não se estuda a Merkavá [estrutura/epíteto à sabedoria da Cabalá] sozinho, a menos que a pessoa seja sábia e compreenda com sua própria mente.”



As palavras deles são completamente compreendidas quando dizem que a pessoa deve receber de um sábio cabalista. Mas por que a necessidade do discípulo de primeiramente ser sábio e compreender com sua própria mente? Além disso, se ele não for assim, então não deve ser ensinado, mesmo que seja a pessoa mais honesta do mundo. Além do mais, se uma pessoa já é sábia e compreende com sua própria mente, que necessidade ela tem de aprender de outros?



Do que foi mencionado acima, as palavras deles são entendidas com absoluta simplicidade: Nós vimos que todas as palavras e expressões que nossos lábios pronunciam não podem nos ajudar a clarificar nem mesmo uma única palavra dos assuntos espirituais Divinos que estão acima do tempo e espaço imaginários. Ao invés disso, há uma linguagem especial para estes assuntos, a Linguagem dos Ramos, de acordo com sua relação com suas raízes superiores.



No entanto, essa linguagem, embora seja muito apropriada para sua tarefa de aprofundar os estudos dessa Sabedoria, mais do que outras linguagens, só o é se o ouvinte é sábio por seu próprio direito, ou seja, que ele sabe e entende a maneira pela qual os ramos se relacionam com suas raízes. Isto é assim porque essas relações não são nada claras quando se olha do mais baixo ao mais alto. Em outras palavras, é impossível fazer qualquer dedução ou imagem a respeito das raízes superiores ao se observar os ramos inferiores.



É o contrário, o inferior é que é estudado a partir do superior. Portanto, deve-se primeiro alcançar as raízes superiores da maneira como elas são na espiritualidade, acima de qualquer imaginação e com puro attainment (recepção), como foi explicado no ensaio A Essência da Sabedoria da Cabalá, Item 4, “A Realidade na Sabedoria da Cabalá.” E uma vez que ele recebeu/alcançou (attained) completamente as raízes superiores com sua própria mente, ele pode examinar os ramos tangíveis neste mundo e saber como cada ramo se relaciona com sua raiz no mundo superior, em todas as suas ordens, em quantidade e qualidade.



Quando a pessoa sabe e compreende tudo isto completamente, ela tem uma linguagem em comum com seu professor, a saber, a Linguagem dos Ramos. Ao utilizá-la, o sábio cabalista pode transmitir todos os estudos sobre a sabedoria conduzidos nos mundos espirituais superiores, tanto o que ele recebeu de seus professores quanto as expansões na Sabedoria que ele descobriu por si mesmo. Isto porque agora eles têm uma linguagem comum e compreendem um ao outro.



No entanto, quando um discípulo não é sábio e compreende aquela linguagem por si mesmo, ou seja, como os ramos apontam para suas raízes, naturalmente o professor não pode transmitir sequer uma única palavra dessa Sabedoria espiritual, muito menos negociar com ele no escrutínio da Sabedoria. Posto que eles não têm uma linguagem comum que possam utilizar, eles ficam como mudos. Por isso, é necessário que a Maase Merkavá, que é a Sabedoria da Cabalá, não seja ensinada, a menos que ele (o discípulo) seja sábio e entenda com sua própria mente.



Nós devemos questionar ainda mais: como então o discípulo se tornou tão sábio a ponto de saber as relações entre Ramo e Raiz, rastreando as raízes superiores? A resposta é que, aqui, os esforços do homem são em vão; é da ajuda do Criador que nós necessitamos! Ele preenche aqueles que Ele favorece com Sabedoria, entendimento e conhecimento para adquirir attainments sublimes. Aqui é impossível ser auxiliado por qualquer carne e sangue!



De fato, uma vez que Ele se afeiçoou a uma pessoa e a dotou com o sublime attainment, ela então está pronta para vir e receber a vastidão da Sabedoria da Cabalá de um sábio cabalista, pois apenas agora eles têm uma linguagem comum.




Nomes alheios ao espírito humano



Com tudo o que está dito acima, você compreenderá por que algumas vezes nós encontramos nomes e termos que são muito alheios ao espírito humano nos livros de Cabalá. Eles são abundantes nos livros fundamentais de Cabalá, que são O Livro do Zohar, os Tikunim, e os livros do ARI. Na verdade, é desconcertante por que estes sábios utilizaram nomes tão baixos para expressar noções tão exaltadas e sagradas.



Ainda, você compreenderá isto inteiramente uma vez que tenha adquirido as concepções acima. Isto porque está claro agora que nenhuma linguagem no mundo pode ser usada para explicar esta Sabedoria exceto por uma que se destina somente para este fim, a saber, a Linguagem dos Ramos de acordo com as relações com as raízes superiores.



Portanto, obviamente, nenhum ramo ou ocorrência de um ramo deve ser negligenciado por seu grau inferior, ou não usá-lo para expressar a concepção desejada nas interconexões na Sabedoria, posto que não há outro ramo no mundo para tomar seu lugar.



Assim como dois fios de cabelo não se alimentam de uma mesma raiz, nós não temos dois ramos que se relacionem a uma única raiz. Consequentemente, ao deixarmos um incidente sem uso, perdemos o conceito espiritual correspondente no mundo superior, pois não temos uma única palavra para pronunciar em seu lugar e indicar aquela raiz. Além disso, tal incidente prejudicaria toda a Sabedoria em toda a sua vastidão, já que agora há um elo perdido na corrente da Sabedoria conectada àquele conceito.



Isto mutila toda a Sabedoria, pois não há outra Sabedoria no mundo na qual os assuntos estão tão fundidos e interligados por meio de causa e efeito, primário e consequente, quanto na Sabedoria da Cabalá, conectados de cima a baixo exatamente como uma longa corrente. Portanto, após a perda temporária de apenas um pequeno conhecimento, toda a Sabedoria escurece diante de nossos olhos, pois todos os seus assuntos estão conectados uns aos outros, literalmente se fundindo em um só.



Agora você não irá se questionar quando do uso ocasional de apelativos/nomes alheios. Os cabalistas não têm Livre Arbítrio com apelativos/nomes, para substituir o mau pelo bom, ou o bom pelo mau. Eles devem sempre usar o ramo ou o incidente, o qual aponta precisamente para sua raiz superior em todas as medidas necessárias. Além disso, os assuntos devem ser expandidos para providenciarem uma definição precisa aos olhos de seus colegas leitores.


domingo, 1 de março de 2020

Baal HaSulam (2)




 Revelando uma porção, ocultando duas



Há uma expressão que os grandes sábios usam quando eles vêm divulgar um assunto profundo. Eles começam suas palavras com “Eu estou revelando uma porção e ocultando duas porções”. Nossos sábios tomaram grande cuidado em não pronunciar palavras desnecessariamente, como nossos sábios instruíram, “Uma palavra é uma pedra; o silêncio são duas” (Megillah 18ª, “Introdução ao Livro do Zohar,” Item 18).

        

Isto significa que se você tem uma palavra inestimável que vale uma pedra, saiba que não dizê-la vale duas pedras. Isto se refere àqueles que pronunciam palavras desnecessárias sem conteúdo pertinente ou utilidade, exceto a de decorar seu próprio estilo aos olhos do leitor. Isto era estritamente proibido aos olhos de nossos sábios, como é sabido por aqueles que examinam suas palavras, e como eu irei provar nos ensaios subsequentes. Consequentemente, devemos ficar atentos para entender essa expressão que lhes era comum.

Três tipos de ocultação da Sabedoria

        

Há três partes nos Segredos de Torá. Cada parte tem sua própria razão para ser ocultada. Elas são chamadas pelos seguintes nomes:

1. Desnecessária;

2. Impossível;

3. O conselho do Senhor está com aqueles que O temem.



Não há sequer uma fração desta Sabedoria na qual os escrutínios destas três partes não se apliquem, e eu vou clarificá-las uma de cada vez.



1. Desnecessária

        

Isto significa que ninguém se beneficiará com a sua revelação. É claro, isto não é uma grande perda porque há apenas a questão da limpeza da mente aqui, para alertar sobre aquelas ações definidas por “e daí”, significando “E daí se eu fiz isto, não há mal algum nisso”. Mas você deve saber que aos olhos dos sábios “e daí” é considerado o pior corruptor, já que todos os destruidores no mundo, aqueles que foram e aqueles que serão, estão no tipo “e daí” de pessoa. Isto significa que eles se ocupam e ocupam os outros com coisas desnecessárias. Por isso, os sábios não aceitavam nenhum estudante antes de terem certeza de que eles seriam cuidadosos em seus caminhos, para não revelarem o que não fosse necessário.



2. Impossível



Isto significa que a linguagem não os compele a dizerem coisa alguma a respeito de sua qualidade, devido à sua grande sublimidade e espiritualidade. Por isso, qualquer tentativa de vesti-las com palavras só pode induzir os examinadores a erro e desviá-los para um falso caminho, o que é considerado a pior das iniquidades. Por este motivo, para revelar qualquer coisa sobre esses assuntos é necessário permissão do Alto. Esta é a segunda parte da ocultação da sabedoria. Ainda assim, esta permissão também requer explicação.



Permissão do Alto



Este assunto é explicado no livro O Portal para as palavras de Rashbi, do ARI (na porção, Mishpatim, O Zohar, 4:100, começando com as palavras, “O filho de Yochai sabia como ocultar”): “Saibam que algumas das almas dos justos são do tipo Luz Circundante, e algumas são do tipo Luz Interna. (Você encontrará o significado delas no meu livro Panim Meirot, Portal Makifin, Ramo 48.) Aqueles que são do tipo Luz Circundante têm o poder de falar dos Segredos e das Ocultações da Torá através de grande cobertura e ocultação para que apenas aqueles que forem merecedores os compreendam.



A alma de Rabi Shimon Bar-Yochai era do tipo Luz Circundante. Por isso, ele tinha o poder de vestir as palavras e ensiná-las de uma maneira tal que, mesmo que ele as ensinasse para muitos, apenas os merecedores de compreendê-las as compreenderiam. É por isso que a ele foi dada a “permissão” para escrever O Livro do Zohar.

        

A permissão não foi “concedida” para que escrevesse um livro nessa Sabedoria aos seus professores ou aos primeiros que os precederam na escrita dessa Sabedoria, mesmo que eles certamente fossem mais conhecedores disso do que ele próprio. Mas a razão é que eles não tinham o poder de vestir os assuntos como ele o fazia. Este é o significado do que está escrito, “o filho de Yochai sabia como guardar seus caminhos.” Agora você pode entender a grande ocultação n’O Livro do Zohar que Rashbi escreveu, que nem toda mente pode alcançar suas palavras.



A essência de suas palavras: Explicar os assuntos na Sabedoria da Verdade não depende de modo algum da grandeza ou pequenez do sábio cabalista. Ao invés disso, depende da Iluminação de uma alma dedicada a este assunto. A Iluminação dessa alma é considerada “permissão concedida” de Cima para revelar a Sabedoria Superior. Nós, portanto, aprendemos que quem não foi recompensado com essa permissão não deve fazer clarificações nesta Sabedoria, já que não pode vestir estes assuntos sutis em suas devidas palavras de uma maneira que não irá falhar com os alunos.

        

Por essa razão, nós não encontramos um único livro na Sabedoria da Verdade que precede O Livro do Zohar de Rashbi, já que todos os livros na Sabedoria anteriores ao dele não são categorizados como clarificações da Sabedoria, mas são meras insinuações, sem uma ordem de causa e efeito, como é sabido por aqueles outros, os conhecedores.



Eu devo acrescentar, conforme recebi de livros e autores, que desde a época de Rashbi e seus discípulos, os autores d’O Zohar, até a época do ARI, não existiu um único escritor que compreendesse as palavras d’O Zohar e as Tikunim [correções] como o ARI. Todas as composições anteriores à sua época são meros indícios na Sabedoria, incluindo os livros do sábio RAMAK.



E as mesmas palavras que foram ditas sobre o Rashbi devem ser ditas sobre o ARI ele mesmo – que seus predecessores não receberam permissão do Alto para revelar as interpretações da Sabedoria, e ao ARI foi dada essa permissão. Isto não distingue nenhuma grandeza ou pequenez, já que é possível que o Mérito dos predecessores do ARI fosse muito maior que o dele, mas eles não receberam permissão para tal. Por essa razão, eles se abstiveram de escrever comentários que estão relacionados à essência da Sabedoria, mas estabeleceram breves insinuações que não estavam de modo algum ligadas umas às outras.



Portanto, desde que os livros do ARI apareceram no mundo, todos os que estudam a Sabedoria da Cabalá retiraram suas mãos dos livros do RAMAK, e de todos os primeiros e grandiosos que precederam o ARI, como é sabido entre os que se engajam nessa Sabedoria. Eles conectaram suas vidas espirituais unicamente aos escritos do ARI de tal modo que os livros essenciais, considerados interpretações adequadas nesta Sabedoria, são apenas O Livro do Zohar, as Tikunim, e seguindo estes, os livros do ARI.



3. O Conselho do Senhor é para Aqueles que O Temem



Isto significa que os Segredos da Torá são revelados apenas a aqueles que temem o Seu nome, que mantêm Sua glória em seus corações e almas, de modo a nunca cometerem nenhuma forma de blasfêmia. Esta é a terceira parte da ocultação da sabedoria.



Esta parte é a mais estrita no que diz respeito à ocultação, já que esSe tipo de revelação falhou para muitos. Do meio deles derivam todos os feiticeiros, murmuradores e cabalistas “práticos”, que caçam almas com sua astúcia, e os místicos que usam Sabedoria atrofiada que veio das mãos de estudantes indignos, para produzir efeitos corporais benéficos para eles mesmos ou para outros. O mundo sofreu muito com isto e ainda está sofrendo.



Saiba que a raiz da ocultação foi apenas esta parte. Daqui os sábios tomaram excessivo rigor ao testar os discípulos, como nossos sábios disseram (Hagigah 13ª), “Um resumo é dado apenas a um juiz supremo, e para aquele cujo coração está preocupado,”  e “Maase Beresheet não deve ser explorada aos pares, nem a Merkavah deve ser explorada sozinho.” Há muitas outras como estas, e todo este medo se deve à razão citada acima.



Por esse motivo, poucos são os escolhidos que foram recompensados com essa Sabedoria, e mesmo aqueles que passaram por todos os testes e exames são jurados pelos mais sérios juramentos a não revelarem coisa alguma dessas três partes (A este respeito, veja a introdução ao Livro da Criação, de Rabi Moshe Burtril).



Não entenda mal minhas palavras, pelo fato de que dividi a ocultação em três partes. Eu não quero dizer que a Sabedoria da Verdade ela mesma se divida naquelas três partes. Ao invés disso, quero dizer que essas três partes se ramificam a partir de cada detalhe dessa Sabedoria, já que elas são os três únicos modos de escrutínio que são sempre aplicadas a essa Sabedoria.



No entanto, aqui nós devemos nos questionar: Se é verdade que o rigor da ocultação da Sabedoria é tão severo, de onde as milhares de composições sobre essa Sabedoria foram retiradas? A resposta é que há uma diferença entre as primeiras duas partes e a última parte. O fardo principal está apenas na terceira parte, pela razão já explicada. Mas as primeiras duas partes não estão sob proibição constante, já que algumas vezes uma questão na “desnecessária” é revertida, deixa de ser desnecessária por alguma razão, e se torna necessária. Ainda, a parte “impossível” às vezes se torna possível. Isto é assim por duas razões: ou devido ao desenvolvimento da geração ou por uma permissão concedida do Alto, como aconteceu ao Rashbi e ao ARI, e em medidas menores aos seus formadores. Todos os livros genuínos escritos na Sabedoria emergem desses discernimentos.



Isso é o que eles querem dizer com sua expressão “Eu revelei uma porção e ocultarei duas porções.” Eles querem dizer que aconteceu que eles revelaram algo novo que seus predecessores não previram. É por isso que eles anunciam que estão revelando apenas uma porção, ou seja, que eles estão revelando a primeira parte das três partes de ocultação, e deixando duas partes ocultadas.



Isso indica que algo aconteceu, o que é a razão para a revelação: seja que o “desnecessário” recebeu a forma de “necessário”, ou foi recebida a “permissão dada do Alto”, como eu expliquei acima. EsSe é o significado da expressão “eu estou revelando uma porção.”



Os leitores desses ensaios que eu pretendo imprimir durante o ano deveriam saber que eles são todos inovações, que não são apresentados puramente dessa forma, em seu conteúdo preciso, em nenhum livro anterior a mim. Eu os recebi de boca a boca de meu professor, que foi autorizado a isto, ou seja, que ele também os recebeu de seus professores boca a boca.



E embora eu tenha recebido todos eles sob as condições de ocultação e vigilância, pela necessidade apresentada em meu ensaio Hora de agir, a parte “desnecessária” foi invertida para mim e se tornou “necessária.” Por isso, eu revelei essa porção com permissão completa, conforme expliquei acima. Ainda assim manterei as outras duas porções em ocultação conforme me foi ordenado.


Shamati (137)

    137. Zelofeade estava coletando madeira (Ouvi em Tav - Shin - Zayin , 1946-1947)   Zelofeade estava coletando madeira. O Zohar i...