quinta-feira, 28 de abril de 2022

Shamati (19)

  

19. O que é “O Criador Odeia os Corpos” no Trabalho?

(Ouvi em Tav-Shin-Guímel, 1942-1943, Jerusalém)

 

O Zohar diz que o Criador odeia os corpos. Ele diz que devemos interpretar isso como uma referência ao desejo de receber, chamado Guf [corpo]. O Criador criou o Seu mundo para a Sua glória, como está escrito: “Todos que são chamados pelo Meu Nome, pela Minha glória, Eu os criei, os formei e também os fiz”.

 

Portanto, isso contradiz o argumento do corpo de que tudo é para ele, apenas para seu próprio benefício. O Criador diz o oposto, que tudo deveria ser em consideração ao Criador. É por isso que os nossos sábios dizem que o Criador disse “ele e Eu não podemos habitar na mesma morada”.

 

Segue-se que a principal fonte de separação que impede a Dvekut [adesão] com o Criador é o desejo de receber. Isso fica aparente quando chega o mal, ou seja, quando o desejo de receber para si mesmo vem e pergunta: “Por que você quer trabalhar pelo Criador?” Nós achamos que esse desejo fala com as pessoas, achamos que ele quer entender com o seu intelecto. No entanto, isso não é verdade, já que ele não pergunta para quem o indivíduo está trabalhando. Certamente, esse é um argumento racional, de forma que esse argumento desperta em uma pessoa sensata.

 

Em vez disso, o argumento do perverso é uma questão corporal. Ou seja, ele pergunta: “O que é esse trabalho?” Em outras palavras, o que você vai ganhar pelo esforço que está fazendo? Isso significa que ele pergunta: “Se você não está trabalhando para o seu próprio benefício, o que o corpo, chamado de ‘desejo de receber para si mesmo’, ganha com isso?”

 

Já que esse é um argumento corporal, a única resposta é uma resposta corporal, que é “Ele escondeu os dentes, e se ele não estivesse lá, ele não teria sido redimido”. Por quê? Porque o desejo de receber para si mesmo não tem redenção, mesmo no tempo da redenção, já que a redenção virá quando todos os recebimentos entrarem nos vasos de doação e não nos vasos de recepção.

 

O desejo de receber para si mesmo deve sempre permanecer em déficit, pois satisfazê-lo é a própria morte. A razão é que, como dito acima, a criação foi primariamente para a Sua glória (e essa é uma resposta para o que está escrito, que o Seu desejo é fazer o bem às Suas criatura e não a Si mesmo).

 

A interpretação será de que a essência da Criação é revelar a todos que o propósito da Criação é fazer o bem às Suas criaturas. Isso ocorre especificamente quando o indivíduo diz que ele nasceu para honrar o Criador. Nesse momento, nesses vasos, aparece o propósito da Criação, que é fazer o bem às Suas criaturas.

 

Por essa razão, o indivíduo deve sempre examinar a si mesmo, o propósito do seu trabalho, e averiguar se o Criador recebe contentamento em todas as suas ações, porque busca a equivalência de forma com o Criador. Isso é chamado “todas as suas ações serão pelo Criador”, pois o indivíduo quer que o Criador desfrute de tudo que ele faz, como está escrito “Trazer contentamento ao seu Fazedor”.

 

Além disso, o indivíduo precisa se conduzir com o desejo de receber e se dirigir a ele, dizendo: “Eu já decidi que não quero receber qualquer prazer para que você desfrute, pois com o seu desejo eu sou forçado a me separar do Criador, já que a disparidade de forma causa separação e distância do Criador.”

 

Como não consegue se libertar do poder do desejo de receber, a esperança do indivíduo deveria ser o fato de que ele está em um perpétuo processo de subidas e descidas. Consequentemente, ele espera pelo Criador, espera que Ele o recompense com a abertura dos seus olhos e com a força para superar e trabalhar apenas pelo bem do Criador. É como está escrito: “Uma eu pedi ao Criador; por ela eu vou procurar.” “Ela” significa a Shechiná [Divindade]. E o indivíduo pede “que eu possa habitar na morada do Senhor por todos os dias da minha vida”.

 

A morada do Senhor é a Shechiná. E agora podemos entender o que os nossos sábios disseram sobre o verso “e tomará para você no primeiro dia”, o primeiro a contabilizar as iniquidades. Devemos entender por que há regozijo se há lugar para contabilizar as iniquidades aqui. Devemos saber, ele disse, que há uma questão de importância no trabalho quando há contato entre o indivíduo e o Criador.

 

Isso significa que o indivíduo sente que precisa do Criador, pois, no estado de labor, ele vê que ninguém no mundo pode salvá-lo do estado em que está, exceto o Criador. Então, ele vê que “não há ninguém além Dele” que possa salvá-lo do estado em que está e do qual não consegue escapar.

 

Isso é chamado de "ter contato próximo com o Criador". Se o indivíduo sabe apreciar esse contato, então acredita que está aderido ao Criador e todos os seus pensamentos são sobre o Criador. Dessa forma, Ele o ajudará, porque senão o indivíduo vê que está perdido.

 

De forma inversa, aquele que é recompensado com Providência Particular e vê que o Criador faz tudo, como está escrito “apenas Ele faz e fará todos os atos”, esse indivíduo não tem nada a adicionar e, de toda forma, não há espaço para orar pela ajuda do Criador, pois ele vê que o Criador faz tudo mesmo sem a sua oração.

 

Portanto, neste momento, não há espaço para realizar bons atos, pois o indivíduo vê que, mesmo sem ele, tudo é feito pelo Criador. Assim, o indivíduo não tem necessidade da ajuda do Criador para nada. Nesse estado, ele não tem contato com o Criador e não necessita Dele na medida de estar perdido sem a Sua ajuda.

 

Assim, o indivíduo não tem o contato que tinha com o Criador durante o trabalho. Ele disse que é como uma pessoa suspensa entre a vida e a morte, que pede para seu amigo salvá-la. Como ele pede para seu amigo? Ele certamente tenta pedir para que seu amigo tenha misericórdia dele e o salve da morte com todo o poder à sua disposição. Ele certamente nunca esquece de pedir ao seu amigo, pois ele vê que, se não fizer isso, perderá a vida.

 

No entanto, aquele que pede luxos ao seu amigo, coisas não necessárias, esse suplicante não está tão ligado ao seu amigo a ponto de que a sua mente não se distraia de pedir o que quer receber. Percebe-se que, com coisas não relacionadas à salvação da vida, o suplicante não se torna tão ligado ao doador.

 

Portanto, quando o indivíduo sente que deve pedir ao Criador que lhe salve da morte, do estado de “os perversos na sua vida são chamados ‘morte’”, o contato entre a pessoa e o Criador é próximo. Por essa razão, para os justos, um lugar de trabalho é necessitar a ajuda do Criador. Caso contrário, ele está perdido. É isso que os justos almejam: um lugar para trabalhar de forma que tenham contato próximo com o Criador.

 

Assim, se o Criador dá espaço para o trabalho, esses justos ficam muito felizes. É por isso que eles disseram “o primeiro a contabilizar as iniquidades”. Para eles, é motivo de alegria ter um lugar para o trabalho, ou seja, tornar-se necessitado do Criador e poder entrar em contato próximo com Ele. Isto é assim porque ninguém pode vir ao Palácio do Rei sem um propósito.

 

Esse é o significado do verso “e tomará para você”. Ele especifica “para você” pois tudo está nas mãos dos céus, com exceção do temor aos céus. Em outras palavras, o Criador pode dar a luz em abundância porque Ele a tem. Mas, na escuridão, no lugar da falta, esse não é Seu domínio.

 

Devido à regra de que o temor aos céus existe apenas a partir de um lugar de falta – e um lugar de falta é chamado “o desejo de receber” –, isso significa que, apenas então, há um lugar para o trabalho. Em quê? No que há resistência.

 

O corpo chega e pergunta: “O que é o trabalho?” E o indivíduo não tem nada a responder a essa questão. Então, ele deve assumir o fardo do reino dos céus acima da razão, como um boi ou um burro aceitam uma carga, sem qualquer argumento. “Em vez disso, Ele disse e Sua vontade foi feita. Isso é chamado “para você”, ou seja, esse trabalho pertence precisamente a você, e não a Mim. É o trabalho que o seu desejo de receber requer”.

 

Contudo, se o Criador fornece alguma iluminação de cima, o desejo de receber se rende e se anula como uma vela perante uma tocha. Então, o indivíduo não tem qualquer trabalho, pois ele não tem mais necessidade de tomar sobre si, coercitivamente, o fardo do reino dos céus – como um boi ou um burro com uma carga, como está escrito: “Você que ama o Senhor, odeia o mal”.

 

Isso significa que o amor do Criador se estende apenas a partir do lugar do mal. Em outras palavras, na medida em que o indivíduo tem ódio pelo mal, quando ele vê o quanto o desejo de receber lhe obstrui de alcançar a completude do objetivo, nessa medida ele necessita que o amor do Criador lhe seja transmitido. Se um indivíduo sente que ele tem mal, ele não pode receber o amor do Criador, pois ele não o necessita, já que tem satisfação no trabalho.

 

Como dissemos, o indivíduo não deve se irar quando tem trabalho com o desejo de receber, no sentido de que isso lhe obstrui no trabalho. O indivíduo certamente ficaria mais satisfeito se o desejo de receber desaparecesse do corpo, pois ele não traria perguntas à pessoa e não a obstruiria no trabalho de observar a Torá e as Mitzvot [mandamentos].

 

Contudo, o indivíduo deve acreditar que as obstruções do desejo de receber são enviadas de cima. É concedida de cima ao indivíduo a força para descobrir o desejo de receber, porque há espaço para o trabalho precisamente quando o desejo de receber desperta.

 

Então, o indivíduo tem contato próximo com o Criador para que lhe ajude a transformar o desejo de receber em trabalho com a intenção de doar. O indivíduo deve acreditar que disso se estende o contentamento ao Criador, da sua oração a Ele a fim de aproximá-lo na forma de Dvekut [adesão], chamada de “equivalência de forma”, discernida da anulação do desejo de receber para que seja com a intenção de doar. Sobre isso, o Criador diz: “Meus filhos me venceram”. Ou seja, Eu lhe dei o desejo de receber e, ao invés disso, você Me pede o desejo de doar.

 

Agora podemos interpretar o que é trazido na Guemará (Hulin p. 7): “O Rabino Pinchás ben Yair estava a caminho para resgatar os prisioneiros. Ele se deparou com o rio Ginai. Ele disse ao rio: “Divida sua água e eu passarei através de você.” O rio lhe disse: “Você fará a vontade do seu Criador, e eu farei a vontade do meu Criador. Você talvez faça, e talvez não faça, a vontade do seu Criador, enquanto eu certamente farei.”

 

Sobre o significado disso, o rabino disse que falou ao rio – ou seja, ao desejo de receber –que o deixasse atravessá-lo para alcançar o nível de fazer a vontade do Criador, de fazer tudo a fim de doar contentamento ao seu Fazedor. O rio, o desejo de receber, respondeu que o Criador o criou com essa natureza de querer receber deleite e prazer. E, portanto, ele não quer mudar a natureza com que o Criador o criou.

 

O Rabino Pinchás ben Yair travou guerra contra ele, pois queria invertê-lo para um desejo de doar. Isso é considerado travar guerra contra a criação que o Criador criou na natureza, chamada “desejo de receber” – criado pelo Criador, que é o todo da criação, chamado “existência a partir da ausência”.

 

Devemos saber que, durante o trabalho, quando o desejo de receber chega para uma pessoa com seus argumentos, nenhum argumento ou racionalização vai ajudar. Apesar de a pessoa pensar que são apenas argumentos, isso não a ajudará a derrotar o seu mal.

 

Ao invés disso, como está escrito, “Ele escondeu seus dentes”. Isso significa avançar apenas por meio de ações, e não por argumentos. É considerado que o indivíduo deve adicionar poderes coercitivamente. Esse é o significado do que os nossos sábios disseram: “Ele é coagido até que diga ‘eu quero’”. Em outras palavras, pela persistência, o hábito se torna uma segunda natureza.

 

O indivíduo deve tentar, especialmente, ter um forte desejo por obter o desejo de doar e por superar o desejo de receber. Um forte desejo é medido pelo incremento dos descansos intermediários e das pausas, ou seja, dos intervalos de tempo entre cada superação.

 

Às vezes, o indivíduo recebe uma interrupção no meio, um descenso. Esse descenso pode ser uma interrupção por um minuto, uma hora, um dia ou um mês. Depois, ele retoma o trabalho de superar o desejo de receber e as tentativas de alcançar o desejo de doar. Um forte desejo significa que a interrupção não dura muito tempo e ele é imediatamente despertado de novo para o trabalho.

 

É como uma pessoa que quer quebrar uma grande pedra. Ela pega um grande martelo e bate muitas vezes, o dia inteiro, mas de forma leve. Em outras palavras, ela não martela a pedra com um só golpe, mas baixa o grande martelo lentamente e sem força. Depois, a pessoa reclama que o trabalho de quebrar a pedra não é para ela, que só um homem muito forte para ser capaz de quebrar essa grande rocha. A pessoa diz que não nasceu com poderes tamanhos para ser capaz de quebrar a pedra.

 

No entanto, se o indivíduo levanta o seu martelo e atinge a pedra com um grande golpe – não lentamente, mas com um grande esforço –, a pedra imediatamente se rende a ele e quebra. Esse é o significado de “como um forte martelo que esmaga a pedra”.

 

Da mesma forma, no trabalho sagrado de levar os vasos de recepção à Kedushá [santidade], temos um forte martelo – as palavras da Torá, que nos dão bons conselhos. Porém, se o trabalho não é consistente, se há longos intervalos no meio, o indivíduo escapa da jornada e diz que não feito para isso, que esse trabalho requer alguém nascido com habilidades especiais. Mesmo assim, o indivíduo deveria acreditar que qualquer um pode atingir o objetivo, e deveria sempre tentar aumentar seus esforços para superar, pois então ele pode quebrar a pedra em pouco tempo.

 

Também devemos saber que há uma condição rigorosa para o esforço de fazer contato com o Criador: o esforço deve ser na forma de ornamento. O ornamento simboliza algo que é importante para uma pessoa. A pessoa não pode trabalhar com alegria se o trabalho não lhe é importante. Portanto, a pessoa deve se regozijar por ter agora contato com o Criador.

 

Essa questão é representada pelo Etrog (cidra). Sobre isso, está escrito que é “uma fruta de árvore cítrica”(em hebraico, cítrico é Hadar, proveniente de Hidur, que é beleza). Está escrito que o Etrog deveria estar limpo “acima do seu nariz”. É sabido que há aqui três distinções: a) ornamento, b) perfume, c) sabor.

 

O sabor significa que as Luzes são derramadas de cima para baixo, abaixo do [boca], onde há o palato e o sabor. Isso significa que as Luzes vêm em vasos de recepção.

 

O perfume significa que as Luzes vêm de baixo para cima. Isso significa que as Luzes vêm em vasos de doação, na forma de receber e não de doar abaixo do palato e da garganta. Isso é discernido como “e ele sentirá o cheiro do temor ao Criador”, dito sobre o Messias. É sabido que o perfume é atribuído ao nariz.

 

O ornamento implica beleza e formosura, distinguida como acima do nariz do indivíduo, sem cheiro. Significa que não há sabor ou cheio ali. Portanto, o que há ali para que o indivíduo possa suportar? Há apenas o ornamento nele, e é isso o que o sustenta.

 

Sobre o Etrog, vemos que o ornamento se coloca nele precisamente antes que esteja adequado para comer. Contudo, quando está pronto para comer, o ornamento não está mais lá.

 

Isto se refere ao “trabalho de primeiro contar as iniquidades”. Significa precisamente que, quando o indivíduo trabalha sob a forma de “tomarás”, que é o trabalho durante a aceitação do fardo do Reino dos Céus, e que é quando o corpo resiste, justamente aí há espaço para a alegria do ornamento.

 

Isto significa que o ornamento se faz visível durante o trabalho. Ou seja, se há alegria a partir do trabalho é porque o indivíduo considera esse trabalho um ornamento e não uma vergonha.

 

Em outras palavras, às vezes o indivíduo despreza o trabalho de assumir o fardo do Reino dos Céus, o qual é um tempo de uma sensação de escuridão. É quando ele vê que ninguém além do Criador pode salvá-lo do estado em que está. Então, ele assume para si o Reino dos Céus acima da razão, como um boi aceita o fardo e como um burro aceita a carga.

 

O indivíduo deveria se alegrar, pois agora tem algo a dar para o Criador, e o Criador aprecia isso. Mas nem sempre a pessoa tem a força para dizer que esse é um trabalho belo, chamado de “ornamento”, e assim despreza o trabalho.

 

É uma condição pesada a pessoa se habilitar a dizer que escolhe esse trabalho acima do trabalho de purificação, significando que ela não sente o gosto da escuridão durante o trabalho, mas, de repente, a pessoa sente sim o sabor do trabalho. Significa, então, que o indivíduo não precisa trabalhar com o desejo de receber para concordar em assumir o Reino dos Céus acima da razão.

 

Se ele supera a si mesmo e pode dizer que esse trabalho é prazeroso, pois agora ele observa a Mitz[mandamento] da fé acima da razão e aceita esse trabalho como beleza e ornamento, então isso é chamado “uma alegria da Mitzvá”.

 

Esse é o significado de a oração ser mais importante que a resposta à oração, pois na oração há um lugar para o trabalho e a pessoa que necessita do Criador aguarda a misericórdia dos céus. Nesse momento, o indivíduo tem um verdadeiro contato com o Criador e está no Palácio do Rei. No entanto, quando a oração é atendida, o indivíduo já deixou o Palácio do Rei, pois já recebeu o que havia pedido e então saiu.

 

Portanto, devemos entender o verso: “Seus óleos têm uma boa fragrância; seu nome é como óleo derramado.” Óleo é chamado de “a Luz Superior” quando flui. “Derramado” significa durante a cessação da abundância. Nesse momento, o perfume do óleo permanece. (Perfume significa que, apesar de tudo, um Reshimo [reminiscência] do que ele teve permanece. Ornamento, no entanto, é chamado assim em um lugar onde não há nenhuma firmeza, onde nem o Reshimo brilha.)

 

Esse é o significado de Atik e AA. Durante a expansão, a abundância é chamada AA, que é Chochmá [sabedoria], e significa Providência Aberta. Atik vem da palavra [hebraica] VaYe’atek [separação], e significa a saída da Luz. Em outras palavras, Atik não brilha e isso é chamado “ocultação”.

 

Esse é o momento da rejeição às vestimentas, o qual é o tempo da recepção da coroa do Rei, considerada Malchut [reino] das Luzes, o Reino dos Céus.

 

Sobre isso está escrito no Zohar: “A Shechiná [Divindade] disse ao Rabino Shimon, ‘não há lugar para se esconder de você’ (ou seja, não há lugar onde Eu possa Me esconder de você)”. Isso significa que mesmo na maior ocultação, na verdade, ele ainda toma para si o fardo do Reino dos Céus com grande alegria.

 

A razão para isso é que ele segue uma linha de desejo de doar e, portanto, doa o que tem nas mãos. Se o Criador lhe dá mais, ele doa mais. E se ele não tem nada para doar, coloca-se em pé e chora como uma garça para que o Criador lhe salve da água maligna. Por isso, dessa maneira, também, ele tem contato com o Criador.

 

A razão para esse discernimento ser chamado Atik, já que Atik é o nível mais elevado, é que o quanto mais longe se está da vestimenta, mais alto se está. O indivíduo pode sentir mesmo na coisa mais abstrata, chamada “o zero absoluto”, pois lá a mão do homem não alcança.

 

Isso significa que o desejo de receber pode agarrar apenas em um lugar onde há alguma expansão da Luz. Antes de purificar os seus Kelim [vasos] para não manchar a Luz, o indivíduo é incapaz de receber a Luz na forma de expansão dos Kelim. Apenas quando o indivíduo marcha no caminho da doação, em um local onde o desejo de receber não está presente, seja na mente ou no coração, ali a Luz pode vir em perfeição absoluta. Então, ele recebe a Luz numa sensação em que ele pode sentir a exaltação da Luz Superior.

 

No entanto, quando o indivíduo não corrigiu os Kelim para trabalhar a fim de doar, a Luz deve ser restrita quando se expande e só deve brilhar de acordo com a pureza dos Kelim. Assim, nesse momento, a Luz parece estar em absoluta pequenez. Portanto, quando a Luz é abstraída das vestimentas dos Kelim, a Luz pode brilhar em absoluta perfeição e clareza, sem quaisquer restrições pelo bem do inferior.

 

Portanto, a importância do trabalho ocorre precisamente quando o indivíduo chega a um estado de zero, quando ele vê que anula toda a sua existência e o seu ser, pois então o desejo de receber não tem nenhum poder. Apenas então o indivíduo entra na Kedushá.

 

Devemos saber que “Deus criou um oposto ao outro”. Isso significa que tanto quanto há revelação na Kedushá, nesta mesma medida a Sitra Achra [outro lado] desperta. Em outras palavras, quando o indivíduo reivindica “é tudo meu”, no sentido de que o seu corpo inteiro pertence à Kedushá, também a Sitra Achra argumenta contra ele, dizendo que o seu corpo inteiro deveria servir à Sitra Achra.

 

 

Assim, o indivíduo deve saber que quando o seu corpo afirma pertencer à Sitra Achra e clama com toda sua força as famosas perguntas de “Quem?” e “O Quê?”, é um sinal de que o indivíduo está andando no caminho da verdade e que a sua única intenção é levar contentamento ao seu Fazedor. Portanto, o trabalho primário se dá precisamente nesse estado.

 

O indivíduo deve saber que isso é um sinal de que seu trabalho atinge o alvo. O sinal é que ele luta e envia suas flechas à cabeça da serpente, pois ela grita e argumenta com “O Quê?” e “Quem?” – ou seja, “O que é esse trabalho para você?”, O que você vai ganhar por trabalhar apenas para o Criador e não para si mesmo? E o argumento de “Quem” significa a reclamação do Faraó, que disse: “Quem é o Senhor para que eu obedeça à Sua voz?”.

 

O argumento de “Quem” parece ser racional. Normalmente, quando uma pessoa recebe ordens de trabalhar para alguém, ela pergunta “Para quem?”. Assim, quando o corpo reclama “Quem é o Senhor para que eu obedeça à Sua voz?”, este é um argumento racional.

 

Contudo, de acordo com a regra de que o intelecto não é um objeto em si, mas um espelho do que se encontra nos sentidos, assim se parece na mente. Isso é o significado de “Os filhos de Dan: Hushim”. Ou seja, a mente julga apenas de acordo com o que os sentidos lhe permitem escrutinizar, e imagina algumas invenções e táticas para se adequar às demandas dos sentidos.

 

Em outras palavras, o que os sentidos demandam a mente tenta prover. No entanto, a mente em si não tem necessidades para si mesma. Assim, se há demanda por doação nos sentidos, a mente opera de acordo com a linha da doação e não faz perguntas, pois está meramente servindo aos sentidos.

 

A mente é como uma pessoa que se olha no espelho para ver se está suja. E em todos os lugares em que o espelho mostra que está suja, a pessoa se lava e se limpa, pois o espelho mostrou-lhe que há coisas feias a serem limpas no seu rosto.

 

No entanto, o mais difícil é saber o que é considerado feio. É o desejo de receber, a demanda do corpo para que tudo seja para ele mesmo, ou a coisa feia é o desejo de doar, o qual o corpo não tolera? A mente não pode escrutinizar isso, assim como o espelho não pode dizer o que é feio e o que é bonito; em vez disso, tudo depende dos sentidos, e apenas os sentidos determinam isso.

 

Dessa forma, quando o indivíduo se acostumar a trabalhar coercitivamente, a trabalhar na doação, a mente também operará pelas linhas da doação. Nesse momento, quando os sentidos já se acostumaram ao trabalho na doação, é impossível que a mente faça a pergunta “Quem?”.

 

Em outras palavras, os sentidos não perguntam mais: “O que é esse trabalho?”, pois eles já estão trabalhando a fim de doar e, naturalmente, a mente não faz a pergunta “Quem?”.

 

Você percebe que o trabalho primário está em “O que é esse trabalho para você?”. E o que o indivíduo ouve quando o corpo pergunta “Quem?” é porque o corpo não quer se degradar tanto. É por isso que ele faz a pergunta “Quem?”. Ele parece estar fazendo uma pergunta racional, mas a verdade é que, como dissemos acima, o trabalho primário está em “O Quê?”.

 

quarta-feira, 27 de abril de 2022

A Experiência Cabalística (5)

 

LIBERDADE DE ESCOLHA

 

Pergunta

 

Uma pessoa que se tornou cabalista tem pelo menos a

liberdade de escolha?

 

Michael Laitman: Só há duas situações possíveis para nós:

 

1. Rendermo-nos à nossa natureza. Podemos pensar que neste caso apenas ficamos em paz conosco mesmos. No entanto, assim que começarmos a sentir o Mundo Superior, ou seja, alguma coisa espiritual fora de nós, descobriremos que nosso egoísmo não é nós, mas um corpo estranho que nos penetrou e nos força a servi-lo. Descobriremos então que não temos liberdade de escolha em um estado tal.

 

2. A outra situação é obedecer à natureza do Criador. Podemos pensar que esta situação implica na perda de nossa liberdade, mas o que realmente acontece é que o cabalista sai de sua própria natureza e se torna neutro em relação ao único fator que ordinariamente o controla completamente e sem cessar. Apenas então ele pode assumir os atributos do Criador, e ativar seu próprio Livre Arbítrio.

segunda-feira, 25 de abril de 2022

A Experiência Cabalística (4)

 

 

O PAPEL DO PROFESSOR

 

Pergunta

 

Eu sinto minha própria insignificância comparada à elevação do professor, mas é assim que eu deveria me sentir com relação ao Criador, já que não posso senti-Lo de maneira alguma. O que devo fazer?

 

Michel Laitman: O professor só existe para voltar a sua atenção para o Criador. É natural que você ainda não tenha contato com o Criador e que sua atenção esteja concentrada no professor, mas esta situação gradualmente passará.

 

Logo você descobrirá um egoísmo novo e crescente dentro de si. Então, você começará a criticar seu professor e a encontrar mais e mais falhas nele. Eu mesmo passei por um processo similar com o meu professor, o Rabash.

 

Este processo é guiado pelo Alto para que você possa examinar se você está agindo a partir do egoísmo, ou somente pelo bem da doação. Mas quando você encontrar sensações espirituais, vai precisar do seu professor mais e mais. Apenas então vocês trabalharão juntos, como uma criança e um adulto fazem em nosso mundo.

 

De fato, tudo o que nós sentimos no processo da correção é crucial para nós, especialmente perto do Gmar Tikun, o final da correção. Qualquer sensação, boa ou ruim, pode ser aceita de um jeito diferente, mas nós devemos sempre entender que qualquer sensação é um resultado necessário do nosso caminho.

Nós devemos sentir o que sentimos e lembrar disso (sem estendê-lo mais do que o necessário para compreendê-lo), e então seguir em frente. No começo de todo ato e pensamento deve existir uma intenção: “Existe o propósito da criação e eu quero alcançá-lo porque ele é o contato e a equalização com o Criador. Ele é a razão de eu fazer o que faço (dormir, comer, beber, trabalhar e outras ações)”. Então o professor não irá substituir o Criador, mas se tornará seu guia.

 

Pergunta

 

Discordar do professor indica falta de respeito?

 

Michael Laitman: Absolutamente não! Você sempre pode expressar discordância. No entanto, eu não posso tolerar objeções que se originam da lógica terrena de um estudante que não lê os textos. Leia e objete, fique furioso e encontre.

 

A ATITUDE DE UM DISCÍPULO PARA COM O SEU PROFESSOR

 

Pergunta

 

Em uma de suas gravações, eu ouvi que há momentos em que o estudante pode odiar seu professor. Como pode ser? Neste momento, eu sinto sua bondade e seu desejo de ajudar. Por que isso deveria mudar?

 

Michael Laitman: De modo geral, a atitude de um discípulo para com o seu professor é idêntica à relação do discípulo com o Criador. Quando o discípulo não sente o Criador e Seu Domínio completamente, os desafios (julgamentos, sensações desagradáveis, perturbações, conflitos a respeito do caminho e desapontamentos constantes) que vem do Alto levam a pessoa a reclamar para o professor. O indivíduo realmente pensa que o professor é a fonte dessas provações. De fato, ele fica tão bravo com o professor que acredita que a morte dele ou seu desaparecimento acabaria com todas as sensações ruins, com o vazio e com os obstáculos no caminho para o Criador. Você aprenderá o resto por si mesmo enquanto continuar no caminho.

 

Pergunta

 

Você escreveu: “Logo você começará a descobrir um egoísmo crescente em você. Vai começar a criticar o seu professor e a ver mais e mais falhas nele...”. Se este é o caso, como um estudante deve trabalhar com o próprio ego com o objetivo de passar por esta fase tão rapidamente quanto possível?

 

Michael Laitman: Tudo é predeterminado para nós. Dentro de nós estão todas as Reshimot (reminiscências), as instruções para nossa ascensão gradual, do nosso mundo para o propósito da criação. Essas Reshimot são como uma espiral contraída dentro de nós, que se abre progressivamente. A cada momento sentimos um certo desejo, que é uma expressão da Reshimot que está emergindo. Quando entramos no grupo correto, no ambiente correto e lemos os livros corretos, aumentamos a influência da Luz Superior em nós mesmos. Esta Luz ilumina a espiral de Reshimot, desta forma acelerando as suas aparições em nós. Sempre descobrimos a Reshimot mais fraca dentre as que podemos perceber. Nosso livre-arbítrio está apenas em nossa escolha do ambiente. Tudo que podemos fazer é acelerar nosso progresso. Isto só é possível com a influência de um ambiente apropriado. Em outras palavras, somos livres para escolher entre acelerar o processo ou não. Se você ouve às pessoas que se opõem à Kabbalah, e é incitado a se afastar do professor e do grupo, você ainda assim alcançará o propósito, mas muito mais tarde. Baal HaSulam (Rav Yehuda Ashlag) escreveu em seu ensaio “A Liberdade”, que apenas ao escolhermos nosso ambiente (livros, amigos e professor) nós expressamos nossa liberdade em escolher nosso caminho.


Quanto mais correta for a escolha do fator ambiente, maior será a aceleração das correções de alma. Na verdade, podemos fazer a jornada durar apenas alguns anos ao invés de centenas de anos. Isto não é exagero.

 

Com relação à anulação diante do professor... Quando disseram a Baal HaSulam que, diferente de outros grandes professores, seus discípulos não tinham nem uma gota de medo dele, ele respondeu: “Eles estariam melhor temendo o Criador e não a mim”. E quando lhe disseram que ele tinha apenas cinco ou seis discípulos depois de décadas de trabalho, ele respondeu: “O Criador não tem nem mesmo esse tanto”.

 

Você não pode dirigir seus pensamentos e desejos por si mesmo, da maneira que acha melhor. A direção deles deriva da sua situação interna, e é ditada pela Reshimo que está sendo ativada no momento, o que deixa a sensação e a experiência da sua situação atual.

 

Olhe para si mesmo de fora – vale a pena se examinar e lembrar como de você era um mês atrás, ou há cinco anos, e começar a dialogar com suas imagens passadas e presentes. Isto ajuda a entender melhor as mudanças que acontecem em você. Ajuda você a se referir a si mesmo como um fator de emoções cambiantes, e não como um indivíduo que pensa e sente independentemente.

 

Você tem que se examinar de fora e ver o que o Criador faz com você. Siga Seu Trabalho – este é o exato significado das palavras: “Avodat Hashem”, o “Trabalho de Deus”. Ou seja, o Seu Trabalho em você.

 

terça-feira, 19 de abril de 2022

A Experiência Cabalística (3)

  

Pergunta

O que é a conexão entre o Rav e seu grupo de discípulos?

  

Michel Laitman: Um grupo é um termo espiritual que está sempre ligado a um Rav. Nós todos decidimos que queremos, até certo nível, nos unir ao Criador. Aquele pequeno desejo de cada um e de todos nós se une para formar um desejo coletivo, e isto é chamado de “um grupo”. Não importa se um de nós está impregnado com esta ideia neste exato minuto porque nós constantemente mudamos interiormente. Se esta decisão foi tomada uma vez, ela existe para sempre, porque nada é perdido no mundo espiritual. Nós 

podemos subir ou cair com relação à nossa decisão, mas a decisão em si 

mesma permanece intacta.

 

Um grupo é como uma parceria. Você pode cair e não ter nada da situação espiritual anterior, mas o grupo continuará a existir, e assim também sua parte nele, a despeito de seu estado presente.

 

Se alguém deixa espaço para outro, então o grupo existe em um reino espiritual. Você investiu suas aspirações, sua força e seu objetivo no grupo, mas como será capaz de receber ajuda do grupo quando precisar?

 

Você só receberá ajuda se for capaz de anular seu ego e se submeter à opinião do grupo em tudo: o objetivo, a ideia, a maneira de alcançar a ideia, em todos os valores e ordem de importância.

 

Apenas então você fará sua marca no grupo e se tornará como ele, como se você o tivesse criado.

 

Rav Yehuda Aslag escreve sobre isso em seu artigo “Um discurso para a conclusão do Zohar”. Ele diz: “Com efeito, o entendimento suficiente de Sua Exaltação, que é suficiente para transformar a doação em recepção, como foi mencionado acima com respeito à importante personalidade, não é de modo algum difícil, pois todos conhecem a grandeza do Criador que cria tudo e finaliza tudo sem começo ou sem fim, cuja sublimidade é infinita”.

 

Mas a dificuldade está no fato de que o valor da sublimidade não depende do indivíduo, mas do ambiente. Por exemplo: mesmo se estivermos cheios de boas qualidades, se nosso ambiente não nos considera assim, sempre permaneceremos desanimados e não seremos capazes de ter orgulho de nossas virtudes, embora estejamos bem conscientes da sua validade.

E, ao contrário, se não possuímos qualidades boas e somos apreciados por aqueles ao nosso redor como se tivéssemos muitas e excelentes qualidades, nós ficaríamos cheios de orgulho, já que a importância e a glorificação estão inteiramente nas mãos do ambiente.

 

E quando vemos que nosso ambiente insulta o Seu trabalho e não aprecia Sua grandeza, nós também nos tornamos incapazes de alcançar a Sua grandeza, e insultamos Sua adoração como fazem os demais.

 

E uma vez que não temos base para o entendimento de Sua grandeza, é óbvio que nós não seremos capazes de trabalhar com o propósito de trazer contentamento ao nosso Fazedor, ao invés de para nós mesmos. Isto porque não temos o combustível para o esforço, e para “você trabalhou e não encontrou, não acredite”.

 

Portanto, não temos escolha a não ser trabalhar para nós mesmos, ou não trabalhar de forma alguma, já que trazer contentamento para nosso Fazedor não servirá como combustível para nós sob essas condições.

 

Agora você pode entender as palavras “na multidão de pessoas está a glória do Rei”, já que o valor da glória vem do ambiente sob duas condições:

 

1. Apreciação do ambiente.

 

2. O tamanho do ambiente.

 

Por isso, “na multidão de pessoas está a glória do Rei”.

 

E devido à grande dificuldade neste assunto, nossos sábios nos aconselharam a “fazer para si um Rav e comprar para si um amigo”. Isto significa que nós devemos escolher por nós mesmos uma pessoa importante e famosa e fazer dela nosso Rav, através do que podemos chegar à prática da Torá e Mitzvot com o propósito de trazer contentamento ao nosso Fazedor.

 

Aqui, há duas servidões ao nosso Rav:

 

1. Uma vez que pensamos que nosso Rav é uma personalidade importante, podemos trazer contentamento a ele, baseado em sua grandeza. Isto porque a doação ainda não foi transformada em recepção, a qual é um combustível natural que pode produzir mais atos de doação a cada vez. E depois que nos acostumamos a doar a nosso Rav, podemos transferir esta doação à prática da Torá e Mitzvot em nome Dela, ou seja, para o Criador, pois o hábito terá se tornado uma segunda natureza em nós.

 

2. A equivalência de forma com o Criador não nos faz bem algum se não é eterna, ou seja, até que “Ele que conhece todos os mistérios irá testemunhar que ele não voltará à insensatez”. Mas, dado que nosso Rav está neste mundo e sem os limites do tempo, a equivalência de forma ajuda mesmo quando ela é temporária e mesmo que mais tarde nós retornemos à insensatez. Portanto, toda vez que equalizamos nossa forma com nosso Rav, nós temporariamente nos unimos a ele. Assim, nós recebemos seu conhecimento e seus pensamentos, dependendo do entendimento dele, como nós mostramos na parábola sobre o órgão que foi cortado do corpo e então colocado de volta.

 

Assim, o discípulo pode usar o entendimento da grandeza do Criador, que é do Rav, o qual transforma doação em recepção e produz combustível suficiente para grande devoção. Então o discípulo também será capaz de praticar Torá e Mitzvot em Seu nome com seu coração e alma, o que é o remédio para o entendimento da eterna adesão com o Criador.

 

Agora você pode entender o que nossos sábios disseram: “A prática da Torá é preferível ao estudo da Torá”. Como está escrito, “Elisha, o filho de Shaphat, está aqui, o qual derramou água nas mãos de Elijah”.

 

Ele não diz “aprendeu”, mas “derramou”. Isto parece um tanto absurdo, pois como podem simples atos serem maiores do que o estudo da sabedoria e do conhecimento?

 

No entanto, o texto acima deixa claro que servir o Rav em carne e osso com grande devoção para trazer a ele contentamento nos traz adesão com nosso Rav, ou seja, equivalência de forma. E assim nós recebemos a sabedoria e os pensamentos de nosso professor, “boca a boca”, que é a adesão de um espírito com outro.

 

Desta forma, nós alcançamos nossa própria grandeza em grau suficiente para transformar doação em recepção, que se torna o combustível suficiente para a devoção completa, até que nós alcancemos adesão com o Criador.

 

Porque estudar a Torá com nosso Rav deve ser para nós mesmos, e isto não induz à adesão e é considerado “boca a ouvido”. E o serviço ao Rav induz no discípulo os pensamentos do Rav, enquanto que o estudo é apenas as palavras do Rav. O serviço é melhor que o estudo, assim como o pensamento do Rav é maior que suas palavras, e “boca a boca” supera “boca a ouvido”.

 

Mas tudo isso é verdadeiro se o serviço tem o propósito de trazer contentamento para o Rav. Se, no entanto, o serviço é para si mesmo, tal serviço não pode nos levar à adesão com nosso Rav, e então estudar com nosso Rav é mais importante do que servi-lo.

 

Mas assim como falamos sobre o entendimento de Sua Grandeza (que o ambiente que não O considera grandioso nos enfraquece e nos impede de alcançar Sua Grandeza), isto certamente também é verdade com relação a nosso professor: o ambiente que não considera o Rav grandioso impede que o discípulo alcance a grandeza de seu Rav, como deveria.

 

Por isso nossos sábios disseram: “Faz para si um Rav e compra para si um amigo”. Isto significa que nós devemos fazer para nós mesmos um novo ambiente que nos ajude a alcançar a grandeza de nosso Rav, através do amor dos amigos que valorizam nosso Rav.

 

Isto porque as palavras dos amigos que louvam o Rav dão a cada um deles a sensação de sua grandeza. Assim, doar ao Rav se torna recepção e um combustível que é suficiente para nos levar a estudar a Torá e Mitzvot em nome Dela.

 

E está escrito a respeito disso que a Torá é obtida em 48 virtudes, e no serviço e na necessidade de nossos amigos. Pois, além de servir ao Rav, nós também precisamos da necessidade dos nossos amigos, ou seja, da influência deles para trabalhar em nós mesmos a fim de alcançar a grandeza do nosso Rav, já que o entendimento da grandeza depende exclusivamente do ambiente e uma pessoa sozinha não pode de maneira alguma ter qualquer influência nele, como explicamos acima.

 

Assim, há duas condições para o entendimento da grandeza:

 

1. Que nós sempre escutemos e aceitemos a apreciação do ambiente quando eles louvam o Criador.

 

2. Que o ambiente consistirá de muitas pessoas, como está escrito: “Na multidão de pessoas está a glória do Rei”.


Para que a primeira condição seja aceita, cada discípulo deve sentir que ele é o menos poderoso entre todos os amigos. Então, o discípulo será capaz de ser influenciado pela apreciação de todos pela grandeza, pois o grande não pode receber do pequeno, muito menos ser impressionado por suas palavras. Apenas o pequeno se impressiona com a apreciação do grande.

Para que a segunda condição seja aceita, todo discípulo deve avaliar a virtude de cada amigo e apreciar aquela pessoa como se ela fosse a maior da geração. Então o ambiente terá o impacto que um grande ambiente deve ter, pois a qualidade é mais importante que a quantidade.

segunda-feira, 18 de abril de 2022

A Experiência Cabalística (2)

 

Pergunta

Quão importante é escolher seu professor na Cabalá?

 

Michael Laitman: Esta é uma pergunta de rotina que eu escuto frequentemente.

 

“Como você irá provar para mim que é o professor que eu preciso?”

 

Esta é uma pergunta muito boa e justa. É a sua vida, ela foi dada

a você apenas uma vez e você quer aproveitá-la da melhor forma

possível. Mas não há nada que eu possa dizer a você. Como posso provar que 

sou melhor do que qualquer outra pessoa? A Kabbalah tem uma resposta 

muito simples: deve-se estudar onde o coração desejar, onde se tenha um 

sentimento de pertencimento. Não é um lugar ao qual você está sendo 

persuadido a pensar que é o seu lugar ou para o qual está sendo pressionado.

 

Quando você se separa das persuasões, de qualquer coisa externa, da sua 

educação e de tudo que você ouviu a sua vida inteira, e sente em seu coração 

que aquele lugar é o seu, então você deve permanecer.

 

Este é o único teste!

domingo, 17 de abril de 2022

A Experiência Cabalística (1)


Pergunta

Quando tempo dura um curso de Kabbalah?

 

Michel Laitman: A Sabedoria da Kabbalah é uma ciência e um modo de vida que nos habilita a viver corretamente. Quanto tempo leva para aprender como viver corretamente? Isto depende da alma. Mas quando começamos a estudar, logo sentimos que não podemos mais continuar sem este estudo porque a vida sem ele é tão estranha e estreita que, sem conectá-la ao Mundo Superior, à alma, e à eternidade, a vida perde seu significado.

 

Quando começamos a nos sentir dessa maneira, não é mais possível separar-

nos da Kabbalah e permanecer confinados em nosso mundo.

terça-feira, 12 de abril de 2022

Hillulot (13)

 

Rabi Moshe Ben Nachman (Nachmanides)

Comentador, Talmudista, Cabalista

11 de Nissan

 

 

Mais conhecido como Ramban (as iniciais do seu nome) e como Nachmanides (que, em Grego, significa “filho de Nachman”). Halachista, comentador, filósofo.

 

A alma de Ramban era de um alto nível, no Sha’ar HaGilgulim (Hakdama 36), o Rabi Yitzchak Luria, afirma: “Rambam (1135-1204) é da costeleta esquerda e, portanto, ele não tinha mérito de conhecer a sabedoria do Zohar, mas o Ramban (Rabi Moshe ben Nachman) é da costeleta direita e, assim, ele tinha mérito de conhecer a sabedoria do Zohar”. O Ari também confirma a profundidade e a veracidade da porção mística do comentário do Ramban sobre a Torá, e o considera como o último da antiga escola cabalística, que recebia diretamente a transmissão dos segredos místicos que mais tarde foram ocultados.

 

Herdeiro de uma família rabínica renomada, parente de Rabi Yonah de Gerona, Ranban estudou sob a orientação de R’ Yehudah ben Yakar e R’ Natan ben Meir. Seus mentores de Kabbalah foram R’ Ezra e R’ Ezriel, ambos de Gerona. Ele também estudou medicina, a qual exercia profissionalmente, línguas e física.

 

Ramban personifica o melhor e mais nobre judeu da comunidade hispânica. Ele era reconhecido como a maior autoridade em Halachá de todo território Espanhol, e suas decisões eram respeitadas também em outros países. 

 

Em 1238, Ramban foi chamado para dar sua opinião sobre a grande controvérsia em relação às obras de Rambam. Como resposta, ele elogiou a erudição do Rabi Shlomo de Montpellier, que liderou a oposição ao Rambam, e castigou severamente a todos que insultaram o grande Talmudista pelo seu zelo. Ao mesmo tempo, Ranban também procurou acalmar a veemência dos opositores do Rambam, destacando que a Mishná Torá não mostra indulgência na interpretação da Halachá, sendo até rigorosa. E sobre o Moreh Nevuchim (Guia dos Perplexos), do Rambam, Ranban explica que ele não é destinado ao público geral, mas apenas àqueles que haviam se desviado através da filosofia. Ele também aponta que mesmo que o Moreh Nevuchim fosse desnecessário e até nocivo aos judeus da França e da Alemanha, ele era de necessidade vital às comunidades sefaraditas da Espanha, de orientação filosófica. Com base nisso, ele implorou aos defensores do banimento a revogarem-no, permitindo o estudo do Moreh Nevuchim e das sessões filosóficas do Sefer MaMada da Mishná Torá.

 

Ramban escreveu novos comentários e interpretações (chidushim) sobre grande parte do Talmude, no estilo dos Tosafistas. Suas outras obras incluem: Torat HaAdam, um compêndio de leis sobre luto, culminando com o Shaar HaGemul, um tratado que discute recompensa e castigo e a ressurreição dos mortos; Iggeret Mussar, uma epístola ética enviada ao seu filho; Sefer HaGeulah sobre a vinda do Mashiach; um comentário sobre Iyov (Jó); Mishpat HaCherem, sobre as leis de excomunhão, publicado como Kol Bo; Hilchot Bedika sobre as leis que regulam o exame dos pulmões dos animais após o sacrifício ritual; Hilchot Challah; e Hilchot Niddah (publicado juntamente com o seu chiddushim no Tratado de Niddah). São atribuídos a ele, mas sem confirmação, um tratado cabalístico HaEmunah Ve HaBitachon e Igeret HaKodesh, sobre a santidade e o significado do casamento.

 

Em 1263, o Rei James de Aragão forçou Ramban a sustentar uma disputa religiosa pública contra o judeu apóstata Pablo Christiani. Na presença do Rei James e de muitos dignatários e clérigos, Ramban destruiu seu adversário com a lógica dos seus argumentos. Por admiração, o Rei recompensou o vitorioso Ramban com um presente de 300 moedas. Os fanáticos padres dominicanos, entretanto, começaram a espalhar o boato de que seu lado havia ganho o debate. Ramban respondeu publicando, sob o título de Sefer HaVichuach, o relatório exato das questões e respostas utilizadas na disputa. Os clérigos então o acusaram de humilhar a religião católica. Ramban assumiu a acusação, mas contestou que ele havia publicado somente o que havia sido dito na disputa, sob o aval do Rei, que lhe havia garantido liberdade de expressão. Mesmo assim, o Sefer HaVichuach foi condenado a ser queimado e Ramban foi banido de Aragão.

 

Por três anos, Ramban permaneceu em Castela de Provença, onde ele começou a escrever seu monumental Comentário sobre a Torá, que é único pois ele não apenas interpreta os versos, mas também analisa os tópicos, apresentando-os sob a perspectiva da Torá. Permeado de interpretações hagádicas e cabalísticas, estão também análises cuidadosas de outros comentários, especialmente do Rambam e Ibn Ezra, a quem Ramban critica severamente pela abordagem excessivamente racional que, na sua opinião, deriva das verdadeiras interpretações Talmúdicas e cabalísticas. Ramban também discorda frequentemente das interpretações do Rashi - posteriormente, outros autores como Mizrachi e Maharal escreveram contra-argumentos defendendo o Rashi. O Comentário sobre a Torá do Ramban é estudado mundialmente e foi publicado em todas as edições do Mikraot Gedolot.

 

Em 1267, com 72 anos, Ramban decidiu se estabelecer em Eretz Yisrael. Antes de partir, deixou uma dissertação sobre o Eclesiastes, louvando a Terra Santa e o preceito da caridade. Depois de uma difícil jornada e de muito sofrimento, Ramban chegou em Acco no mês de Elul de 1267. Ele passou o Rosh HaShanah em Jerusalém, que estava em condições deploráveis como resultado da destruição causada pelos Cruzados. Ramban designou uma casa assolada como sinagoga e trouxe um rolo de Torá de Shechem. Nessa sinagoga, ele deu um drasha (sermão) sobre as leis do Shofar e exortou os habitantes de Israel que tomassem muito cuidado para que suas ações fossem justas, pois eles eram os serviçais do palácio do Rei. Com a ajuda de Ramban, a comunidade Judaica de Jerusalém, que havia praticamente deixado de existir, começou a ressurgir.

 

O próprio Ramban estabeleceu-se em Acco, um centro de Torá da época, e reuniu um círculo de alunos. Lá, ele completou seu Comentário sobre a Torá. Manteve contato estreito com sua família na Espanha, informando-lhes as condições da Terra Santa.

 

Muitos opinam que o local onde Ramban foi enterrado fica em Hebron, perto da caverna de Machpelah, Haifa, Acco ou Jerusalém. O Rivash (Rabbi Yitzchak ven Sheset Perfet) escreveu sobre ele: “Todas as suas palavras são como fagulhas de fogo, e toda a comunidade de Castela baseia-se nas suas decisões haláchicas como se fossem aquelas recebidas diretamente do Altíssimo pelo Moshe Rabeinu”.

 

Que o mérito do tzadik Rabi Moshe ben Nachman proteja a todos nós, Amém.

 

Shamati (137)

    137. Zelofeade estava coletando madeira (Ouvi em Tav - Shin - Zayin , 1946-1947)   Zelofeade estava coletando madeira. O Zohar i...