quinta-feira, 21 de maio de 2020

Sefer Ha Zohar (6)




(Zohar, Vol. 22, Capítulo 48)



 A morte do Rabi Shimon ben Yochai




Uma sinopse



O Rabi Aba relata como, depois de o Rabi Shimon proferir a palavra “vida”, todas as suas outras palavras cessaram. A Luz no quarto foi tão grande que o Rabi Aba não pôde olhar, e duas vozes foram ouvidas dizendo: “Pois eles aumentarão teus dias e proporcionarão paz em tua vida”; e, depois: “Ele apenas Te pediu vida.” É-nos contado sobre os miraculosos eventos que ocorreram durante o resto daquele dia.



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O Rabi Aba disse: O Santo Iluminado mal havia acabado de proferir “vida” quando suas palavras cessaram. Eu estava escrevendo e estava prestes a escrever mais, porém não ouvi nada. Eu não ergui a minha cabeça, porque a Luz era intensa e eu não podia olhar. Então eu tremi e ouvi uma voz chamando e dizendo: “Pois eles aumentarão teus dias e proporcionarão paz em tua vida…” (Provérbios 3:2). E então eu ouvi outra voz: “Ele apenas Te pediu vida...” (Salmos 21:5).



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Durante todo aquele dia o fogo não cessou na casa e ninguém o alcançou (ao rabi Shimon), pois não podiam devido à Luz e ao fogo que o cercava. Eu estava prostrado no chão durante todo aquele dia, chorando alto. Depois que o fogo se foi, eu vi que o Santo Iluminado, o Santo dos Santos, havia partido do mundo, encoberto e deitado sobre o seu lado direito, com um sorriso no rosto.



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O Rabi Elazar, seu filho, levantou, pegou as suas mãos e as beijou, enquanto eu lambia a sujeira debaixo dos seus pés. Os amigos começaram a chorar. O Rabi Elazar, seu filho, prostrou-se três vezes e não conseguia abrir a boca. Então ele começou, dizendo: Pai, pai, eram três que se tornaram um novamente”. Quer dizer, havia três grandes homens na terra, o Rabi Elazar, o Rabi Shimon bar Yochai, seu pai, e o seu sogro, o Rabi Pinchas ben Yair. Agora o Rabi Elazar estava órfão do seu sogro e do seu pai, o Rabi Shimon, e apenas um permanecia no mundo. Agora, depois que essa grande árvore se fora, sob a qual as bestas do campo costumavam andar e em cujos galhos habitavam os pássaros do céu, e a qual tinha alimento para todo mundo, agora as bestas vão perambular e os pássaros que costumavam morar em seus galhos vão afundar no abismo no Grande Mar, e os amigos, ao invés do alimento que recebiam dela, vão beber sangue. 



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O Rabi Chiya se pôs em pé e disse: “Até agora, o Santo Iluminado nos protegia. Agora é o momento de nos esforçarmos ao máximo para honrá-lo”. O Rabi Elazar e o Rabi Aba se levantaram e o removeram do seu lugar para uma cama, posicionada como uma escada a fim de elevá-lo em sua cama. Quem já viu tamanha confusão dos amigos! A casa inteira emitiu boas fragrâncias. Eles o elevaram em sua cama e ninguém o serviu, a não ser o Rabi Elazar e o Rabi Aba. 



200



Agressores e pessoas armadas chegaram da vila de Tzipori, os quais queriam que ele fosse enterrado lá e vieram para levá-lo à força. Os habitantes de Meron os afastaram e gritaram para suas multidões, porque não queriam que ele fosse enterrado lá, mas onde eles próprios viviam. Depois que a cama saiu da casa, ela se elevou no ar e o fogo queimou diante dela. Eles ouviram uma voz: “Venham e se reúnam para o banquete do Rabi Shimon. Eles partirão em paz, em seus leitos repousarão” (Isaías 57:2).



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Quando ele entrou na caverna, eles ouviram uma voz dentro da caverna: ‘Este é o homem que fez a terra tremer, que provocou reinos. Quantos acusadores no firmamento hoje estão apaziguados por sua causa. Este é o Rabi Shimon bar Yochai, com quem seu Mestre glorifica a Si mesmo diariamente. Abençoada é a sua porção acima e abaixo. Quantos tesouros celestiais o aguardam. Sobre ele está dito: “Quanto a ti, segue teu caminho, chegará a época de teu repouso e depois despertarás para receber tua porção, ao chegar o final dos tempos” (Daniel 12:13).

quarta-feira, 20 de maio de 2020

Introdução ao Livro do Zohar (46)




3. Quarta Pergunta



Já que o sistema de forças impuras e das Klipot estão tão distantes da Pureza do Criador que nada mais remoto pode ser concebido, como pode ser que elas emanem do Criador e ainda sejam sustentadas por Ele?



Os cabalistas desejam tornar nossa vida mais fácil, então eles nos dizem tudo com antecedência. Além das perguntas comuns, eles fazem muitas outras, sobre as quais nunca pensaríamos. Aqui, Baal Ha Sulam trata sobre o sistema das forças impuras (Klipot) que são completamente opostas ao Criador. Ele gera esse sistema de mundos impuros e os sustenta continuamente com a Sua Pureza. Que conexão pode existir entre eles se eles são opostos?



Dizemos que se duas ou mais propriedades espirituais são opostas entre si, não há contato entre elas. Se elas se sobrepõem parcialmente, significa que algumas das suas qualidades são semelhantes. Se elas se sobrepõem completamente então elas são equivalentes. A Criação é, inicialmente, oposta ao Criador e está separada Dele. O mesmo ocorre com as forças impuras: existe o Criador e existem as Klipot.



As Klipot são criadas e mantidas pelo Criador, ainda que, de fato, estejam completamente separadas Dele. Como isso pode ser? O Criador gera e mantém as Klipot ao mesmo tempo em estão completamente separados. Essa questão exige uma explicação.



A Quinta Pergunta refere-se à "Ressurreição dos Mortos".



Baal Ha Sulam diz que existe um estado chamado "Ressurreição dos Mortos". Mas, antes, é preciso que algumas definições sejam estabelecidas: Por "alma", nos referimos à doação ou intenção de doar. Por "corpo", nos referimos ao Guf do Partzuf ou ao desejo. Por "Ressurreição dos Mortos", nos referimos à elevação dos corpos mortos (desejos).



Já que o corpo é tão desprezível, ele está fadado a perecer e ser enterrado.



O que significa "fadado a perecer" e "ser enterrado"? Em relação ao corpo, nos referimos a desejos existentes no momento do nascimento, pois eles têm intenções egoísticas. "Fadados a perecer", significa ser totalmente erradicado da Luz, morrer. A pessoa considera que seus "desejos com intenções egoístas" estejam mortos. Ela não consegue e nem quer utilizá-los, ela deseja enterrá-los. Depois disso, os desejos passam por correções, isto é, a intenção para si mesmo (que é a intenção das Klipot) é transformada na intenção pelo Criador, o propósito de doar. Esse processo é chamado de “Ressurreição dos Corpos Mortos”.



O corpo (dos desejos) não muda, somente a sua intenção. O corpo em si é neutro. Há a intenção egoísta "para si mesmo" ou a tela que gera Ohr Hozer (Luz Refletida), a intenção "para o Criador". A intenção "para si mesmo" é chamada de Klipá. A intenção "pelo Criador" é chamada de Kedushá. É preciso chegar ao ponto em que a intenção "para si mesmo" morra em nós. Se alcançamos a intenção "pelo Criador", esta será a ressurreição.



Vejamos o que Baal Ha Sulam escreve. Quando lemos o texto sem os comentários, pode-se lembrar dos contos fantásticos em que corpos mortos saem das tumbas e perambulam por aí.



Por que então o corpo retorna e se eleva na "Ressurreição dos Mortos"? O Criador não poderia dar prazer às almas sem isso?



A pergunta de Baal Ha Sulam não diz respeito nem ao corpo nem à alma, mas ao motivo por que precisamos atravessar todas essas transformações. Por que precisamos permanecer nas Klipot até as considerarmos mortas e as enterrarmos e esperarmos até que se decomponham completamente? Nós somente podemos utilizar o corpo (desejo) e trabalhar com esse desejo "pelo Criador" depois de nos libertar da intenção egoísta.



Vamos supor que eu tenho um desejo com intenções inicialmente egoístas, faço tudo exclusivamente para o meu bem estar. Esse é o meu primeiro estado. Meu segundo estado é quando, sob a influência da Luz Superior que atraio ao ler os textos cabalísticos, esses desejos começam, pouco a pouco, a desaparecer. Eu começo a sentir minha condição como o "mal" e ele lentamente começa a sair de mim. Eu sinto que eles (desejos) estão morrendo e eu alcanço a condição em que estou totalmente livre deles. No meu próximo nível, eu começo a adotar as propriedades do Criador e a desejá-Lo. Isso é chamado de “Ressurreição do Corpo”.



Por "corpo", sempre nos referimos ao desejo. Ele permanece o mesmo, nada acontece a ele, é somente a intenção que muda. O corpo sempre consiste dos mesmos desejos: eu sempre terei 620 desejos no meu corpo.



Em geral, conseguimos entender isso facilmente. A dúvida sempre surge sobre outro assunto: Para começo de conversa, por que somos obrigados a receber más intenções, "para mim mesmo"? Por que precisamos vê-las como más e então desejar nos libertar completamente delas, e assim adquirir a intenção boa?



Baal Ha Sulam diz:



Por que então o corpo retorna e eleva-se na "Ressurreição dos Mortos”? O Criador poderia dar prazer às almas sem isso?



Por que não podemos receber boas qualidades desde o início e já estarmos unidos com o Criador? Por que devemos descobri-Lo através das más qualidades?



Além disso, no Zohar está dito que antes do corpo apodrecer completamente, enquanto ainda houver vestígios dele, a alma não pode ascender ao seu lugar Celestial. Ou seja, até que toda a intenção “para si mesmo” desapareça a alma não será ressuscitada e não se fundirá com o Criador na semelhança de Suas propriedades.



Ainda mais impactante é o que os nossos sábios falam sobre os corpos mortos que estão destinados a retornar com todas as suas deficiências para que eles não sejam confundidos com os outros.



Embora eles digam que os corpos, os desejos, a morte e a ressurreição referem-se às intenções, ainda assim é muito difícil alcançar a percepção correta do que se fala. E então surge uma dúvida: Por que devemos passar por tudo isso? A morte de nossas intenções parece suficientemente clara. A transformação da intenção “para mim mesmo” na intenção “para o Criador” também é clara. O problema é diferente: A menos que o corpo permaneça com suas deficiências, nós não somos capazes de nos tornar semelhantes ao Criador.



O Criador, então, corrigirá suas deficiências. Mas devemos entender por que é importante, para Ele, que eles não sejam confundidos com outros corpos que reconstituirão suas deficiências e as corrigirão.



Além da ressurreição do corpo, deve existir a revelação das deficiências. Quando elas estão mortas e nada mais resta delas em nós, devemos resgatá-las, tê-las manifestas em nós a fim de deixarmos de usá-las e então corrigi-las.



Como se dá esse processo?



Inicialmente, eu possuo intenções egoístas, sobre as quais faço um Tzimtzum (Restrição). Eu não tenho o menor desejo de me conectar com elas. Adquiri a força necessária e obtive a tela. Enquanto escavo do chão cada uma das minhas intenções egoístas, eu digo: “Essa é minha propriedade original verdadeira - a intenção para mim mesmo. Agora irei transformar essa intenção ‘para mim mesmo’ na intenção ‘para o Criador’”.



Em outras palavras, minha intenção egoísta retorna à vida e eu a corrijo em uma intenção positiva, pois é necessário fazer um Tzimtzum no meio do caminho.



Previamente, todas as minhas intenções interiores eram 100% negativas, então eu as eliminei. Fiquei vazio, isto é, parei de usar cada uma das minhas intenções e elas “apodreceram”. Então eu as ressuscito.  De que forma? Eu as reanimo na sua forma negativa, mas não na totalidade da sua negatividade. Eu primeiro corrijo apenas 1% e, pouco a pouco, chego aos 100% de correção.



1.    Eu alcanço a Revelação do Mal

2.    Eu me esvazio, faço o Tzimtzum Aleph.



A pessoa deve passar por esses estágios. A Ressurreição dos Mortos deve acontecer dentro dela depois de ela ter feito o Tzimtzum e obtido a tela.



Vamos ler novamente.



A Quinta Pergunta refere-se à “Ressurreição dos Mortos”.

Já que o corpo é tão desprezível, ele está condenado a perecer e ser enterrado.



Isso inclui uma Revelação do Mal completa dos meus desejos egoístas primordiais.



Por que então o corpo retorna e se eleva na “Ressurreição dos Mortos” (depois de ter sido enterrado e ficar vazio)? O Criador não pode dar prazer às almas sem isso?



Não, Ele não pode.



Além disso, no Zohar está escrito que antes que o corpo apodreça completamente (até que todos os meus desejos morram e apodreçam na terra), enquanto ainda restar algo dele, a alma não pode acender ao seu lugar Celestial (serei incapaz de ser preenchido pela Luz).



Ainda mais impressionante é o que nossos sábios dizem dos corpos mortos que estão destinados a retornar com todas as suas deficiências…



Por que preciso reanimar todos os meus desejos negativos? Isso parece me levar de volta às minhas propriedades negativas.



… para que eles não sejam confundidos com os outros. Eu preciso perceber que nunca serei capaz de corrigir essas deficiências por mim mesmo. Elas só podem ser corrigidas se eu as revelo como mal e peço a correção ao Criador.



Precisamos compreender por que é tão importante ao Criador que eles não sejam confundidos com outros corpos para que Ele possa restituir suas deficiências e então corrigi-las (por que esses desejos devem ser os mesmos de antes?).



Devemos compreender a Ressurreição dos Mortos nesse caso específico, e o modo como ela será realizada.



Portanto, pouco a pouco, nos acostumamos aos escritos do Baal Ha Sulam e tentamos compreender o fluxo dos seus pensamentos. Apenas precisamos absorver tudo o que lemos. Não importa o quanto compreendemos. Nós apenas queremos nos aproximar dele e, na medida do nosso desejo, a Luz descerá sobre nós a partir do nível em que ele nos explica tudo isso.



Nosso desejo de estar nesse nível se chama “discernimento”, “recebimento”. Enquanto estudamos “A Introdução ao Estudo das Dez Sefirot”, lemos o famoso parágrafo 155 que diz: “A Ohr Makif brilha sobre a pessoa que deseja alcançar o nível superior. Tal recebimento pode apenas ser alcançado se ascendermos a ele e nos tornarmos parte daquele nível”.



Quando falamos de formas espirituais, objetos, condições, ações e estados, devemos tentar estar naquele nível, e não no nível desse mundo. Deixe sua “cabeça” nesse mundo. Você pode tentar apenas elevar-se até lá nos seus desejos. Esse esforço estimulará a emanação, o fluxo da Luz Superior que nos levará até lá. É preciso aprender a trabalhar com o coração, não com a cabeça.



Sexta Pergunta



Nossos sábios dizem que o homem é o centro da realidade, que os Mundos Superiores e esse mundo material, com tudo o que nele existe, foram criados apenas para ele (Zohar, Tazriya, 40).



O homem é o centro do universo.



[Os cabalistas] levam o homem a acreditar que o mundo foi criado para ele (Sanhedrin, 37). É aparentemente difícil de compreender que por esse pequeno ser humano…



Pelo seu tamanho físico e poder neste mundo, neste Universo, o homem é completamente insignificante. Indiferente do nível em que esteja (vegetal, animal ou humano), ele não representa nada em especial. Em comparação com a pobre natureza, ele é muito mais egoísta e cruel. Então qual é sua vantagem?

Além disso, para quê ele precisa de todo o Universo?



A respeito do valor do homem em relação ao Universo, Baal Ha Sulam diz:



A ele, que não compreende mais que um punhado da realidade do nosso mundo e muito menos dos Mundos Superiores, cuja altura é imensurável, o Criador preocupou-Se em criar tudo isso. Ainda assim, por que o homem iria querer tudo isso?



Galáxias enormes e infinitos Mundos Espirituais: Por que tudo isso é necessário? Se tudo é feito para o homem, em algum momento ele deve usá-los, operá-los, e de alguma forma estabelecer contato com eles. Entretanto, onde está ele nesta Terra, com seus diversos cataclismos? Onde está ele na nossa pequena (em comparação com as outras) galáxia, em todo esse Universo infinito? Se levarmos em consideração todo o nosso Universo, ou o nosso mundo, e o compararmos com os Mundos Superiores, ele será como uma pequena partícula desaparecendo no Infinito.



Como resultado, o homem, único ser inteligente de todo o nosso Universo, ainda que desprezível, é o centro de todos os mundos! Ele está destinado a comandá-los no futuro. Depende do homem em que condição eles estarão. Os cabalistas dizem que o homem está diretamente conectado a eles. Ele está neste estado agora? Para que ele precisa deles? O que ele ganha com isso?



Por que o universo foi criado para o homem?



Por que o Criador fez tudo isso para que a pessoa não compreendesse o que ela pode ganhar se ela puder dominar todo o Universo e todos os Mundos Superiores? Afinal, ela não sente a necessidade disso para ser feliz. Entretanto, tudo isso foi criado para o homem. Apenas ao utilizá-lo, ele alcançará o seu estado supremo.



Esta é a última pergunta que temos que fazer. Se completamos essa pesquisa, seremos capazes de responder as perguntas que Baal Ha Sulam nos traz no início dessa Introdução e compreenderemos por que precisamos do Livro do Zohar. Este é apenas o Prefácio para o Livro.



Depois, enquanto estivermos lendo o Livro do Zohar, saberemos o que devemos fazer com a ajuda do Livro a fim de alcançar todos esses estados.




terça-feira, 19 de maio de 2020

Introdução ao Livro do Zohar (45)




2. Para clarificar tudo isso verdadeiramente, é preciso que antes se estude certas questões que não sejam da "área proibida", ou seja, da essência do Criador. De forma alguma é possível compreendê-Lo com a nossa mente e, portanto, não temos nem ideia nem conceitos sobre Ele. O campo de pesquisa obrigatório é o estudo das ações do Criador.



No geral, conseguimos entender as questões: "O que é a Essência?"; "Qual é o nosso papel na cadeia da realidade?"; "Por que somos imperfeitos se o Criador é Perfeito?" e assim por diante. Então por que precisamos de estudos preliminares?



Precisamos deles para entender essas questões com mais precisão. Em outras palavras, devemos abordá-las de um modo diferente, pois é dito: "Muitos (no curso da história) tentaram elucidar essas questões e muita tinta já foi gasta". Portanto, no fim, essas questões continuam sem decifração.



Como podemos resolver essas questões, encontrar as respostas e nos tornar de fato conscientes delas internamente? A fim de examinar essas questões e resolvê-las é necessário nos colocarmos numa posição ambígua em relação a elas. E é isso o que Baal HaSulam faz nos seus estudos. Ele diz:



Para clarificar tudo isso verdadeiramente, precisamos fazer certas investigações preliminares, de tal forma que o assunto não entre na "área proibida", isto é, na Essência do Criador…



Por que é proibido estudar a Essência do Criador? Mais adiante, ele responde o seguinte: …que, de forma alguma, pode ser compreendida pela nossa mente.



Já que não podemos compreender a Essência do Criador, não devemos estudá-la. Isso seria inalcançável para nós no nosso nível atual de desenvolvimento. Portanto, a única coisa que devemos fazer é estudar tudo o que talvez possamos compreender. Além disso, se estudamos o que podemos receber, nós nos aproximaremos da área incompreensível, a Essência do Criador.



Sobre isso, Baal HaSulam diz: A Essência do Criador não pode ser compreendida pela nossa mente, portanto, não pensamos nem conceituamos sobre Ele... O campo de pesquisa obrigatório (isto é, a instrução do Criador) é o estudo das ações do Criador. Da forma como nos é dito: "Conhece o Criador e sirva a Ele".



Se O recebo, se recebo Suas ações e Suas instruções, eu internamente me adapto à correção. Eu me coloco em semelhança com Ele, é isso que chamamos de "Eu compreendo Suas ações e sirvo a Ele", ou seja, compreendo o trabalho "pelo Criador".



Também é dito que "pelas Suas ações, O conhecerei".



Eu O alcanço ao ajustar minhas ações às Dele e ao me tornar semelhante a Ele. Se começo minha investigação diretamente a partir Dele, isso se chama "filosofia". E nada será conseguido dessa forma. Eu só poderei compreender e receber o Criador a partir do momento em que me tornar semelhante a Ele, e então todos os estados e qualidades que existem Nele serão formados em mim. Assim, serei capaz de compreender Suas intenções, o que precede Suas qualidades e ações. Do Guf (corpo) do Partzuf, alcançarei seu Rosh (Cabeça).



Se o meu corpo, isto é, todos os meus desejos, se tornarem semelhantes a todas as ações do Criador, então o corpo interno da minha alma, meus desejos, o corpo do Partzuf, será formado. O Toch (parte interna) ou Sof (fim) do Partzuf será semelhante à influência do Criador sobre mim. Isso se chama "nove das minhas Sefirot opostas, tornam-se semelhantes a nove das Suas Sefirot diretas", o que me permite encontrar o completo equilíbrio com o Criador e apreender Seus pensamentos, o Rosh do Partzuf.



Só assim chegamos a uma compreensão do Criador. Se a pessoa age expressamente dessa forma, ela revela no seu estudo a oportunidade de elevar-se do nível da Criação ao Nível do Criador.



Se desejamos fazer isso, que tipo de perguntas precisamos fazer?



Primeira Pergunta:



Como podemos ver a Criação como algo recém formado? Algo novo, algo que não existia no Criador antes de ter sido criado? Como é possível que alguém, em sã consciência, imagine que não havia nada no Criador? O simples senso comum nos faz acreditar nisso. Ninguém pode dar alguma coisa sem, antes, possuí-la.



Se o Criador cria alguma coisa, é preciso que essa coisa exista Nele de alguma forma. Como seria possível que alguma coisa subitamente surgisse do nada, a partir do nada? O que significa "a partir do nada"? Ele pensou nisso? Fez algum plano? O que O induziu a isso? De onde Ele tirou os materiais - pensamentos, sentimentos e ações - para construir a criação? Havia algum ponto Nele a partir do qual tudo isso começou? Como é possível que seja assim sem que nada existisse Nele, nem um ponto de partida? Não deveria existir um princípio? Se sim, como é possível acreditar que não viemos Dele, mas do nada?



Eu recomendo que você pare agora e tente recordar de tudo o que eu falei até aqui. Não se esforce internamente para adaptar o material e colocá-lo inteiro dentro de você, em prateleiras determinadas. Por favor, não faça isso!



É preciso ir com calma, senão nada disso entrará em você. Não há razão para ficar nervoso, estude livremente e com amor. Não tente memorizar nada! Talvez nem possamos nos lembrar de tudo o que aprendemos.



De repente, sentiremos que só conseguimos compreender algo novo se esse algo nos penetra por dentro, torna-se a nossa natureza. Não faça como os filósofos que "derramaram muita tinta" por milhares de anos. Nada resultou disso.



Precisamos reproduzir todas essas ações dentro de nós mesmos. Quando elas tornarem-se nossas propriedades internas, nós saberemos, sentiremos e veremos todas elas. Do contrário, nossas tentativas inúteis de guardar essas informações falharão.



Enquanto estivermos estudando, tente se concentrar no que desejamos alcançar, onde queremos estar. O mais importante não é saber, mas atrair a Luz da Correção, que nos eleva a todos esses estados. É nisso que devemos pensar durante o nosso estudo.



Ao estabelecer um objetivo, tentamos direcionar sobre nós mesmos a Luz Circundante. Para isso, lemos o que o autor escreveu enquanto estava no alto nível de recebimento em que ele fundiu-se com o Criador. Ele não escreveu seus livros para elucidar pobres filósofos ou a nós. Ele nos instrui a "conhecer o Criador e servir a Ele", a ajustar Suas ações em nós mesmos e nos tornar semelhantes a Ele. O resultado será o que disse o Rei David: "Pelas Suas ações, eu O conhecerei". Aqui é onde o nosso foco deve estar. Portanto, vamos parar de torturar em vão o nosso cérebro e tentar ativar nossos corações e, acima disso, o ponto neles.



Segunda Pergunta



Pode-se dizer que, do ponto de vista da Onipotência do Criador, Ele pode criar algo a partir do nada, ou seja, algo novo, que não esteja presente Nele?



Se dizemos que Ele pode fazer qualquer coisa, então, é claro que Ele pode criar algo a partir do nada, ou seja, algo novo que não estava presente Nele. Então surge a dúvida, que tipo de realidade podemos dizer que não existia no Criador, mas que possui uma nova formação?



Suponha que aceitamos nossa primeira pergunta como um axioma: Sim, o Criador criou algo a partir do nada. Nós ainda vamos chegar a essa conclusão, mas, por agora, vamos admitir que já a obtivemos e, nesse caso, que Ele criou algo que estava completamente fora de Si Mesmo.



Então surge a dúvida, que tipo de realidade podemos dizer que não existia no Criador, mas que possui uma nova formação?



Então foi isso que o Criador decidiu criar, algo que não está presente Nele e do qual Ele sentiu uma súbita necessidade? Isso não sugere que existe uma certa ausência de perfeição Nele? Que algo estava faltando e que, agora, esse algo é uma necessidade? Ou ainda, se Ele era Perfeito antes e depois, por que Ele fez algo novo? Se assim é, obviamente essa nova “criação” nada tem a ver com a Perfeição.



Terceira Pergunta



Os cabalistas dizem que a alma humana é uma parte do Criador e, portanto, não há diferença entre Ele e a alma.



Dentro de cada pessoa existe uma alma animal, uma força vital que sustenta tanto os animais como nós humanos e, além disso, temos uma pequena partícula do Criador Ele Mesmo. A alma está dentro de nós, mas é uma pequena faísca de Cima. Quando ela está Acima, ela é uma pequena faísca, quando está em nós, é uma alma.



A diferença é que Ele é o “todo” e a alma é uma “parte”. É como uma pedra que é retirada de uma rocha: não há diferença entre a pedra e a rocha exceto pelo fato de que a rocha é um “todo” e a pedra é uma “parte”. Com isso, perguntamos: Ainda que a pedra retirada da rocha tenha sido separada dela por um machado, criado para esse fim, causando a separação da “parte” e do “todo”, como podemos imaginar que o Criador separa uma parte da Sua Essência para se tornar independente Dele, ou seja, uma alma, a ponto de ela apenas ser compreendida como uma parte da Sua Essência?



O machado é o Kli, uma ferramenta, uma força material que separa uma “parte” do “todo”.



Então o que é o machado espiritual que extrai uma parte do todo? Por que a parte retirada permanece imutável, com as mesmas propriedades que existem no Criador? O Criador sofre com esse processo? Afinal, uma parte Sua foi retirada! Essa parte retirada foi reduzida da Sua Perfeição? É possível que Ele se torne imperfeito? Falta algo Nele? Qual é a conexão entre uma parte (uma alma) separada do Criador e o Criador Ele Mesmo? Ou ainda, essa parte está totalmente separada Dele?


segunda-feira, 18 de maio de 2020

Shamati (43)




Sobre a verdade e a fé



“Verdade se refere a aquilo que a pessoa sente e vê através dos seus olhos. Este discernimento recebe o nome de “recompensa e castigo”, pois não se pode obter nada sem esforço. Imaginemos, por exemplo, uma pessoa que se senta e não quer fazer nada para procurar seu sustento. Esta pessoa diz que, já que o Criador é bom e benevolente, e já que Ele é o provedor de tudo, suas vontades serão transmitidas a Ele, enquanto ela, em contrapartida, não precisa fazer nada.



Claro que se essa pessoa se comporta dessa maneira, com toda certeza morrerá de fome. Isto é evidente aos olhos de qualquer um, porque é óbvio, cai de maduro; e é lógico e razoável que assim seja; ou seja, que morra de fome.



Mas, ao mesmo tempo, a pessoa deve crer e convencer-se de que, para além de toda razão, poderia conseguir tudo o que necessita sem esforços nem preocupações de nenhum tipo, por causa da Providência particular. Em outras palavras, o Criador realiza e realizará toda a ação; e a pessoa não O ajuda em nada, pois é o Criador que faz tudo. E a pessoa não pode adicionar nem subtrair nada ao que Ele faz.



Ainda assim, como podem andar de mãos dadas estas duas coisas, considerando que uma está em oposição a outra? Uma se refere ao que a mente alcança ou compreende, e indica que sem a ajuda do homem, sem um trabalho e um esforço prévios, não poderá conseguir nada. A isto se chama “a verdade”, pois o Criador deseja que a pessoa se sinta dessa forma. E por isso esse caminho se chama “O caminho da Verdade”.



Mas não fiquem perplexos com o seguinte dilema: se esses dois caminhos são opostos entre si, como é possível que esse estado seja verdadeiro? A resposta é que, se a verdade se refere à sensação de que o Criador deseja que a pessoa se sinta dessa forma, então isso é a “verdade”. Disso resulta que o relativo à verdade pode ser dito precisamente acerca do Criador, acerca da sua vontade, e que Ele deseja que a pessoa se sinta e se veja dessa mesma maneira.



No entanto, ao mesmo tempo que a pessoa deve crer e estar convencida de que ainda não perceba nem veja com os “olhos” da mente o fato de que o Criador pode ajudar-lhe a obter todos os benefícios que podem ser alcançados sem esforço da sua parte isto é certo somente com relação à Providência particular.



A razão pela qual a pessoa não pode alcançar o discernimento da “Providência particular” antes de alcançar o de “recompensa e castigo” é que a Providência particular é algo eterno, enquanto que sua mente não é eterna. E algo eterno não pode vestir-se de algo que não seja eterno. Mas quando a pessoa tiver obtido o resultado de “recompensa e castigo”, este se converte em um kli (vaso) dentro do qual se pode vestir a Providência particular.



Agora podemos compreender o verso: “O Senhor salva, o Senhor triunfa”. “Salva” se refere à “recompensa e castigo”. Deve-se rezar para que o Criador proveja trabalho e esforço por meio dos quais a pessoa possa ser recompensada. Ao mesmo tempo, deve-se rezar pelo êxito, que é da Providência particular, e que indica que a pessoa será recompensada com todos os benefícios do mundo sem trabalho nem esforço de sua parte.


Também podemos ver isso relativamente às posses materiais (deste mundo físico, que se discernem em sua separação em lugares distintos; ou seja, em dois corpos diferentes, enquanto que na espiritualidade tudo existe somente em um corpo, mas duas vezes). Há pessoas que adquirem suas posses especificamente através de grandes esforços, energia e sagacidade; mas ao mesmo tempo temos o contrário; há aqueles que não são tão sagazes, nem têm tanta energia, nem se esforçam tanto, mas ainda assim triunfam e até se convertem nos maiores possuidores de propriedades do mundo.



A explicação para isso é que esses assuntos corporais surgem e se estendem de suas raízes superiores; ou seja, do discernimento de “recompensa e castigo” e da Providência particular. A única diferença está em que a espiritualidade se manifesta em um lugar, somente num aspecto, mas um a um. Isto quer dizer que ocorre dentro de uma pessoa, mas em dois estados. E no corporal, ao contrário, ocorre uma única vez, mas em dois estados diferentes; ou seja, de uma só vez e em duas pessoas distintas.


Shamati (137)

    137. Zelofeade estava coletando madeira (Ouvi em Tav - Shin - Zayin , 1946-1947)   Zelofeade estava coletando madeira. O Zohar i...