quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

Suor no Rosto (6)




6



Às vezes, diante do espelho, ao ajeitar a barba, conformado já com os dentes amarelos, com as pequenas manchas escuras que começam a surgir-me no rosto e nas mãos, indago ao outro, que me fita na superfície fria do mercúrio, como fui capaz de evitar as minas, os alçapões e as armadilhas que me esperavam. A genética e a história, acomodadas em seu determinismo cego, queriam que eu fosse um provinciano irrealizado e ressentido, vendedor de agrotóxicos, apontador de jogo do bicho, bancário ou fotógrafo de batizados e casamentos nos grotões às margens do rio Uruguai, mas eu me recusei a cumprir os augúrios das forças biológicas e sociais. Mais adiante, contarei como fugi do labirinto, sem oráculo e sem fios mágicos, depois de ouvir a notícia da morte de Erico Veríssimo, no meu velho rádio Continental.



No princípio, quando decidi escrever as minhas memórias, uns 10 anos atrás, eu contava o episódio de EQM como se fosse um sonho. Eu tinha uma carreira de homem público (tinha sido Coordenador do Livro e Literatura de Porto Alegre, depois Secretário Municipal de Cultura, depois Sub-Secretário Estadual de Cultura), eu tinha uma carreira de professor e escritor, e senti temor e vergonha de declarar que minha alma (consciência) tinha saído do corpo e encontrado um amigo falecido dezenas de anos antes da minha própria morte. Diante da minha condição de ficcionista eu sabia que não seria levado a sério. Era melhor dizer que tinha sido um sonho. Assim, transformei o episódio no tema de um romance, Dia de matar porco, que foi publicado, mas que não gerou mais do que indiferença. E o que faço agora vai gerar dores de cabeça aos teóricos de literatura, no futuro, quando eles cruzarem as duas histórias. Qual é a verdadeira? O roman à clef ou as memórias romanceadas? Aqui, são evidentes os procedimentos romanescos, e lá, são palpáveis as técnicas de autenticação do discurso. Um velho aristotélico como eu não deixaria de investir muito na verossimilhança. Ou seja, trataria de fazer um bom mythos com o material (ou experiência pessoal) mais estapafúrdio que tivesse. Sempre ensinei aos pretendentes a escritores: O importante não é o que se conta, mas o como se conta. A maior mentira precisa parecer verdade, precisa convencer o leitor. Como disse Santo Agostinho, na anedota que tantas vezes contei em aula, "pensei que fosse mais verossímel que vacas voassem do que noviços mentissem". Por isso, aos poucos, com a malícia de velho contador de histórias, irei saciando a curiosidade do meu leitor, tecendo a minha trama, compondo a minha história pessoal, e deixando, de propósito, algumas pontas do novelo soltas, para serem arrematadas mais para o final. Escrever um livro de memórias que não possa ser lido como um bom romance me parece um duplo fracasso. Se eu não for capaz de fazer o que ensinei, falharei nos dois sentidos, como professor e como escritor.


terça-feira, 7 de janeiro de 2020

Introdução ao Livro do Zohar (2)


2. Desde o início, o estudante deve estar ciente que cada conceito discutido no Livro do Zohar, seja em forma de lendas, seja em forma de contos, tem relação com as Dez Sefirot:  KaHaB (Keter, Hochma, Biná), HaGaT (Hessed, Guevurá, Tiféret) NHYM (Netzach, Hod, Yessod, Malchut) e suas derivações. Tanto quanto as linguagens, compostas de 22 letras, e suas várias permutações, são inteiramente adequadas para acessar a essência de qualquer aprendizagem, os conceitos e permutações das Dez Sefirot são, também, suficientes para explorar e trazer à luz toda a Sabedoria contida no Universo Espiritual.



A partir do estudo das quatro fases de evolução da Luz Direta (zero, um, dois, três e quatro), veremos que são chamadas, respectivamente, de "a ponta da letra Yud", e letras "Yud", "Hey", "Vav" e "Hey". Elas formam HaVaYaH, o impronunciável nome do Criador. 



O que HaVaYaH, o nome do Criador, significa? Esses símbolos contêm informações sobre todo o Universo. Todo o restante acaba sendo interpretações destes símbolos. Se nós os descrevemos como Sefirot, eles terão como correspondentes Keter, Hochmá, Biná, Zeir Anpim (ZA) e Malchut. Mais adiante, dividiremos a Sefirá ZA em seis Sefirot: Hessed, Guevurá, Tiféret, Netzach, Hod e Yessod. Assim, tudo o que temos são as Dez Sefirot.  Keter, a atitude da criação, seguida pelas Sefirot-derivativas, sendo a última, Malchut, a Criação. De acordo com o Zohar, o impulso da Criação, vindo do Criador, desce de Keter a Malchut, enquanto que o impulso da Criação em direção ao Criador ascende de Malchut a Keter, na direção contrária. Tudo o que está incluído nas Dez Sefirot é chamado de Alma ou Partzuf. E é com isso que trabalhamos. 



Não sabemos nada alem disso. Percebemos apenas o que acontece dentro de nós, e a isso chamamos de nossa existência, nossa vida. Baal HaSulam afirma que as combinações das Sefirot, seus diferentes aspectos e as sub-sefirot, usadas parcialmente, são suficientes para descrever todos os estados possíveis, ações e atributos de tudo o que existe entre o Criador e a Criação. 



Na nossa realidade, existem três definições.



De fato, não são três definições, mas limitações, às quais é preciso entender corretamente. Ao nos inclinarmos sobre o Livro do Zohar, passando por estas três limitações, entenderemos o que significam e conseguiremos avançar para níveis mais profundos.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2020

Suor no Rosto (5)



5



Dou-me conta também que a minha paixão pela língua espanhola vem desse tempo, quando o rádio de meu avô transmitia os programas da Rádio El Mondo. Estávamos, então, mais próximos da Argentina que do Brasil. A sonoridade do portenho encanta-me, como a uma cantiga de ninar. Na década de 80, convivendo nos EUA com latino-americanos, me causavam espanto as tantas diferenças fonéticas e a aspereza do falar de outras regiões do continente. Eu não atinava com as causas profundas, as razões telúricas desse meu estranhamento. Tem razão Fernando Pessoa ao afirmar que a pátria é a língua. Pátria que construímos nesses primeiros anos de nossas vidas. Jorge Luis Borges já estava em mim muito antes que eu o conhecesse a sua literatura.



A palavra pátria, por estas razões que só a linguagem conhece, me traz à lembrança uma data especial, de terror e pânico, que vivemos na velha casa da tapera: 29 de agosto de 1961.



Naquele dia, depois de passar semanas ao redor do rádio, tentando, em meio à estática, ouvir os discursos de Leonel Brizola, meu avô não teve dúvidas: ordenou a retirada de todos os filhos e netos da casa da tapera para esconder-nos no mato.



Em seu delírio, ele imaginava, assim, proteger-nos dos bombardeios que sofreria o líder entrincheirado no Palácio Piratini, a quinhentos quilômetros de distância. Eu devia ter contado essa história ao Osvaldo França Júnior, o escritor mineiro que se recusou a levantar vôo da base aérea de Canoas, em 1961, o que evitou que a Legalidade se transformasse numa carnificina. Não contei, e agora não mais posso contar (ele morreu num acidente estúpido, no interior de Minas Gerais, de regresso de uma palestra numa escola), porque eu próprio havia esquecido essa exótica passagem de minha infância, ou porque não a julguei importante, história que hoje mais me parece saída de um romance de Gabriel Garcia Marquez do que de meu próprio passado. Neste instante, ao recuperá-la, concluo que todos os escritores têm histórias familiares fantásticas, mas nem todos são capazes de transformá-las em narrativas convincentes. Com a história familiar que me foi dada eu só não seria escritor se não quisesse.



Lindolfo Lenhardt, pela fisionomia, estatura, magreza e comportamento, poderia ter sido retratado também por Miguel de Cervantes, ou pintado por Gustave Dorée. Faltou-lhe um Sancho Pança, é verdade, mas seus devaneios fizeram a alegria e a tristeza da família de minha mãe por muitos anos.



Aos 95 anos, meu avô ainda dava muito trabalho à tia Traudi, com quem viveu até morrer, em Três de Maio, porque queria casar-se com uma vizinha, cinqüenta anos mais jovem, e viúva também.



“Não repara, teu avô é meio tico-tico, gosta de ciscar em quintal alheio”, ouço Vilma murmurar.



Fecho os olhos outra vez e sou inundado não só pelo cheiro da despensa, o agridoce aroma da colônia, mas também pelo significado da magnífica passagem de Em busca do tempo perdido, em que Marcel Proust nos diz: “Quando mais nada subsistisse de um passado remoto, após a morte das criaturas e a destruição das coisas – sozinhos, mais frágeis, porém mais vivos, mais imateriais, mais persistentes, mais fiéis – o odor e o sabor permanecem ainda por muito tempo, como almas, lembrando, aguardando, esperando, sobre as ruínas de tudo o mais, e suportando, sem ceder, em sua gotícula impalpável, o edifício imenso da recordação”.


domingo, 5 de janeiro de 2020

Introdução ao Livro do Zohar (1)




INTRODUÇÃO AO LIVRO DO ZOHAR

VOLUME DOIS

O SEGREDO ESPIRITUAL DA CABALÁ

(Textos originais: Rav Yehuda Ashlag. Comentários: Michael Laitman. Tradução de Maria Carolina Ribeiro até o Ponto 17; a partir do ponto 18, tradução de Tati Frantz; Copidescagem e revisão de Charles Kiefer)



Por muitos séculos, a sabedoria da Cabalá esteve inacessível a qualquer um que não lesse em hebraico. Agora, pela primeira vez na historia do mundo ocidental, leitores de outros idiomas comprometidos com a Cabalá têm a oportunidade de aprender essa Sabedoria através do maior cabalista do século XX, Baal Ha Sulam. Neste texto, os estudantes encontrarão uma apresentação sistemática e qualificada da Cabalá, diferente de todos os outros textos disponíveis. Este texto vem com comentários de Michael Laitman, um cientista e cabalista que recebeu a Tradição da Cabalá a partir da linhagem que inclui Ari, Baal Há Sulam e seu filho Rabash, professor do Laitman.

Introdução ao Livro do Zohar será, certamente, uma companhia constante do leitor em sua exploração dos Mundos Superiores por muitos e muitos anos. Aproveite.



PREFÁCIO AO LIVRO DO ZOHAR

(Baal Ha Sulam)

 1. A profundidade da sabedoria e da ciência contida no Livro do Zohar está oculta atrás de mil portões fechados.

Comentário de Michael Laitman: Por que "oculta atrás de mil portões fechados?" De fato, não há nada oculto, ninguém esconde nada; tudo existe dentro do sistema das leis naturais da criação. Diferentemente deste nosso mundo, no espaço espiritual não há uma chave que abra portas. O mundo espiritual é completamente aberto; uma pessoa apenas avança de um nível espiritual para outro e deixa um reino para entrar em outro ao modificar seus próprios atributos. 

Em nosso mundo, um objeto pode mover-se por deslocamento mecânico, ao passo que no mundo espiritual é preciso que se faça um movimento interior para ir de um lugar a outro. Isto é o que se entende por "portão fechado"; enquanto o indivíduo limitar-se a um lugar, o seguinte manter-se-á oculto, "fechado" para ele.

O que pode ser feito para que se abram as portas? Mudar em si algo que traga harmonia, que entre em conformidade com o espaço onde se anseia entrar. E, então, entrar. Muito simples.

Tudo existe dentro do homem. Ao acessar interiormente suas capacidades, qualquer um pode, facilmente, mover-se no espaço espiritual, partir do presente, chegar ao infinito perfeito e fundir-se com o Criador.

Toda sabedoria de como se avançar no mundo espiritual encontra-se no método cabalístico. Então, vejamos. É dito que "a profundidade da sabedoria está oculta atrás de mil portões fechados". Não está oculta atrás de nenhum portão externo, físico. Todas as portas e todas as chaves estão dentro de nós. Realizar ações espirituais de correção pessoal e abrir as portas com nossas próprias chaves é o nosso método. É este o propósito do estudo do Livro do Zohar e da sabedoria da Cabalá como um todo. 

A linguagem humana, por ser pobre e limitada, não nos serve nem como uma ferramenta adequada nem como um meio de expressão suficiente para desvelar todos os significados contidos em cada sentença do Zohar. 

Comentário de Michael Laitman: Até mesmo a mais curta frase do Zohar, que pode parecer muito clara numa primeira leitura, para ser corretamente interpretada dependerá do nosso nível, do nosso recebimento no momento da leitura. Desenvolvendo gradualmente nosso potencial espiritual, adaptando-nos a diferentes leis e atributos espirituais, começaremos a descobrir grande profundidade em cada frase e sentença do livro do Zohar, diferente do que conseguimos captar num primeiro momento do estudo. Uma percepção mais profunda depende, apenas, do nível de recebimento.

Minhas explicações são apenas degraus de uma escada.

Comentário de Michael Laitman: A estrutura dos comentários (feitos para o Livro do Zohar) se assemelha a uma escada. O que não significa que o primeiro volume do livro seja destinado aos iniciantes e o último aos estudantes mais avançados. Cada palavra, cada sentença inclui diferentes níveis espirituais de entendimento, em todos os fatos e estados ali descritos.

O texto é composto de maneira que o leitor desvele gradualmente os significados e consiga, aos poucos, ver todo o quadro. O estudante deve, apenas, procurar descobrir alguma mensagem espiritual contida no texto. Algo que todas as pessoas podem vir a entender num primeiro estágio. Mas, este começo, este sintonizar-se, já é suficiente para que o livro comece a afetá-lo. 

Eu pretendia ajudar os estudantes a atingirem o máximo de recebimentos, a atingir as alturas, de onde eles poderiam ver e investigar o que o Zohar expõe por si só. Por esta razão, neste prefácio, acho necessário preparar o estudante interessado no livro do Zohar, fornecendo a ele definições corretas, demonstrando como estudar o livro para aprender com ele. 

Comentário de Michael Laitman: Em outras palavras, o objetivo de se estudar o Zohar é alcançar os Mundos Superiores, sentir e controlar os espaços, começar a viver não apenas dentro dos limites desta nossa realidade, mas dentro de um plano maior, eterno e perfeito.


sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

Suor no Rosto (4)



4


Fecho os olhos por um instante e sinto o ar rarefeito e gelado da despensa da velha casa da colina, casa que Vilma, minha avó materna, tanto amou, e da qual só se afastou para morrer. É um cheiro quase doce, a emergir do edifício imenso da recordação, uma mistura complexa, acidez de vinagre, gordura animal, linóleo, cravo e manjericão. Às vezes, o cheiro de um lombo de porco assado em alguma casa da vizinhança me transporta ao passado e me revejo, na companhia de meus tios, roubando pedaços de carne das latas de banha, porções que comíamos frias, e escondidos. Vilma, à noite, na hora do banho de gamela, com seu faro de perdigueira, percebia o que tínhamos feito, mas não nos denunciava ao patriarca.



Antes do advento da luz elétrica às terras do interior, a lata de banha substituía com eficiência a geladeira. Nela se colocavam nacos de carne pré-cozida, que ali podiam ficar imersas na gordura, sem risco de degradação, por muitos meses. Um costume milenar, que foi usado pelos povos mais antigos da terra, e que perdurou até a década de setenta do século passado em minha região, quando os ventos da modernização urbano-industrial varreram o velho mundo imigrante. Ventos que varreram também, e sem piedade, as casas de minha infância.



A cozinha colonial, de origem alemã, constituía-se, àquele tempo, basicamente, de feijão, arroz, carne suína e seus derivados, frutas e verduras. Nas festas de casamento, e na família de minha mãe foram muitas, havia também carne de rês, assada ao modo antigo, em espetos de pessegueiro ou açoita-cavalo sobre braseiros em terra cavada. Por conta dessa dieta ampla e consistente, os colonos do Alto Uruguai não conheciam os malefícios da desnutrição, e a taxa de mortalidade infantil era baixíssima. Como se sabe, a carne de porco cozida – frita ou assada –, a banha e o torresmo, as morcilhas brancas e as morcilhas de sangue, as copas, os salames e as salsichas são alimentos altamente calóricos, mas nem por isso havia obesidade na família Lenhardt. Em primeiro lugar, porque só se comia o necessário; e, em segundo, porque o trabalho braçal nas lavouras de milho e soja consumia qualquer excesso energético.



Vilma, apesar de ter parido treze vezes, e longe de médicos e hospitais, jamais perdeu um filho, nem mesmo Paulo, o caçula, que teve a testa perfurada por um cartucho de espingarda, numa tarde de domingo. Vi esse tio, que eu carregara muitas vezes no colo, cair ao meu lado feito um galho de árvore, estatelado, duro, como que morto, num dia em que eu visitava meus avôs. Mais adiante, conto melhor essa história.


São tantas as casas que me visitam em meus devaneios memorialísticos, a casa da tapera, a casa da colina, a casa da cadela, a casa velha sem reboco, a casa de salpique verde, a casa da ponte, a casa da tempestade, a casa da bicicleta quebrada, a casa do armazém e a casa do velório, mas da casa em que nasci nada recordo, e dela não sobraram mais que os vestígios de uma calçadinha de tijolos, localizada próximo do eucalipto sob o qual se sentava, todas as tardes, o meu avô Bernardo, a sofrer, interminavelmente, de um reumatismo que eu herdaria, e a ensinar-me, em silêncio, que as coisas são o que as coisas querem ser. Pelo deslocamento das nuvens, sua direção e velocidade, ele vaticinava os aguaceiros e os temporais, com três dias de antecedência. Muitos anos depois, sentado eu às margens do Rio Iowa, no meio oeste norte-americano, ouvi de um índio, em inglês, o que meu avô dizia em português: Don´t push the river”. Eu queria, naquelas intermináveis tardes yankees, que o tempo passasse mais depressa, para que eu pudesse regressar logo a Porto Alegre e a minha gente, mas o tempo só passa depressa quando se está feliz. E era quando devia ser lento, espesso, paquidérmico. Enfim, as coisas são o que as coisas querem ser, não adianta empurrar o rio. Esta máxima, falsamente conformista, eu a ouvi também de um grande professor de estética, quando ainda se estudava isso nas faculdades de letras, o Odone Quadros. O velho mestre, herdeiro da antiga tradição ética, não se furtava de declinar a fonte de seu idealismo fatalista: Luigi Brentano. Mas cumpramos aqui o recomendado pelo escravo frígio, no palíndromo dos palíndromos, que diz, em latim: Sator arepo tenet opera rotas. O lavrador mantém o arado no seu curso. E o colono em mim, que não morreu, procura manter certa linearidade no relato, mas aplicando aqui a fórmula de Fibunacci: retorno sempre ao mesmo lugar, mas acima, numa espiral ascendente que se perde no Ayin Sof, Sem Fim, ou mais vulgarmente conhecido como Infinito. Retornemos, pois, à verga de minha infância, ao caudal mais fundo e flexível, às águas mais densas.



O desejo de ascensão social fez de meu pai um verdadeiro cigano, a morar em muitos lugares em busca de uma vida melhor. Talvez venha daí a sensação que tenho de que não passo de visita, de que estou sempre de passagem. Trago, impressa em meus genes, a síndrome do imigrante: a eterna esperança de encontrar a terra prometida (que não se alcança nunca) e a saudade irredimível da terra natal (que nunca se teve). Sei que esse estar-entre, esse ser-em-viagem, essa angústia do deslocamento só se pacifica com a morte. Por que na morte, ou na Luz, como alguns preferem chamar, o tempo, o espaço e o movimento deixam de existir, e tudo se transforma numa cálida, aprazível e infinita Presença, mas uma Presença Absoluta, que talvez fosse melhor denominar de consciência. Ou alma. O cognato alma vem de Animus, Anima, em latim, e que significa “o que anima”. Na Kabbalah, alma é uma estrutura complexa, a que chamamos de Naranchay, que é um acrônimo, composto de Nefesh, Ruach, Neshamá, Chayá e Yechidá. Mas voltemos à palavra em nosso idioma, para não complicar demais as coisas. Em hebraico, alma seria nefesh, força vital. Em sânscrito, atman. E em grego, psykhé. Que também significa borboleta. Os filósofos-cabalistas gregos foram grandes poetas. É de uma delicadeza extraordinária e de uma precisão cirúrgica chamar o “Ohr em nós” de borboleta. Linda, frágil e inquieta. E capaz de transformações estupendas. A pesada e lenta lagarta se transforma em leve e ágil borboleta. Na morte, somos capazes de entender o que Moisés ouviu da Sarça Ardente: Eyeh Asher Eyeh. Sou o que sou.



 O ser-em-viagem em mim gosta de quartos de hotel, de pensões, de hospedarias de estrada porque sei que eles não me apegarei e que deles recordarei apenas instantes, acrescentados já à grande caravana de pousadas em meu caminho. Das casas oníricas, no entanto, casas compostas de ilusões e sonhos, de cheiros e sabores, chegam-me fluxos indescritíveis de sensações e de lembranças, e é nelas, nessas casas de vento, que encontro a paz da verdadeira intimidade. Esse é o meu espaço, onde posso enrodilhar-me sobre mim mesmo e descansar.



Contar clareia, disse o personagem principal de meu romance Quem faz gemer a terra. Talvez, e aos poucos, a luz do verbo ilumine os cantos escuros de meu passado. Das paredes que ouviram meu primeiro grito, tenho apenas informações de terceiros, especialmente de minha mãe. Não restaram em mim sequer fragmentos desses instantes inaugurais da existência. Sei que estão gravados em algum lugar do cérebro, formaram sinapses, mas jazem soterrados agora por camadas e mais camadas de entulhos.



A casa primeira e mais sólida, porque mais simbólica, e que mergulha nas profundezas de meu psiquismo, ou da borboleta que se agita em mim, é a casa da tapera, assentada sobre quatro sólidos cepos de guajuvira. Se eu quisesse construir uma alegoria simples e maniqueísta poderia dizer que esses pares de troncos decepados eram Lindolfo e Vilma, do lado materno, e Bernardo e Regina, do paterno. O Kiefer que trago no nome é uma espécie de pinheiro selvagem, madeira com que se fazem móveis na Alemanha. Mas Kiefer também significa maxilar. Assim, me apraz imaginar que sou uma estranha mistura de osso e tronco, rijo, rígido, difícil de vergar, mas talhável, se o formão estiver em mãos hábeis e pacientes. Por outro lado, eu próprio fui me marchetando, podei os meus excessos, alisei os meus nós, escondi os veios mais salientes. Ainda hoje, embora mais enfeitado e mais comedido, se agredido ou injustiçado o núcleo de osso e cerne se revela. Dissociaram-se, em mim, o camponês e o professor? Um estava no outro – caroço na fruta? Ou no tronco antigo enxertou-se um ramo exótico, que produziu fruta nova?



Da casa da tapera o que tenho ainda na memória é o potreiro, a mesa de madeira falquejada, o fogão à lenha que nos aquecia nas noites de inverno e, especialmente, a lembrança do som do vento fazendo ranger os taquarais, dias e noites. Rangido triste e comprido, que só findava nas noites paradas, que anunciavam as tempestades.



Para se chegar a essa casa, egresso da cidade, era preciso percorrer, já em terras do meu avô, uma estradinha de chão batido, úmida e fresca, que atravessava uma floresta composta de canjaranas, cedros, louros e ipês, dentre as tantas árvores nativas de meu torreão natal. Nessa mata sobreviviam ainda gatos-do-mato, jaguatiricas, bichos-preguiça e tucanos, e uma infinidade de outras aves e animais de pequeno porte, que seriam extintos depois, com o advento das lavouras de soja. Com freqüência, vínhamos de Três de Maio, eu, minha mãe e Lola, minha irmã, para passarmos os finais de semana com meus avôs. Meu pai, que mantinha relações difíceis com os familiares de mamãe, não nos levava até a casa da tapera. Deixava-nos a uns dois ou três quilômetros de distância, no estradão, e partia em seu reluzente Studebacker, automóvel que emprestei para o pai de Circe Brechen, em meu romance Os ossos da noiva e que ele enterrou, num duplo delito, incriminando o negro da história, e roubando-me uma das imagens mais poderosas de minha infância. Aquele automóvel inglês de muitos cavalos ainda há de passear, garboso, por outra história minha, se algum dia eu voltar a fazer ficção. E o que estou fazendo aqui? Ficção, do latim, fingus, finx, fingere. O passado está morto. Na PUC, onde ensinei Escrita Criativa, lembrava sempre aos meus alunos que um dos sentidos da palavra ficção é “pentear os cabelos”, “afeitar”. O passado está morto e estendido no chão. Esgrouvinhado, amarrotado, amassado. E descabelado. Agora, faço o que fazem os preparadores de cadáveres das funerárias, maquiagem.



Percorríamos, nós três, minha mãe, minha irmã e eu, o trajeto a pé, cantando, contando histórias, para espantar o medo. Minha mãe era, e ainda é, uma mulher alta, bonita e determinada. Nas fotos com as amigas de juventude, está sempre sentada, para não sobressair-se demais, para não ofendê-las com a desproporção. Eram tempos de delicadezas sutis, de gestos solidários e dignos. Como as canafístulas e as canjaranas, esses atos de civilidade sumiram do mapa, mas podem ser replantados, basta que o desejemos. Nós somos o que é a nossa sociedade e a nossa cultura, e não há escusas. Não são os outros, os mal-educados. Não são os outros, os corruptos. Não são os outros, os violentos. Somos nós, nós mesmos.



Daquela floresta tirei o nome para a minha cidade-símbolo, a Pau-d´Arco de tantos livros, de tantas misérias e grandezas. Mas Pau-d´Arco é apenas isso, um dos nomes do ipê-roxo. E, na minha obra, o nome é uma homenagem às árvores de minha infância, que foram substituídas por uma leguminosa rasteira, mas lucrativa, a soja, que hoje faz a alegria dos exportadores.



As paredes da casa da tapera eram de pinho. Com o passar dos anos, os nós das tábuas afrouxavam e caíam, deixando buracos. No inverno, esses vazios eram tapados com chumaços de pano ou de palha de milho, mas, no verão, eram reabertos para permitir a circulação de ar. Nas casas dos colonos pobres, a lata de banha substituía a geladeira; as labaredas no fogão, as telenovelas; e os buracos nas tábuas, o condicionador de ar.



Recordo a casa da tapera já recoberta de um musgo suave, quase uma poeira acinzentada, manchada pela intempérie, mas que havia sido azul, segundo minha mãe, que a pintou aos doze ou treze anos. Não sei como nem por quem foi construída, mas participei de sua destruição, em 1965, quando a família mudou-se para a casa de alvenaria, no alto da colina, às margens do estradão.



Dessa casa da tapera restaram farelos desconexos de memória, súbitas iluminações, temporalidades que se sobrepõem. São sensações vagas, cheiros, texturas, imagens, que se misturam a lembranças de outras casas. A escada de acesso, ao contrário do que eu imaginava, ficava nos fundos, segundo a minha mãe. A porta da frente, por causa do desnível do terreno, não necessitava de degraus, ela me corrigiu. Talvez os cepos de sustentação não fossem quatro, mas três. Talvez apenas dois, já que o próprio barranco podia servir de escora. O teto, na minha lembrança, não tinha forro, e tinha. As vigas expostas que enxergo são de outra residência. Para mim, eram muitos os quartos de dormir, para abrigar tantos filhos. No entanto, havia só quatro: o dos meninos, o das meninas, o do casal e o de hóspedes. Do aparelho de rádio eu me recordo muito bem. Ficava no canto da sala, próximo a uma janela. Os estalidos de extática, secos, que fazia ecoam ainda em meus ouvidos. Imagino, passados tantos anos, o quanto devia ser difícil captar as emissões que vinham de Ijuí e de Cruz Alta, cidades que possuíam torres de transmissão, mas que ficavam a centenas de quilômetros de distância. Agora, ao escrever tudo isso, num insight impressionante, vem-me à memória a figura de meu avô, agastado com um temporal que derrubou a antena que ele colocara na cumeeira do galpão.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

Suor no Rosto (3)


 3

Lindolfo Lenhardt, meu avô materno, havia sido músico em sua terra natal. Trompetista de banda, artista de bailes, festas e quermesses. Com suas performances, economizou dinheiro suficiente para comprar uma colônia de terras no Distrito de Caravaggio, a seis quilômetros da cidade de Três de Maio. Terras que quase nada valiam, recobertas por florestas infestadas de animais e formigueiros.



Quase ao mesmo tempo, meu avô paterno, Bernardo Augusto Kiefer, que também fora músico em Cachoeira do Sul, e plantador de fumo, comprou um salão de bailes no Distrito da Consolata, a quatro quilômetros de distância das terras da família de minha mãe, e um pouco mais distante da cidade de Três de Maio. Anos mais tarde, em 1950, praticamente faliu, porque os católicos foram proibidos de freqüentar os salões de baile por ordem do Papa. Vendeu, então, a casa de diversões e se tornou proprietário de uma pequena olaria, que existe ainda hoje e que me forneceu o barro para a construção de Valsa para Bruno Stein.



"Tijolo e pão o mundo sempre irá precisar", ele dizia, ensinando-me as primeiras noções de sobrevivência e de comércio.



De um lado, herdei notas de flauta e de trompete; e de outro, acordes de violão e de violino. Meu pai e minha mãe foram cantores de rádio, antes de meu nascimento. Só não me tornei músico porque a fumaça de cigarro nos salões de baile, única alternativa profissional para um músico em minha terra natal, me impediu. Sou alérgico, reativo a fumaças, pós e polens. Ainda hoje, para serenar o espírito, ou para entreter as filhas, dedilho um violão e canto. Sofia é boa pianista e boa desenhista. Um dos significados de seu nome é o de “fazer bem com as mãos”. Anna, que ainda não fala e nem caminha, já balança o corpo ao ouvir alguma melodia. Eu e ela passamos horas vendo e ouvindo clipes musicais. Mas, ao lutar com as palavras, tento transferir para a linguagem escrita o timbre, o ritmo e a harmonia das notas musicais bem dispostas no pentagrama. Faço e refaço os meus textos tantas vezes quantas forem necessárias para conseguir a fluidez e a falsa simplicidade do solista. Sei que ninguém mais se importa com isso, mas escrevo, na verdade, para mim mesmo; sei que o texto medíocre e superficial é o que vende mais, o que mais agrada às multidões de bárbaros, mas essa é a minha última – e hoje única – trincheira. Procurei sempre transferir aos meus alunos essa concepção radical de arte literária.  



Meu avô Lindolfo era “católico, apostólico e romano”, como gostava de dizer. E meu avô Bernardo, era de “confissão luterana”, ele também gostava de dizer. A igreja do primeiro era enorme, deslumbrante, e a do segundo, pequena, e de uma simplicidade constrangedora. Levei muito tempo para compreender as grandes diferenças entre as duas famílias que me constituíram. Meu pai, protestante, teve apenas um irmão e uma irmã. Minha mãe, católica, teve nove irmãos e três irmãs. Por muito tempo, imaginei que Regina, a mãe de meu pai, fosse pouco fértil. Depois de ler Max Weber, na adolescência, e de ter começado a compreender a ética protestante e o espírito capitalista, perguntei-lhe como mantivera tão reduzida prole. “Com o chá dos bugres”, respondeu-me, com a sinceridade seca que também me persegue. Morreu recentemente, com mais de cem anos.



Vivi a infância mais perto da família católica, e a adolescência mais perto da família protestante. As diferenças me assombravam e nunca consegui fazer a síntese entre as duas visões de mundo. Ainda hoje, uma parte de mim se encanta com a missa do galo e sua pompa; a outra, não se submete a nenhuma autoridade, não aceita o fausto. Uma parte acumula; a outra, culpada, inventa filantropia. O cético, em mim, não desdenha da fé; o crente não prega. E ambos observam com perplexidade a guerra entre ciência e religião. Ao encontrar a Fonte dessas duas visões de mundo, descansei. Agora, posso afirmar com serenidade aos meus alunos de Kabbalah: “Não acreditem em nenhuma das minhas palavras. Façam os exercícios e experimentem vocês mesmos”. Kabbalah, para quem não sabe, é a Ciência do Recebimento. 

quarta-feira, 1 de janeiro de 2020

Shamati (9)







9. Quais são as três coisas que ampliam a mente de alguém durante o Trabalho?



(Escutei em Elul, em agosto de 1942)



O Sagrado Zohar interpreta a seguinte frase que nossos sábios escreveram: “Três coisas ampliam nossa mente: uma bela mulher, uma bela morada e belos Kelim (vasos)”. Quando diz “uma bela mulher” refere-se à Sagrada Shekiná (Divindade). “Uma bela morada” é o coração, e “belos Kelim são os órgãos.



Precisamos explicar que a Sagrada Shekiná não pode se manifestar em sua verdadeira forma, que é um estado de graça e de beleza, exceto quando a pessoa possui belos Kelim, que representam os “órgãos” recebidos do coração. Isto significa que a pessoa deve, em primeiro lugar, purificar seu coração para transformá-lo numa bela morada, anulando o desejo de receber para si mesmo, e acostumando-se a trabalhar em ações que em sua totalidade estejam governadas pela finalidade de outorgar. Dessa forma, são obtidos belos Kelim, isto é, que seus desejos, chamados Kelim, foram purificados da recepção para si mesmos. Agora, ao contrário, são puros e discernidos como outorgamento.



No entanto, se a morada não é bela, então o Criador declara: “Ele e Eu não podemos habitar embaixo do mesmo teto”. A razão disso é que deve haver equivalência de forma entre a Luz e o Kli (vaso). Desse modo, quando alguém assume e aceita a fé na pureza, tanto na mente quanto no coração, é recompensado com uma bela mulher, que se refere à Sagrada Shekiná, manifestando-se diante dele em graça e beleza. E isso amplia a sua mente.



Noutras palavras, através do prazer e do regozijo, a Sagrada Shekiná manifesta-se em suas entranhas, enchendo os seus Kelim externos e internos. Isso se obtém através da inveja, da luxúria e da honra que “afastam a pessoa do mundo”. Ao falar de inveja, refere-se à inveja a respeito da Sagrada Shekiná, relacionada com o ciúme, no mesmo sentido da frase “O ciúme do Senhor das Hostes”.  A honra significa que a pessoa deseja incrementar a Glória dos Céus. E a luxúria se diz em virtude de “Haveis escutado o desejo dos humildes”.

Shamati (137)

    137. Zelofeade estava coletando madeira (Ouvi em Tav - Shin - Zayin , 1946-1947)   Zelofeade estava coletando madeira. O Zohar i...