quarta-feira, 27 de abril de 2022

A Experiência Cabalística (5)

 

LIBERDADE DE ESCOLHA

 

Pergunta

 

Uma pessoa que se tornou cabalista tem pelo menos a

liberdade de escolha?

 

Michael Laitman: Só há duas situações possíveis para nós:

 

1. Rendermo-nos à nossa natureza. Podemos pensar que neste caso apenas ficamos em paz conosco mesmos. No entanto, assim que começarmos a sentir o Mundo Superior, ou seja, alguma coisa espiritual fora de nós, descobriremos que nosso egoísmo não é nós, mas um corpo estranho que nos penetrou e nos força a servi-lo. Descobriremos então que não temos liberdade de escolha em um estado tal.

 

2. A outra situação é obedecer à natureza do Criador. Podemos pensar que esta situação implica na perda de nossa liberdade, mas o que realmente acontece é que o cabalista sai de sua própria natureza e se torna neutro em relação ao único fator que ordinariamente o controla completamente e sem cessar. Apenas então ele pode assumir os atributos do Criador, e ativar seu próprio Livre Arbítrio.

segunda-feira, 25 de abril de 2022

A Experiência Cabalística (4)

 

 

O PAPEL DO PROFESSOR

 

Pergunta

 

Eu sinto minha própria insignificância comparada à elevação do professor, mas é assim que eu deveria me sentir com relação ao Criador, já que não posso senti-Lo de maneira alguma. O que devo fazer?

 

Michel Laitman: O professor só existe para voltar a sua atenção para o Criador. É natural que você ainda não tenha contato com o Criador e que sua atenção esteja concentrada no professor, mas esta situação gradualmente passará.

 

Logo você descobrirá um egoísmo novo e crescente dentro de si. Então, você começará a criticar seu professor e a encontrar mais e mais falhas nele. Eu mesmo passei por um processo similar com o meu professor, o Rabash.

 

Este processo é guiado pelo Alto para que você possa examinar se você está agindo a partir do egoísmo, ou somente pelo bem da doação. Mas quando você encontrar sensações espirituais, vai precisar do seu professor mais e mais. Apenas então vocês trabalharão juntos, como uma criança e um adulto fazem em nosso mundo.

 

De fato, tudo o que nós sentimos no processo da correção é crucial para nós, especialmente perto do Gmar Tikun, o final da correção. Qualquer sensação, boa ou ruim, pode ser aceita de um jeito diferente, mas nós devemos sempre entender que qualquer sensação é um resultado necessário do nosso caminho.

Nós devemos sentir o que sentimos e lembrar disso (sem estendê-lo mais do que o necessário para compreendê-lo), e então seguir em frente. No começo de todo ato e pensamento deve existir uma intenção: “Existe o propósito da criação e eu quero alcançá-lo porque ele é o contato e a equalização com o Criador. Ele é a razão de eu fazer o que faço (dormir, comer, beber, trabalhar e outras ações)”. Então o professor não irá substituir o Criador, mas se tornará seu guia.

 

Pergunta

 

Discordar do professor indica falta de respeito?

 

Michael Laitman: Absolutamente não! Você sempre pode expressar discordância. No entanto, eu não posso tolerar objeções que se originam da lógica terrena de um estudante que não lê os textos. Leia e objete, fique furioso e encontre.

 

A ATITUDE DE UM DISCÍPULO PARA COM O SEU PROFESSOR

 

Pergunta

 

Em uma de suas gravações, eu ouvi que há momentos em que o estudante pode odiar seu professor. Como pode ser? Neste momento, eu sinto sua bondade e seu desejo de ajudar. Por que isso deveria mudar?

 

Michael Laitman: De modo geral, a atitude de um discípulo para com o seu professor é idêntica à relação do discípulo com o Criador. Quando o discípulo não sente o Criador e Seu Domínio completamente, os desafios (julgamentos, sensações desagradáveis, perturbações, conflitos a respeito do caminho e desapontamentos constantes) que vem do Alto levam a pessoa a reclamar para o professor. O indivíduo realmente pensa que o professor é a fonte dessas provações. De fato, ele fica tão bravo com o professor que acredita que a morte dele ou seu desaparecimento acabaria com todas as sensações ruins, com o vazio e com os obstáculos no caminho para o Criador. Você aprenderá o resto por si mesmo enquanto continuar no caminho.

 

Pergunta

 

Você escreveu: “Logo você começará a descobrir um egoísmo crescente em você. Vai começar a criticar o seu professor e a ver mais e mais falhas nele...”. Se este é o caso, como um estudante deve trabalhar com o próprio ego com o objetivo de passar por esta fase tão rapidamente quanto possível?

 

Michael Laitman: Tudo é predeterminado para nós. Dentro de nós estão todas as Reshimot (reminiscências), as instruções para nossa ascensão gradual, do nosso mundo para o propósito da criação. Essas Reshimot são como uma espiral contraída dentro de nós, que se abre progressivamente. A cada momento sentimos um certo desejo, que é uma expressão da Reshimot que está emergindo. Quando entramos no grupo correto, no ambiente correto e lemos os livros corretos, aumentamos a influência da Luz Superior em nós mesmos. Esta Luz ilumina a espiral de Reshimot, desta forma acelerando as suas aparições em nós. Sempre descobrimos a Reshimot mais fraca dentre as que podemos perceber. Nosso livre-arbítrio está apenas em nossa escolha do ambiente. Tudo que podemos fazer é acelerar nosso progresso. Isto só é possível com a influência de um ambiente apropriado. Em outras palavras, somos livres para escolher entre acelerar o processo ou não. Se você ouve às pessoas que se opõem à Kabbalah, e é incitado a se afastar do professor e do grupo, você ainda assim alcançará o propósito, mas muito mais tarde. Baal HaSulam (Rav Yehuda Ashlag) escreveu em seu ensaio “A Liberdade”, que apenas ao escolhermos nosso ambiente (livros, amigos e professor) nós expressamos nossa liberdade em escolher nosso caminho.


Quanto mais correta for a escolha do fator ambiente, maior será a aceleração das correções de alma. Na verdade, podemos fazer a jornada durar apenas alguns anos ao invés de centenas de anos. Isto não é exagero.

 

Com relação à anulação diante do professor... Quando disseram a Baal HaSulam que, diferente de outros grandes professores, seus discípulos não tinham nem uma gota de medo dele, ele respondeu: “Eles estariam melhor temendo o Criador e não a mim”. E quando lhe disseram que ele tinha apenas cinco ou seis discípulos depois de décadas de trabalho, ele respondeu: “O Criador não tem nem mesmo esse tanto”.

 

Você não pode dirigir seus pensamentos e desejos por si mesmo, da maneira que acha melhor. A direção deles deriva da sua situação interna, e é ditada pela Reshimo que está sendo ativada no momento, o que deixa a sensação e a experiência da sua situação atual.

 

Olhe para si mesmo de fora – vale a pena se examinar e lembrar como de você era um mês atrás, ou há cinco anos, e começar a dialogar com suas imagens passadas e presentes. Isto ajuda a entender melhor as mudanças que acontecem em você. Ajuda você a se referir a si mesmo como um fator de emoções cambiantes, e não como um indivíduo que pensa e sente independentemente.

 

Você tem que se examinar de fora e ver o que o Criador faz com você. Siga Seu Trabalho – este é o exato significado das palavras: “Avodat Hashem”, o “Trabalho de Deus”. Ou seja, o Seu Trabalho em você.

 

terça-feira, 19 de abril de 2022

A Experiência Cabalística (3)

  

Pergunta

O que é a conexão entre o Rav e seu grupo de discípulos?

  

Michel Laitman: Um grupo é um termo espiritual que está sempre ligado a um Rav. Nós todos decidimos que queremos, até certo nível, nos unir ao Criador. Aquele pequeno desejo de cada um e de todos nós se une para formar um desejo coletivo, e isto é chamado de “um grupo”. Não importa se um de nós está impregnado com esta ideia neste exato minuto porque nós constantemente mudamos interiormente. Se esta decisão foi tomada uma vez, ela existe para sempre, porque nada é perdido no mundo espiritual. Nós 

podemos subir ou cair com relação à nossa decisão, mas a decisão em si 

mesma permanece intacta.

 

Um grupo é como uma parceria. Você pode cair e não ter nada da situação espiritual anterior, mas o grupo continuará a existir, e assim também sua parte nele, a despeito de seu estado presente.

 

Se alguém deixa espaço para outro, então o grupo existe em um reino espiritual. Você investiu suas aspirações, sua força e seu objetivo no grupo, mas como será capaz de receber ajuda do grupo quando precisar?

 

Você só receberá ajuda se for capaz de anular seu ego e se submeter à opinião do grupo em tudo: o objetivo, a ideia, a maneira de alcançar a ideia, em todos os valores e ordem de importância.

 

Apenas então você fará sua marca no grupo e se tornará como ele, como se você o tivesse criado.

 

Rav Yehuda Aslag escreve sobre isso em seu artigo “Um discurso para a conclusão do Zohar”. Ele diz: “Com efeito, o entendimento suficiente de Sua Exaltação, que é suficiente para transformar a doação em recepção, como foi mencionado acima com respeito à importante personalidade, não é de modo algum difícil, pois todos conhecem a grandeza do Criador que cria tudo e finaliza tudo sem começo ou sem fim, cuja sublimidade é infinita”.

 

Mas a dificuldade está no fato de que o valor da sublimidade não depende do indivíduo, mas do ambiente. Por exemplo: mesmo se estivermos cheios de boas qualidades, se nosso ambiente não nos considera assim, sempre permaneceremos desanimados e não seremos capazes de ter orgulho de nossas virtudes, embora estejamos bem conscientes da sua validade.

E, ao contrário, se não possuímos qualidades boas e somos apreciados por aqueles ao nosso redor como se tivéssemos muitas e excelentes qualidades, nós ficaríamos cheios de orgulho, já que a importância e a glorificação estão inteiramente nas mãos do ambiente.

 

E quando vemos que nosso ambiente insulta o Seu trabalho e não aprecia Sua grandeza, nós também nos tornamos incapazes de alcançar a Sua grandeza, e insultamos Sua adoração como fazem os demais.

 

E uma vez que não temos base para o entendimento de Sua grandeza, é óbvio que nós não seremos capazes de trabalhar com o propósito de trazer contentamento ao nosso Fazedor, ao invés de para nós mesmos. Isto porque não temos o combustível para o esforço, e para “você trabalhou e não encontrou, não acredite”.

 

Portanto, não temos escolha a não ser trabalhar para nós mesmos, ou não trabalhar de forma alguma, já que trazer contentamento para nosso Fazedor não servirá como combustível para nós sob essas condições.

 

Agora você pode entender as palavras “na multidão de pessoas está a glória do Rei”, já que o valor da glória vem do ambiente sob duas condições:

 

1. Apreciação do ambiente.

 

2. O tamanho do ambiente.

 

Por isso, “na multidão de pessoas está a glória do Rei”.

 

E devido à grande dificuldade neste assunto, nossos sábios nos aconselharam a “fazer para si um Rav e comprar para si um amigo”. Isto significa que nós devemos escolher por nós mesmos uma pessoa importante e famosa e fazer dela nosso Rav, através do que podemos chegar à prática da Torá e Mitzvot com o propósito de trazer contentamento ao nosso Fazedor.

 

Aqui, há duas servidões ao nosso Rav:

 

1. Uma vez que pensamos que nosso Rav é uma personalidade importante, podemos trazer contentamento a ele, baseado em sua grandeza. Isto porque a doação ainda não foi transformada em recepção, a qual é um combustível natural que pode produzir mais atos de doação a cada vez. E depois que nos acostumamos a doar a nosso Rav, podemos transferir esta doação à prática da Torá e Mitzvot em nome Dela, ou seja, para o Criador, pois o hábito terá se tornado uma segunda natureza em nós.

 

2. A equivalência de forma com o Criador não nos faz bem algum se não é eterna, ou seja, até que “Ele que conhece todos os mistérios irá testemunhar que ele não voltará à insensatez”. Mas, dado que nosso Rav está neste mundo e sem os limites do tempo, a equivalência de forma ajuda mesmo quando ela é temporária e mesmo que mais tarde nós retornemos à insensatez. Portanto, toda vez que equalizamos nossa forma com nosso Rav, nós temporariamente nos unimos a ele. Assim, nós recebemos seu conhecimento e seus pensamentos, dependendo do entendimento dele, como nós mostramos na parábola sobre o órgão que foi cortado do corpo e então colocado de volta.

 

Assim, o discípulo pode usar o entendimento da grandeza do Criador, que é do Rav, o qual transforma doação em recepção e produz combustível suficiente para grande devoção. Então o discípulo também será capaz de praticar Torá e Mitzvot em Seu nome com seu coração e alma, o que é o remédio para o entendimento da eterna adesão com o Criador.

 

Agora você pode entender o que nossos sábios disseram: “A prática da Torá é preferível ao estudo da Torá”. Como está escrito, “Elisha, o filho de Shaphat, está aqui, o qual derramou água nas mãos de Elijah”.

 

Ele não diz “aprendeu”, mas “derramou”. Isto parece um tanto absurdo, pois como podem simples atos serem maiores do que o estudo da sabedoria e do conhecimento?

 

No entanto, o texto acima deixa claro que servir o Rav em carne e osso com grande devoção para trazer a ele contentamento nos traz adesão com nosso Rav, ou seja, equivalência de forma. E assim nós recebemos a sabedoria e os pensamentos de nosso professor, “boca a boca”, que é a adesão de um espírito com outro.

 

Desta forma, nós alcançamos nossa própria grandeza em grau suficiente para transformar doação em recepção, que se torna o combustível suficiente para a devoção completa, até que nós alcancemos adesão com o Criador.

 

Porque estudar a Torá com nosso Rav deve ser para nós mesmos, e isto não induz à adesão e é considerado “boca a ouvido”. E o serviço ao Rav induz no discípulo os pensamentos do Rav, enquanto que o estudo é apenas as palavras do Rav. O serviço é melhor que o estudo, assim como o pensamento do Rav é maior que suas palavras, e “boca a boca” supera “boca a ouvido”.

 

Mas tudo isso é verdadeiro se o serviço tem o propósito de trazer contentamento para o Rav. Se, no entanto, o serviço é para si mesmo, tal serviço não pode nos levar à adesão com nosso Rav, e então estudar com nosso Rav é mais importante do que servi-lo.

 

Mas assim como falamos sobre o entendimento de Sua Grandeza (que o ambiente que não O considera grandioso nos enfraquece e nos impede de alcançar Sua Grandeza), isto certamente também é verdade com relação a nosso professor: o ambiente que não considera o Rav grandioso impede que o discípulo alcance a grandeza de seu Rav, como deveria.

 

Por isso nossos sábios disseram: “Faz para si um Rav e compra para si um amigo”. Isto significa que nós devemos fazer para nós mesmos um novo ambiente que nos ajude a alcançar a grandeza de nosso Rav, através do amor dos amigos que valorizam nosso Rav.

 

Isto porque as palavras dos amigos que louvam o Rav dão a cada um deles a sensação de sua grandeza. Assim, doar ao Rav se torna recepção e um combustível que é suficiente para nos levar a estudar a Torá e Mitzvot em nome Dela.

 

E está escrito a respeito disso que a Torá é obtida em 48 virtudes, e no serviço e na necessidade de nossos amigos. Pois, além de servir ao Rav, nós também precisamos da necessidade dos nossos amigos, ou seja, da influência deles para trabalhar em nós mesmos a fim de alcançar a grandeza do nosso Rav, já que o entendimento da grandeza depende exclusivamente do ambiente e uma pessoa sozinha não pode de maneira alguma ter qualquer influência nele, como explicamos acima.

 

Assim, há duas condições para o entendimento da grandeza:

 

1. Que nós sempre escutemos e aceitemos a apreciação do ambiente quando eles louvam o Criador.

 

2. Que o ambiente consistirá de muitas pessoas, como está escrito: “Na multidão de pessoas está a glória do Rei”.


Para que a primeira condição seja aceita, cada discípulo deve sentir que ele é o menos poderoso entre todos os amigos. Então, o discípulo será capaz de ser influenciado pela apreciação de todos pela grandeza, pois o grande não pode receber do pequeno, muito menos ser impressionado por suas palavras. Apenas o pequeno se impressiona com a apreciação do grande.

Para que a segunda condição seja aceita, todo discípulo deve avaliar a virtude de cada amigo e apreciar aquela pessoa como se ela fosse a maior da geração. Então o ambiente terá o impacto que um grande ambiente deve ter, pois a qualidade é mais importante que a quantidade.

segunda-feira, 18 de abril de 2022

A Experiência Cabalística (2)

 

Pergunta

Quão importante é escolher seu professor na Cabalá?

 

Michael Laitman: Esta é uma pergunta de rotina que eu escuto frequentemente.

 

“Como você irá provar para mim que é o professor que eu preciso?”

 

Esta é uma pergunta muito boa e justa. É a sua vida, ela foi dada

a você apenas uma vez e você quer aproveitá-la da melhor forma

possível. Mas não há nada que eu possa dizer a você. Como posso provar que 

sou melhor do que qualquer outra pessoa? A Kabbalah tem uma resposta 

muito simples: deve-se estudar onde o coração desejar, onde se tenha um 

sentimento de pertencimento. Não é um lugar ao qual você está sendo 

persuadido a pensar que é o seu lugar ou para o qual está sendo pressionado.

 

Quando você se separa das persuasões, de qualquer coisa externa, da sua 

educação e de tudo que você ouviu a sua vida inteira, e sente em seu coração 

que aquele lugar é o seu, então você deve permanecer.

 

Este é o único teste!

domingo, 17 de abril de 2022

A Experiência Cabalística (1)


Pergunta

Quando tempo dura um curso de Kabbalah?

 

Michel Laitman: A Sabedoria da Kabbalah é uma ciência e um modo de vida que nos habilita a viver corretamente. Quanto tempo leva para aprender como viver corretamente? Isto depende da alma. Mas quando começamos a estudar, logo sentimos que não podemos mais continuar sem este estudo porque a vida sem ele é tão estranha e estreita que, sem conectá-la ao Mundo Superior, à alma, e à eternidade, a vida perde seu significado.

 

Quando começamos a nos sentir dessa maneira, não é mais possível separar-

nos da Kabbalah e permanecer confinados em nosso mundo.

terça-feira, 12 de abril de 2022

Hillulot (13)

 

Rabi Moshe Ben Nachman (Nachmanides)

Comentador, Talmudista, Cabalista

11 de Nissan

 

 

Mais conhecido como Ramban (as iniciais do seu nome) e como Nachmanides (que, em Grego, significa “filho de Nachman”). Halachista, comentador, filósofo.

 

A alma de Ramban era de um alto nível, no Sha’ar HaGilgulim (Hakdama 36), o Rabi Yitzchak Luria, afirma: “Rambam (1135-1204) é da costeleta esquerda e, portanto, ele não tinha mérito de conhecer a sabedoria do Zohar, mas o Ramban (Rabi Moshe ben Nachman) é da costeleta direita e, assim, ele tinha mérito de conhecer a sabedoria do Zohar”. O Ari também confirma a profundidade e a veracidade da porção mística do comentário do Ramban sobre a Torá, e o considera como o último da antiga escola cabalística, que recebia diretamente a transmissão dos segredos místicos que mais tarde foram ocultados.

 

Herdeiro de uma família rabínica renomada, parente de Rabi Yonah de Gerona, Ranban estudou sob a orientação de R’ Yehudah ben Yakar e R’ Natan ben Meir. Seus mentores de Kabbalah foram R’ Ezra e R’ Ezriel, ambos de Gerona. Ele também estudou medicina, a qual exercia profissionalmente, línguas e física.

 

Ramban personifica o melhor e mais nobre judeu da comunidade hispânica. Ele era reconhecido como a maior autoridade em Halachá de todo território Espanhol, e suas decisões eram respeitadas também em outros países. 

 

Em 1238, Ramban foi chamado para dar sua opinião sobre a grande controvérsia em relação às obras de Rambam. Como resposta, ele elogiou a erudição do Rabi Shlomo de Montpellier, que liderou a oposição ao Rambam, e castigou severamente a todos que insultaram o grande Talmudista pelo seu zelo. Ao mesmo tempo, Ranban também procurou acalmar a veemência dos opositores do Rambam, destacando que a Mishná Torá não mostra indulgência na interpretação da Halachá, sendo até rigorosa. E sobre o Moreh Nevuchim (Guia dos Perplexos), do Rambam, Ranban explica que ele não é destinado ao público geral, mas apenas àqueles que haviam se desviado através da filosofia. Ele também aponta que mesmo que o Moreh Nevuchim fosse desnecessário e até nocivo aos judeus da França e da Alemanha, ele era de necessidade vital às comunidades sefaraditas da Espanha, de orientação filosófica. Com base nisso, ele implorou aos defensores do banimento a revogarem-no, permitindo o estudo do Moreh Nevuchim e das sessões filosóficas do Sefer MaMada da Mishná Torá.

 

Ramban escreveu novos comentários e interpretações (chidushim) sobre grande parte do Talmude, no estilo dos Tosafistas. Suas outras obras incluem: Torat HaAdam, um compêndio de leis sobre luto, culminando com o Shaar HaGemul, um tratado que discute recompensa e castigo e a ressurreição dos mortos; Iggeret Mussar, uma epístola ética enviada ao seu filho; Sefer HaGeulah sobre a vinda do Mashiach; um comentário sobre Iyov (Jó); Mishpat HaCherem, sobre as leis de excomunhão, publicado como Kol Bo; Hilchot Bedika sobre as leis que regulam o exame dos pulmões dos animais após o sacrifício ritual; Hilchot Challah; e Hilchot Niddah (publicado juntamente com o seu chiddushim no Tratado de Niddah). São atribuídos a ele, mas sem confirmação, um tratado cabalístico HaEmunah Ve HaBitachon e Igeret HaKodesh, sobre a santidade e o significado do casamento.

 

Em 1263, o Rei James de Aragão forçou Ramban a sustentar uma disputa religiosa pública contra o judeu apóstata Pablo Christiani. Na presença do Rei James e de muitos dignatários e clérigos, Ramban destruiu seu adversário com a lógica dos seus argumentos. Por admiração, o Rei recompensou o vitorioso Ramban com um presente de 300 moedas. Os fanáticos padres dominicanos, entretanto, começaram a espalhar o boato de que seu lado havia ganho o debate. Ramban respondeu publicando, sob o título de Sefer HaVichuach, o relatório exato das questões e respostas utilizadas na disputa. Os clérigos então o acusaram de humilhar a religião católica. Ramban assumiu a acusação, mas contestou que ele havia publicado somente o que havia sido dito na disputa, sob o aval do Rei, que lhe havia garantido liberdade de expressão. Mesmo assim, o Sefer HaVichuach foi condenado a ser queimado e Ramban foi banido de Aragão.

 

Por três anos, Ramban permaneceu em Castela de Provença, onde ele começou a escrever seu monumental Comentário sobre a Torá, que é único pois ele não apenas interpreta os versos, mas também analisa os tópicos, apresentando-os sob a perspectiva da Torá. Permeado de interpretações hagádicas e cabalísticas, estão também análises cuidadosas de outros comentários, especialmente do Rambam e Ibn Ezra, a quem Ramban critica severamente pela abordagem excessivamente racional que, na sua opinião, deriva das verdadeiras interpretações Talmúdicas e cabalísticas. Ramban também discorda frequentemente das interpretações do Rashi - posteriormente, outros autores como Mizrachi e Maharal escreveram contra-argumentos defendendo o Rashi. O Comentário sobre a Torá do Ramban é estudado mundialmente e foi publicado em todas as edições do Mikraot Gedolot.

 

Em 1267, com 72 anos, Ramban decidiu se estabelecer em Eretz Yisrael. Antes de partir, deixou uma dissertação sobre o Eclesiastes, louvando a Terra Santa e o preceito da caridade. Depois de uma difícil jornada e de muito sofrimento, Ramban chegou em Acco no mês de Elul de 1267. Ele passou o Rosh HaShanah em Jerusalém, que estava em condições deploráveis como resultado da destruição causada pelos Cruzados. Ramban designou uma casa assolada como sinagoga e trouxe um rolo de Torá de Shechem. Nessa sinagoga, ele deu um drasha (sermão) sobre as leis do Shofar e exortou os habitantes de Israel que tomassem muito cuidado para que suas ações fossem justas, pois eles eram os serviçais do palácio do Rei. Com a ajuda de Ramban, a comunidade Judaica de Jerusalém, que havia praticamente deixado de existir, começou a ressurgir.

 

O próprio Ramban estabeleceu-se em Acco, um centro de Torá da época, e reuniu um círculo de alunos. Lá, ele completou seu Comentário sobre a Torá. Manteve contato estreito com sua família na Espanha, informando-lhes as condições da Terra Santa.

 

Muitos opinam que o local onde Ramban foi enterrado fica em Hebron, perto da caverna de Machpelah, Haifa, Acco ou Jerusalém. O Rivash (Rabbi Yitzchak ven Sheset Perfet) escreveu sobre ele: “Todas as suas palavras são como fagulhas de fogo, e toda a comunidade de Castela baseia-se nas suas decisões haláchicas como se fossem aquelas recebidas diretamente do Altíssimo pelo Moshe Rabeinu”.

 

Que o mérito do tzadik Rabi Moshe ben Nachman proteja a todos nós, Amém.

 

sexta-feira, 25 de março de 2022

Shamati (18)

 

18. Minha Alma Deve Chorar em Segredo – 1

(Ouvi em Tav-Shin, 1939-1940, Jerusalém)

 

Quando a ocultação domina uma pessoa ela chega a um estado em que o trabalho se torna insípido, ela não consegue visualizar ou sentir qualquer amor ou temor, e não consegue fazer nada em Kedushá [santidade]. Neste caso, o único conselho é chorar ao Criador para que ele tenha misericórdia da pessoa e remova a tela dos seus olhos e do seu coração.

 

Chorar é muito importante. É como nossos sábios escreveram: “Todos os portões estavam trancados, exceto os portões das lágrimas.” Sobre isso, o mundo pergunta: Se os portões das lágrimas não estão trancados, qual é a necessidade de eles existirem? Ele disse que é como uma pessoa que pede ao seu amigo por um objeto necessário. Esse objeto toca o seu coração, e a pessoa pede e implora com toda maneira de oração e apelo. Porém, seu amigo não presta atenção em nada disso. E quando a pessoa vê que não há mais razão para orações e apelos, então ela levanta sua voz em prantos.

 

Sobre isso, é dito: “Todos os portões estavam trancados, exceto os portões das lágrimas.” Ou seja, quando não estiveram trancados os portões das lágrimas? Precisamente quando todos os portões estavam trancados. É nesse momento que há espaço para os portões das lágrimas, e então vemos que eles não estavam trancados.

 

No entanto, quando os portões da oração estão abertos, os portões das lágrimas e dos prantos são irrelevantes. Esse é o significado de estarem trancados os portões das lágrimas. Portanto, quando não estão trancados os portões das lágrimas? Precisamente quando todos os portões estão trancados, os portões das lágrimas estão abertos, já que a pessoa ainda tem a escolha de orar e implorar.

 

Esse é o significado de “minha alma deve chorar em segredo”. Quando o indivíduo chega a um estado de ocultação, então “minha alma deve chorar”, porque ele não tem outra opção. Esse é o significado de “tudo o que sua mão e sua força puderem fazer, faça.”

 

Shamati (137)

    137. Zelofeade estava coletando madeira (Ouvi em Tav - Shin - Zayin , 1946-1947)   Zelofeade estava coletando madeira. O Zohar i...