domingo, 9 de fevereiro de 2020

Introdução ao Livro do Zohar (20)




20. Assim, descobrimos que o recebimento do primeiro nível, que é a intensidade do desejo de sustentar-se, e do segundo nível, que é o grau de desejos animais que ultrapassam o desejo básico de sustentar-se, são, para o homem, recepção e alimento nos níveis mineral, vegetal e animal, que estão abaixo do nível do próprio homem.



Se tenho desejos por comida ou prazeres sexuais (que são dois tipos básicos de prazer que o corpo exige), então eu recebo este alimento de objetos que estão abaixo do meu próprio nível, ou seja, dos níveis mineral, vegetal e animal. Se busco fortuna, eu também dependo do nível mineral (dinheiro). Se procuro poder e fama, então eu preciso de pessoas como eu mesmo, isto é, do nível humano. Se tenho sede de conhecimento, recebo prazer de um nível mais alto e que é novo para mim, assim como o é para muitas pessoas. Então minhas aspirações são consideradas espirituais neste mundo.


sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

Introdução ao Livro do Zohar (19)



19. Agora explicarei a terceira restrição. Embora O Zohar examine cada Mundo apenas sob a perspectiva das Sefirot, que são as iluminações da Luz Superior nesses Mundos, e de cada componente dos níveis mineral, animal e falante as criações de cada um dos Mundos , o principal objeto de investigação é, todavia, o nível humano (falante) de cada um dos Mundos.



Baal HaSulam diz que O Zohar engloba tudo o que se encontra nos Mundos Espirituais. Mas diferentemente do que o livro aborde (seja a Luz dentro do Kli ou o próprio Kli), os níveis de existência mineral, vegetal e animal nunca serão tratados separadamente, pois essa não é a sua função.



Tudo o que está escrito no Livro do Zohar diz respeito somente ao homem, isto é, às almas humanas, a maneira como essas almas são servidas ou como elas servem a outras entidades espirituais da Criação.



É possível refutar esse argumento dizendo que deve haver milhões ou bilhões de criaturas, forças, propósitos e ideias no Universo. E isso está correto, mas O Zohar não fala disso. E não fala porque, a fim de investigar tais manifestações, é preciso elevar-se acima do nível do Livro do Zohar, ou seja, ultrapassar objetivo do livro.



O objetivo do Zohar é bem concreto e pode levar-nos à Correção Final. Nosso caminho muda totalmente depois disso. Nós continuaremos a explorar o Universo com nossas propriedades corrigidas, mas essa investigação é impossível de descrever nos livros, pois palavra alguma, seja falada ou escrita, é capaz de expressá-la.



Portanto, O Zohar aborda exclusivamente o que é pertinente às Almas, isto é, o que deve ser corrigido no momento presente. O resto não nos diz respeito.



Consideramos que um homem neste mundo precisa receber alimento de todos os quatro níveis (mineral, vegetal, animal e falante) deste mundo a fim de crescer. Até no alimento que comemos existem quatro ingredientes, provenientes dos quatro degraus, que são uma consequência dos quatro degraus presentes no seu corpo (mineral, vegetal, animal e falante). Estes são:



      O desejo de receber a fim de sustentar-se;

      O desejo de receber além da necessidade de sustentar-se, a procura por prazeres adicionais, mas sendo capaz de restringir os desejos mais animalescos;

      O anseio por prazeres proporcionados pela sociedade, tais como respeito e cargos de liderança;

      A aspiração pelas ciências.



Geralmente, dizemos que o homem consiste de quatro níveis de desejo: desejo por prazeres corporais, riqueza, poder, fama e conhecimento.



      O desejo de receber para sustentar-se, corresponde ao nível mineral de desejo;

      O desejo de receber nas necessidades animais é o nível vegetal de desejo, que é aquele desejo de receber que nos é dado a fim de incrementar e preencher o próprio prazer do vaso carne (basar) do corpo;

      O desejo por prazeres humanos, que correspondem ao nível animal de desejo;

    A aspiração pelas ciências, que é o nível falante (humano) de desejo.


quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

Introdução ao Livro do Zohar (18)




18.  O que explicamos sobre os quatro Mundos de ABYA é, em geral, verdadeiro no que diz respeito a cada um dos Mundos. Assim como também o é em relação a todo componente presente em cada um deles, tal como ocorre na Cabeça (Rosh) do Mundo de Atzilut, ocorre também no Fim (Sof) do Mundo de Assiyá. Isso é assim porque cada degrau (estado) da Escada dos mundos de Assyá, Yetzirá, Beriá e Atzilut consiste de Dez Sefirot.



Não mencionamos Keter porque ela é a fonte da Pura Luz. Cada nível, cada recebimento, consiste de Dez Sefirot: Keter, Chochmá, Biná, ZA e Malchut. A Sefirá de Chochmá existe como Forma, e Biná, Tiferet e Malchut, como a Matéria na qual a Forma se veste. Isso também manifesta as primeira e segunda restrições ou definições, cujos elementos O Zohar analisa. Do mesmo modo, a Sefirá de Chochmá, quando está sem Biná, Tiferet e Malchut, é Forma livre da Matéria… Ou seja, quando falamos sobre como a Ohr Chochmá (Luz de Chochmá) se manifesta em Biná, Tiferet e Malchut, é do mesmo modo que a Forma se manifesta na Matéria. Se falamos somente dos mundos de Beriá, Yetzirá e Assiyá, ou sobre as Sefirot de Biná, Tiferet e Malchut, sem levar em conta onde elas estão, então nos referimos apenas à Matéria. É possível falar sobre isso, assim como é possível falar sobre a Luz que corrige os Kelim (pois é a Forma assumida pela Matéria), ou ainda sobre os próprios Kelim nas suas Formas corrigida e não corrigida. Entretanto, é absolutamente impossível falar sobre a Luz que está fora dos Kelim, quanto mais imaginar a Essência, que está ainda mais acima. Não temos os meios para falar sobre o Criador Ele Mesmo, a Fonte da Luz. Baal HaSulam escreve: "Não pense que encontrarás esses problemas somente quando alcançares altos níveis de recebimento. Eles aparecem até em níveis relativamente baixos do Mundo de Assiyá...". Ele diz que cada nível, por mais baixo que seja, possui suas próprias Sefirot de Keter, Chochmá, Biná, ZA e Malchut, dentre as quais Biná, ZA e Malchut constituem a Matéria; e Chochmá, a Forma; Keter, a Forma Abstrata, é a Essência que está acima de todas. Portanto, não mencionamos o que ocorre em Keter, pois ela está acima, no nível do Pensamento do Criador. E isso nós apenas alcançamos depois da Gmar Tikun. Também não mencionamos a Forma dissociada da Matéria. Falamos sobre Beriá, Yetzirá e Assiyá (Biná, ZA e Malchut), ou sobre a Forma (Luz) vestida nessa Matéria. Em outras palavras: ou falamos sobre nossos Kelim, nossos desejos (Biná, ZA e Malchut) ou, na medida em que são corrigidos, sobre a Luz que os preenche.



Assim, vemos como O Zohar é prático. Baal HaSulam dedica boa parte da sua obra a este assunto, e iremos discuti-lo enquanto lemos este livro, pois o correto direcionamento ao Objetivo depende disso.


quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

Introdução ao Livro do Zohar (17)




17. A segunda restrição será explicada do mesmo modo. Saiba que, assim como explicamos os quatro tipos de conhecimento em apenas um componente do Mundo de Beriá, o mesmo também se aplica, no geral, aos quatro Mundos de ABYA, nos quais as cores vermelha, verde e preta dos três Mundos de BYA são Matéria e Essência. O branco do Mundo de Atzilut é Forma transformada em Matéria, isto é, nos três mundos chamados BYA. O Mundo do Infinito, como tal, é Essência.



O Mundo do Infinito representa a Essência (como sabemos, o Mundo do Infinito inclui o Mundo de Adam Kadmon) e é seguido pelos Mundos de Atzilut, Beriá, Yetzirá e Assiyá. O Mundo de Atzilut constitui a Forma Abstrata, e o Mundo de Beriá é a Matéria na qual essa Forma é vestida. Atzilut é acromático, Beriá é vermelho, Yetzirá é verde, e Assiyá é preto.



No início do nosso estudo sobre "O Prefácio ao Livro do Zohar", dissemos que não estudamos o Mundo de Atzilut, somente o de Beriá, Yetzirá e Assiyá, já que é onde as Almas estão. Referimo-nos a Atzilut apenas à medida em que os Mundos de BYA elevam-se até lá, ou, colocando de outra forma, à medida que Atzilut brilha dentro dos Mundos de BYA. Além disso, não mencionamos os Mundos de AK ou do Infinito.



Como dissemos na primeira restrição, a essência está além do nosso alcance, ela é o quarto tipo de conhecimento que cada ser criado encerra dentro de si mesmo, inclusive dentro dos seres do nosso mundo. A cor branca é branca em si mesma, não está "vestida" em nenhuma das três cores dos três Mundos de BYA, ou seja, a Luz de Chochmá não está "vestida" em Biná, Tiferet e Malchut, mas é uma Forma Abstrata, que ignoramos.



Se alcançamos nosso mundo a partir do nosso interior (e certamente o fazemos), devemos sempre lembrar que apenas estudamos a Matéria e a Forma vestida na Matéria. Entretanto, quanto mais profundamente avançamos, mais propriedades interiores ocultas permanecem inalcançáveis. E podemos apenas imaginá-las, pois é impossível alcançá-las antes da Correção Final.



O Zohar trata unicamente da nossa ascensão ao Mundo de Atzilut através dos Mundos de BYA, enquanto que a Correção Final (Gmar Tikun) ocorre no Mundo de Atzilut. O Livro do Zohar não aborda a ascensão ao Mundo do Infinito, depois da Gmar Tikun, nem os chamados oitavo, nono e décimo Milênios.



Portanto, sempre estudaremos a Matéria e sua Forma, enquanto que a Forma Abstrata e a Essência permanecerão inalcançáveis, pois a nossa correção em todos os níveis será sempre parcial. Ainda que determinada reshimó apareça em nós e a corrijamos, essa correção sempre será limitada e fragmentada.



Permita-me explicar como isso funciona. Presume-se que existem Dez Sefirot, de Keter a Malchut. Se tiramos Malchut de cena e paramos de receber a Luz que desce até nós (e que tenciona preencher Malchut), consequentemente não conseguimos receber a Essência. Além disso, quando não trabalhamos a partir de Malchut, mas a partir de Yesod, alcançamos apenas as primeiras nove Sefirot de cada Sefirá e somente as alcançamos com a intenção pelo propósito de doar. Assim, é dito que utilizamos parcialmente Yesod, pois apenas uma parcela do Kli chamada VAK é utilizada, enquanto que GAR permanece inativa, então ainda outro recebimento (percebido como Forma Abstrata) é suprimido. Recebemos GAR de VAK na Gmar Tikun e, depois disso, recebemos GAR de GAR.



Há quatro tipos de recebimentos, mas no momento apenas dois deles são possíveis para nós. Por isso, é importante saber o que podemos e o que não podemos considerar como evidente.



Nada disso é abordado no Zohar. Ele trata apenas do primeiro tipo de recebimento, ou seja, as três cores de BYA, consideradas Matéria e que representam as três Sefirot: Biná, Tiferet e Malchut. O Zohar também trata do segundo tipo, que representa a iluminação do Mundo de Atzilut "vestida" nas três cores de BYA. Isto é: a Luz de Chochmá "vestida" em Biná, Tiferet e Malchut a forma na qual ela "veste" a si mesma em Matéria. O Livro do Zohar examina apenas esses dois tipos.



Logo, se o aluno não estiver completamente consciente de que, enquanto estiver estudando o Zohar, seus pensamentos e compreensão deverão permanecer dentro dos limites desses dois tipos de conhecimento, ele imediatamente ficará confuso sobre todas essas questões, pois ele não será capaz de associar as palavras ao seu verdadeiro significado.



Ou seja, se durante os nossos estudos não percebermos claramente que trabalhamos apenas com Formas concretas vestidas em Matéria, perderemos tudo o que o Zohar tenta explicar. Baal HaSulam nos alerta para não cairmos nessa armadilha.



Uma dúvida surge aqui: É realmente possível cumprir o que o Zohar descreve? Posso mesmo controlar a mim mesmo? Posso ver a mim mesmo como alguém que compreende claramente todas essas questões durante o estudo? Alguém que consegue distinguir precisamente tais propriedades em si mesmo? Isso tudo é realmente possível?



Ainda que ele nos diga que isso é impossível, a percepção correta ocorre inconscientemente através da nossa atitude corrigida em relação à realidade, ou seja, ao nos concentrarmos no Criador através do grupo.



Para que um grupo? Ele é um indicador da minha orientação altruísta. Se me dirijo corretamente ao Criador através do grupo (eu mesmo, o grupo e o Criador), então estou realmente concentrado Nele. Isso ocorre porque eu não consigo me conectar ao grupo no meu desejo de alcançar o Criador a menos que minhas intenções se tornem altruístas.



Assim, se minha intenção se concentra no Criador através do grupo, estarei trabalhando automaticamente com aquela parte de mim na qual minhas percepções estão corrigidas. Por isso que eu preciso de um indicador direto do que preciso fazer no momento. Esse é meu estudo com o grupo e meu anseio pelo Criador através do grupo.



Dessa forma, o grupo me ajuda a manter a abordagem correta e estudar apenas aquilo que eu realmente preciso, ao mesmo tempo em que me impede de penetrar em áreas onde eu cometeria erros.



Portanto, não precisamos, de fato, de nenhuma habilidade analítica especial ou extra-sensorial, pois somos providos com tudo o que é necessário para o nosso crescimento espiritual.



Há um grande número de pessoas no nosso grupo virtual. Todos nós estudamos, pensamos uns nos outros, e sabemos que sem ajuda mútua, não seríamos capazes de receber nada espiritual. Gradualmente, alcançaremos a união, interação, interdependência e amor e, com isso, veremos claramente quanto estamos interconectados.



Isso nos afasta dos sentimentos puramente egoístas e, naturalmente, sem qualquer esforço mental, compreenderemos a Matéria e a Forma na Matéria corretamente, direcionando-nos ao Criador, tornando-nos semelhantes a Ele. Não seremos capazes de transcender os limites dos nossos desejos não corrigidos e desregulados, nos quais imaginamos as categorias abstratas e afirmamos que sua verdade está acima de tudo, enquanto desconsiderarmos totalmente os gostos e desgostos das pessoas. Ou seja, as Leis da Torá visam o nosso estado verdadeiro, corrigido, que só podemos alcançar com a ajuda da Luz.


terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

Introdução ao Livro do Zohar (16)



16. Agora que explicamos minuciosamente essas quatro categorias com exemplos simples, fica claro que:



1.    A princípio, não existe qualquer possibilidade de compreender a quarta categoria, que é a Essência;

2.    Estudar a terceira categoria pode levar a conclusões falaciosas;

3.    Apenas o primeiro tipo de conhecimento Matéria e o segundo Forma na Matéria nos permitem o recebimento claro e adequado da Providência Superior.



Se a nossa Matéria, isto é, o nosso egoísmo inicial (desejo de receber) assume a Forma de doação (altruísmo), a intenção para o Criador, significa que fazemos parte da realidade dos Mundos Superiores.



Com a ajuda desses três discernimentos, também é possível apreender a realidade dos níveis espirituais dos Mundos Superiores de ABYA. Até o menor dos componentes terá essas quatro categorias. Por exemplo, cada componente do Mundo de Beriá possui um vaso de cor vermelha…



O Mundo de Beriá é completamente vermelho (Biná). Chochmá é branco, Biná é vermelho, ZA ou Yetzirá é verde, e Malchut ou Assiya é preto.



Baal HaSulam diz que se tomarmos qualquer um dos nossos recebimentos ou sensações do Mundo de Beriá "sentiremos neles os Kelim da cor vermelha, cuja Luz se revela àqueles que estão no Mundo de Beriá". Ou seja, enquanto a Luz Incolor atravessa os Kelim do Mundo de Beriá (através das minhas próprias qualidades, filtros), ela é percebida como vermelha.



O que é "vermelho" na espiritualidade? No nosso mundo, o ramo dessa raiz corresponde à cor vermelha.



Os vasos do Mundo de Beriá, que possuem a cor vermelha, representam uma Forma que está "vestida" em uma Essência. Isso se refere ao primeiro tipo de recebimento. Embora seja apenas uma cor, ou seja, um detalhe e uma manifestação das ações da Essência, nunca seremos capazes de compreender a Essência ela mesma, apenas a manifestação de suas ações. Chamamos tal manifestação de "Essência", "Matéria", "Corpo", ou "Vaso" (ou seja, recebemos a Essência inapreensível como Matéria).



A Luz do Criador que atravessa os Mundos "vestindo" a cor vermelha representa uma Forma que está "vestida" em uma Essência. Esse é o segundo tipo de recebimento. Por isso ela surge como uma luz vermelha, que indica que ela está sendo "vestida" e emanada por uma Essência, ou seja, o Corpo e a Matéria da cor vermelha.



Em outras palavras, existe a Matéria e há níveis espirituais que são percebidos por essa Matéria, que assume diferentes Formas. Se ela está no Mundo de Beriá, ela assume a cor vermelha.



Entretanto, se ainda existir o desejo de separar a Luz Superior da sua Essência, da sua cor vermelha (isto é, separar a cor vermelha que surge no Mundo de Beriá a partir da Luz interna incolor), ou se se começa a estudar apenas a Luz, imaterializada, isso se relaciona ao terceiro tipo de recebimento, ou seja, a Forma Abstrata, e certamente resultará em falácias.



Não é possível falar sobre o Criador, apenas sobre aquelas qualidades que são semelhantes a Ele. Não posso dizer que Ele é benevolente. E qual é mesmo a minha ideia de "benevolência"? Minha ideia de "benevolência" é a mesma que eu atribuo a Ele? Se me torno semelhante ao Criador em dez por cento na categoria "benevolência", então, nessa mesma medida posso afirmar que ele é benevolente. Eu O compreendo, pois sou semelhante a Ele, igual a Ele. Somente a partir dos meus próprios Kelim corrigidos é que eu posso falar sobre semelhança com o Criador. Isso significa permanecer dentro dos limites da Matéria, mesmo na expressão da sua Forma.



Entretanto, se apenas falarmos sobre a categoria abstrata de "benevolência", então a modificarei da mesma forma que fiz com a categoria de "verdade". Prontamente sacrificarei a humanidade inteira para preservar essa categoria. Ou seja, ela estará totalmente abstraída da realidade.



Por que isso é possível? O fato é que nós formamos um Kli gigantesco, do qual apenas uma parte está corrigida. E é somente nessa parte que eu posso perceber o Criador corretamente enquanto que, no restante do meu Kli, eu O imaginarei abstratamente e não vestido nas minhas propriedades. Por isso, sem sombra de dúvida, a imagem que faço Dele estará equivocada, pois as propriedades nas quais eu desejo imaginá-Lo ainda são opostas às Dele.



Assim, sob hipótese alguma devemos nos concentrar excessivamente na Forma Abstrata. Entretanto, somos levados a isso porque temos um grande número de Kelim não corrigidos, opostos à forma do Criador.



É característico do homem especular sobre a Forma vestida na Matéria, isto é, sobre o desejo e a intenção de doar que uma parte de seus Kelim adquiriu, sobre as propriedades do Criador que ainda não se tornaram suas. Tudo isso existe em nossa Alma, que, presumivelmente, é dividida em duas partes, corrigida e não corrigida.



Então, O Livro do Zohar trata do quê?



A Luz preenche a parte corrigida da nossa Alma, a qual se assemelha ao Criador nas suas propriedades. É possível caracterizar qualquer coisa que aconteça nela como a Forma equivalente ao Criador, pois suas propriedades estão vestidas na Matéria.



Por outro lado, ainda possuímos muitos Kelim não corrigidos, que ainda devem ser preenchidos pela Luz do Criador, mas, se continuarmos especulando sobre a Luz que ainda está fora dos Kelim, estaremos lidando com a Forma Abstrata do Criador e, nesse caso, estaremos sempre errados. Isso se deve ao fato de que é impossível pensar sobre a Luz fora dos vasos já corrigidos.



As Formas Abstratas levam, sempre, a conclusões equivocadas. Por isso, o Zohar afirma claramente que apenas quando alcançamos Semelhança de Forma com o Criador podemos realmente falar sobre Ele.



Vemos como a Cabalá nos direciona à compreensão e a conhecimentos práticos, protegendo-nos de muitos erros. Infelizmente, não raro falamos sobre o que não está em nós, e, por isso, não conseguimos determinar nossa posição.



Muitas vezes, as pessoas me dizem que elas já estão no Mundo de Beriá ou Atzilut, ou até que alcançaram a Gmar Tikkun. Eu as compreendo, é claro, nada pode ser provado ou reprovado. Eu apenas posso lhes aconselhar a ler alguma coisa, mostrar-lhes, de algum modo, a direção correta, e tentar produzir sensações nelas mais ou menos apropriadas.



Cada um de nós pode, por si mesmo, comprovar como é frequente termos pensamentos confusos e que nunca temos certeza de onde realmente estamos.



Quando alcançamos os Mundos Superiores, é impossível ficarmos parados, estamos continuamente percorrendo um longo caminho de realização, acúmulo de conhecimento, e estudando várias Formas vestidas na Matéria.



Apenas quando alcançamos o Mundo de Atzilut e elevamos os Kelim dos mundos de BYA (Gadlut da Alma), podemos dizer que estamos acima do erro comum de especular sobre as Formas Abstratas.



Logo, a proibição mais rigorosa refere-se ao estudo dos Mundos Superiores, e nenhum cabalista autêntico o faria, muito menos aqueles que estudam o Zohar. Em nada ajuda mencionar a "Essência", mesmo da mais ínfima parte da criação, pois somos incapazes de compreendê-la. Uma vez que não conseguimos compreender a essência dos objetos no nosso mundo corpóreo, compreenderemos menos ainda quando tentarmos apreender manifestações espirituais.



Não posso compreender sequer a Essência e a Forma Abstrata de uma caneta (pois não consigo imaginar a ideia de uma caneta dissociada da sua matéria), quanto mais os Mundos Superiores. Apenas a Forma vestida na Matéria e a própria Matéria são uma fonte de conhecimento totalmente confiável.



Dessa forma, temos os quatro aspectos do nosso exemplo do Mundo de Beriá:



1.    O Vaso de Beriá, que representa a cor vermelha e é definido como essência ou matéria do Mundo de Beriá;

2.    O preenchimento do vaso do Mundo de Beriá com a Luz Superior, que é a forma na matéria;

3.    A própria Luz Superior, dissociada da matéria de Beriá;

4.    A Essência.



Assim, clarificamos em detalhe a primeira restrição: O Livro do Zohar aborda apenas o primeiro e o segundo tipos de conhecimento. Em relação ao terceiro e o quarto tipos, nenhuma palavra é mencionada em todo o Livro.



Então, quando estudamos livros cabalísticos, não devemos imaginar nada que não esteja lá. Caso contrário, nós simplesmente deixaremos de aproveitar o que nos é oferecido e interpretaremos mal as palavras do autor. Devemos apenas confiar nos primeiros dois níveis de conhecimento, Matéria e Forma na Matéria.


segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

Introdução ao Livro do Zohar (15)




15. A terceira restrição é a Forma Abstrata. Significa que a Forma Abstrata revela-se para nós como Matéria. O poder da nossa imaginação é que nos permite destacá-la completamente da Matéria.



Aqui, Baal HaSulam não se refere a abstrações absolutas que nunca vimos antes (isto é, anjos e forças sobrenaturais). Afirma que mesmo que vejamos algo e, em seguida, desvirtuemos nossa atenção do objeto ou do fenômeno observado, imaginamos este algo na Forma Abstrata. Não devemos imaginar de maneira abstrata algo que previamente teve forma.



Pode-se enxergar de maneira abstrata ou destacada qualquer matéria. Por exemplo, virtudes e qualidades louváveis de que tratam os livros de questões de moral. Quando abordamos qualidades tais como verdade, falsidade, raiva e heroísmo temos em mente suas formas abstratas, livres de qualquer representação em matéria. Nós dotamos as formas abstratas de virtudes ou defeitos.



Hoje, precisamente, fui questionado: “Como pode um cabalista como Rabi Shimon ficar bravo?” Isto é, como pode uma pessoa tão elevada espiritualmente ter qualidades não espirituais? De onde vem esta incompreensão? A resposta está na separação entre a Forma (qualidades, propriedades) e a Matéria. Se combinarmos as duas, todas as contradições vão desaparecer. Entretanto, para vermos como isto ocorre realmente precisamos antes de tudo assumir as propriedades.



Sabemos que cientistas sérios respeitam a terceira restrição com cautela máxima. Pois é impossível confiar na Forma Abstrata com 100% de segurança. Isto porque é fácil cair em erro tratando-se de algo destacado da Matéria. Por exemplo, um idealista não-religioso que louva, exalta a verdade em uma categoria abstrata pode vir a concluir que não proferiria intencionalmente qualquer inverdade, nem mesmo para salvar vidas, se, para tanto, o mundo tiver que perecer.



Existem muitos idealistas que abstraem alguma categoria da vida real e do homem e colocam-na acima de tudo. Em outras palavras, eles destacam uma categoria da matéria na qual ela estaria vestida, isto é, destacam-na do que a faz realmente existir. Tais pessoas, apaixonadas pelas verdades, prontas para sacrificar o mundo, não entendem que, de fato, a categoria abstrata da verdade torna-se o seu oposto, a falsidade.



A Torah proíbe isto em suas Leis, sentenciando que não temos o direito de aceitar a Forma Abstrata como conhecimento absoluto, nem devemos nela confiar.



Mas isto é o contrário da opinião da Torah que diz: “Nada está acima de salvar uma alma”, mesmo que para tanto você tenha que morrer.



De fato, tivesse ele (o idealista não-religioso) examinado verdade e falsidade vestidas pela Matéria, poderia então julgar estas categorias de acordo com o certo e o errado nelas originados quando Matéria. E então, tendo conduzido numerosos experimentos neste mundo, ele poderia ver o grande número de vítimas e de perdas causadas por mentirosos e suas inverdades. Mais adiante, ele poderia perceber o grande benefício recebido por aqueles que preservam a verdade e por quem observa a regra de falar somente a verdade. Ele, o idealista, poderia aceitar que não existe valor maior que a verdade e nenhum mais baixo que a falsidade.



Se um idealista entendesse isto, certamente concordaria com a opinião da Torah e aceitaria que uma falsidade, mesmo que cometida com o intuito de salvar um ser humano da morte, é muito maior em valor e importância que uma verdade abstrata. Isto porque falta clareza às categorias abstratas que pertencem à terceira restrição. Não vale a pena discutir Formas Abstratas que ainda não se materializaram neste mundo, é somente perda de tempo.



Existem períodos na vida em que definimos alguns ideais pessoais. Mais tarde, ao defrontarmo-nos com os ideais na vida real, vemos que eles não existem, e que, no instante em que são vestidos em Matéria, adquirem uma inesperada, imprevisível e, muitas vezes, nada atraente Forma.



Logo, precisamos aceitar estas limitações antecipadamente, isto é, não devemos usar noções abstratas ou definir regras abstratas quando em relação ao mundo espiritual. Não temos nenhuma ideia de como é o mundo espiritual. O nível seguinte jamais foi vestido por alguma forma concreta.



De onde estamos não temos o direito de racionalizar sobre o nível superior; pelo contrário, iremos nos iludir e nunca alcançá-lo. Deste modo, podemos falar apenas sobre Matéria e a Forma que esta Matéria assume.



Que outra conclusão positiva tiramos disso? A Cabalá empurra-nos em direção à Matéria, isto é, em direção à sensação física do espiritual. A Cabalá adverte-nos sobre a Forma Abstrata, sobre as ações imaginárias e, ao mesmo tempo, instrui-nos a sentir Formas espirituais que nossa própria Matéria virá a assumir. Quer dizer, as diferentes formas da tela vestidas pelos meus desejos devem criar várias imagens espirituais em mim, e, sem destacar uma ou outra, existir nelas. É o que virá a ser chamado de meu mundo espiritual.



Se, agora, abstraio uma da outra, vou imaginar a mim mesmo no mundo espiritual hoje. Muito provável, me sentirei ótimo enquanto estiver voando na minha imaginação, mas será pura fantasia. Ao forçar-nos à conexão com a Matéria, mesmo em momentos em que estivermos estudando uma Forma, a Cabalá obriga-nos a vestir nossa Matéria (vontade de receber) de maneira adequada (vontade de doar).


domingo, 2 de fevereiro de 2020

Introdução ao Livro do Zohar (14)




14. Entendemos, também, a Forma na Matéria descrita na segunda restrição - de forma absolutamente clara e satisfatória, baseados na experiência de ações concretas que obtemos através da reação e da recepção da Matéria. Assim, adquirimos todo conhecimento sublime com que podemos de fato contar.



Isto é, a Matéria é o que nossos sentidos captam, enquanto que a Forma na Matéria é algo que recebemos como resultado de aprofundamento na Matéria em si.



Baal HaSulam diz que recebemos a Forma na Matéria na sua totalidade, e que todo Conhecimento Superior adquirido por nós nos níveis superiores são reais e claros. Se continuarmos avançando gradualmente por este caminho de recebimentos, adquirindo Superiores Formas na Matéria sem abstrair a Forma da Matéria, estaremos, então, infalivelmente, na direção certa.



Para qualquer lugar deste mundo que nos movermos, haverá um Eu em algum ponto, em algum trajeto, em algum objetivo. Enquanto eu estiver vendo o objetivo e este objetivo estiver a minha frente, irei para frente também, em sua direção. Quer dizer, Eu representa uma das minhas qualidades, ao passo que não tenho ideia alguma sobre as qualidades do objetivo a ser alcançado. Não me locomovo e não me dirijo ao objetivo com a ajuda dos meus sentidos, eles não podem ajudar neste momento da minha caminhada. Não imagino como posso ver o objetivo, como descrevê-lo. O objetivo possui uma qualidade muito diferente do Eu. Isto se refere à distinção entre dois níveis. Consideremos que, ao todo, existem 125 níveis.



Como posso imaginar tudo isto então? Como elevar a mim mesmo, quebrar esta barreira? Qual deve ser meu primeiro passo em relação ao objetivo? Não consigo sequer imaginar o que quero ser. Neste nosso mundo, posso aspirar, por exemplo, tornar-me professor; crio esta imagem em mim, visualizo e sei com clareza como ela é. Na Cabalá, entretanto, não há como imaginar tudo que estamos tentando receber. Se eu imaginar apenas a Forma Abstrata no lugar da Matéria e da Forma por ela assumida, cairei imediatamente em ilusão e meu avanço irá desviar-se consideravelmente do objetivo.



Logo, o Zohar instrui a pessoa que está em busca espiritual a ser extremamente cautelosa com Formas que estejam destacadas da Matéria e que sejam imperceptíveis aos nossos sentidos.



Até que eu adquira uma tela mínima, não posso fazer afirmações sobre sentir algo espiritual. Feita a tela, estarei apto a sentir, perceber objetos espirituais e propriedades espirituais. Serão considerados como a Forma recebida desta Matéria, pois a Forma será determinada pela tela. Ela expõe, para nós, muitas propriedades e suas combinações a partir da Matéria, que assume uma determinada Forma. Logo, ele diz: “Assim, apenas a partir da Forma desta Matéria adquirimos todo Conhecimento Sublime com que podemos de fato contar.” No processo de estudo do O Livro do Zohar, vamos repetidas vezes enfatizar esta questão.


Shamati (137)

    137. Zelofeade estava coletando madeira (Ouvi em Tav - Shin - Zayin , 1946-1947)   Zelofeade estava coletando madeira. O Zohar i...