sexta-feira, 12 de junho de 2020

Introdução ao Livro do Zohar (56)




13. Entretanto, ainda precisamos compreender que se o desejo de receber (isto é, o egoísmo, o desejo de receber para si mesmo) é tão ruim e destrutivo, como ele pode ter sido planejado e ter sua raiz no Pensamento da Criação, no Infinito e na Perfeição do Criador Ele Mesmo, cuja plenitude é indescritível?



Isto é, como pode haver uma raiz no Criador para tudo o que acontece dentro e fora de nós e que seja a origem da imperfeição na qual estamos?



A questão é que, assim que o Pensamento da Criação surgiu, tudo já havia, ao mesmo tempo, terminado. Isso ocorre porque, diferente de nós, o Kli não precisa de ações. Todas as almas e seus estados futuros emergiram prontamente na sua total e mais completa perfeição (no seu estado mais alto, final e supremo). Elas surgiram exatamente da maneira como o Criador as concebeu. Apenas no Fim da Correção as almas alcançarão esse estado elevado (da perspectiva do Criador, isso já existe. Ele já está unificado conosco nesse estado final e perfeito). Quando nosso desejo de receber estiver completamente corrigido e tornar-se “pura” doação (com a intenção para o Criador), ele (o desejo de receber) atingirá a completa equivalência de forma com o Criador.



Em relação ao Criador, nós existimos nesse estado final desde o momento da nossa concepção. Ele nos enxerga nesse estado perfeito e nos atrai a partir dele. Se consideramos isso, compreenderemos melhor Sua atitude em relação à Criação, em relação a nós. E também saberemos como devemos atraí-Lo.



Podemos comparar a atitude do Criador conosco com a atitude de uma mãe em relação ao seu filho: embora ela saiba que seu filho possa passar por várias mudanças de estado, seu amor por ele é absoluto. Por outro lado, a criança está fadada a experimentar as “mazelas do desenvolvimento” e, por fim, alcançar a completa equivalência de forma e correção.



Por que a Criação passa por todas essas transformações em relação ao Criador?



Porque o passado, o presente e o futuro são uma coisa só na Infinitude do Criador.



O tempo não existe em relação ao Criador, pois não há diferença entre uma ação e sua consequência. Isso tudo forma um único conjunto.



O mesmo princípio se aplica às pessoas. Ao penetrar os Mundos Superiores, o pensamento humano torna-se uma ação e o tempo se contrai até a não existência. Conforme o homem avança pelos níveis espirituais, o tempo começa a desaparecer. No campo das sensações, onde o homem se assemelha ao Criador, ele existe para além do tempo.



Ao tornar suas qualidades semelhantes às do Criador, o homem passa a sentir que seus desejos, suas ações e seu estado final são a mesma coisa. Não existe uma cadeia de causa e consequência. Ela só existe onde algo precisa ser corrigido. Quando já não há mais o que corrigir, ela deixa de existir, o tempo pára e tudo congela em um estado de perfeição.



Dessa forma, não havia nenhum desejo de receber corrompido (em relação ao Criador), separado da Sua Infinitude, ou vice-versa: a equivalência de forma que está destinada a existir no Fim da Correção surgiu imediatamente na Sua Eternidade (junto com o Pensamento da Criação).



A isso que nossos sábios se referiam quando diziam que “mesmo antes do mundo ter sido criado (a palavra hebraica “Olam”, mundo, vem da palavra “Ha'alama”, ocultação. Essa palavra refere-se à descida do nível da Infinita Perfeição a este mundo), Ele e o Seu Nome (o Criador, Sua Luz e todas as criaturas) já existiam no 'estado de perfeita unidade', pois nas almas não há separação do desejo de receber, pelo contrário, estão unidas com o Criador em seus atributos (eram totalmente idênticos). Esse estado é descrito pelas palavras: “Ele e Seu Nome são Um”.



“Ele” refere-se ao Criador e “Seu Nome” significa o vaso (Kli), as criaturas que foram criadas em seu estado final, perfeito e eterno.



Quando falamos de imperfeições, forças impuras, sofrimento e dos diversos estados pelos quais passamos desde o Pensamento da Criação até o seu final (do primeiro estado ao segundo e, depois, ao terceiro), devemos ter em mente que a transição do primeiro estado ao terceiro existe apenas para nós. Para o Criador, eles todos se fundem em um só. Na medida da nossa correção, a parte corrigida também se funde a esse estado perfeito e infinito.


quinta-feira, 11 de junho de 2020

Introdução ao Livro do Zohar (55)




12. Dessa forma, explicamos claramente a correção do desejo de receber impresso nas almas pelo Pensamento da Criação (impresso no desejo egoísta de receber que, inicialmente, é inerente em nós). O Criador preparou dois sistemas de mundos, um oposto ao outro, através dos quais as almas passam e dividem-se em dois aspectos, corpo e alma, vestindo-se um no outro. Com a ajuda do método Cabalístico (que inclui a correção gradual dos desejos), definido como “observar os mandamentos”, a propriedade de “receber para si mesmo” se converte na propriedade de “doação”.



Então, esses desejos são abençoados com todos os prazeres do Pensamento da Criação. E junto com isso (com a sensação dessa bênção), eles se fundem completamente com Ele.



Ou seja, a pessoa não recebe a generosidade do Criador, nem Lhe dá nada, mas alcança o nível do Criador, eleva-se até a sua Essência - até o Criador. O resultado é um paradoxo, mas é isso que acontece.



“Pelas Tuas ações, Te conhecerei”. Eu recebo Dele um exemplo (de como devo agir), a tela (com a qual opero), um desejo e força. Ao seguir Seu exemplo, faço as mesmas ações que Ele faz. Dessa forma, eu construo a linha do meio: do lado esquerdo estão meus desejos egoístas e, do lado direito, a Sua Luz e a tela. Na medida em que conseguir fazer com que uma linha se assemelhe à outra eu construo essa combinação e, a partir disso, crio minha linha do meio e faço minhas próprias ações.



Por fim, isso leva a uma consequência surpreendente: eu não me assemelho ao Criador nas minhas ações, mas, ao tornar minhas ações semelhantes às Dele, eu passo a compreender Sua intenção, Seus pensamentos, e os assim chamados Segredos de Torá. Isto é: “Pelas Tuas ações, Te conhecerei”. Como resultado, descobrimos que o Pensamento do Criador não é apenas dar prazer ao homem, seja ele infinito, eterno e perfeito, mas sim, elevar o homem ao Seu Próprio Nível, mais alto que o ponto inicial da sua criação.



Como resultado de tornar-se semelhante ao Criador, o homem ascende acima do ponto do seu nascimento. Ele eleva-se ao nível Mais Alto e alcança o Pensamento do Criador, o qual existia antes mesmo de Ele criar, a partir do nada, o desejo de receber prazer.



Esse é o Fim da Correção e, já que não há mais a necessidade do sistema de forças impuras, ele é eliminado da terra e a morte não mais existirá.



Essas expressões alegóricas podem comprometer seriamente nossa imagem, mas se as interpretarmos corretamente e imediatamente aplicá-las, então elas podem fortalecer nosso conhecimento e enriquecer essa imagem interior.



A palavra “solo” alude ao desejo egoísta de receber prazer, já que ele assimila, incorpora, absorve, e decompõe tudo o que nele penetra. Por outro lado, se o solo (a propriedade de recepção) for combinado com água (Biná - a propriedade de doação), e um grão for plantado ali, essas duas novas propriedades podem criar as condições necessárias para gerar uma nova vida.



Mais tarde, estudaremos todas essas raízes espirituais e por que o nosso mundo é construído dessa forma por conta disso.



O sistema de forças impuras será eliminado da terra (isto é, a intenção “para si mesmo” desaparecerá do desejo egoísta) e a morte não mais existirá (“morte” significa o abismo entre a Luz e o desejo de receber prazer, assim que Luz penetra no desejo de receber, ele ganha vida).



Todo o trabalho em Torá e nos mandamentos (isto é, o trabalho de atrair a Luz. Torá vem da palavra “Ohr”, “Ohra'a” - A Luz; um “mandamento” significa a correção de um desejo egoísta) é dado ao mundo durante os 6000 anos da sua existência…



Atualmente, estamos no ano 5780 (de acordo com o calendário Judaico), ou seja, algumas centenas de anos antes do “Fim da existência do mundo”, de acordo com essa cronologia. No futuro, clarificaremos o que significa “Fim da existência do Mundo”.



Vamos considerar os períodos em que esses 6000 anos são divididos. Seguiremos o desenvolvimento de dois eixos: o espiritual e o nosso.



Adão é o primeiro homem que descobriu o ponto no coração. Não nos referimos ao Adão espiritual, mas a um ser humano desse mundo. Cerca de 1948 a. C., Abraão surgiu. Esse é o período em que o ponto no coração não surgia meramente em um ser humano, ele o despertava e passava a guiá-lo ao Criador. Até essa época, os seres humanos existiam como animais, sem qualquer desejo pelo Criador.



Pela primeira vez, o ponto no coração do homem manifestou-se em Abraão. Ele desejou intensamente unir-se ao Criador e revelá-Lo. Hoje, estamos no ano 5780.



Nesse período de 6000 anos, toda a humanidade é obrigada a alcançar o nível do Criador. Mesmo antes de Abraão, existiram certas ações nessa direção, mas, naquela época, somente o método preliminar existia. Depois de Abraão, milhares de pessoas o fizeram.



Hoje, podemos fazê-lo a fim de possibilitar à toda humanidade realizá-lo rapidamente, sem sofrimento, pelo caminho da Cabalá, isto é, pelo Caminho da Luz. Se não ajudarmos a humanidade a atravessar o período da Revelação do Mal rapidamente e desejar o Criador, ela avançará pelo Caminho do Sofrimento.



Baal Ha Sulam escreve: “Essas poucas centenas de anos serão bastante críticos. Eles podem trazer destruições terríveis, guerras nucleares e imensas calamidades, o que resultará em um pequeno número de pessoas que permanecerão na Terra. Mas elas executarão o programa da Criação; elas incluirão todas as outras almas”.



Podemos ajudar as outras pessoas a acelerar esse processo, a atravessar esse período confortavelmente e sem dor.



E todo o trabalho em Torá e nos mandamentos conferidos ao mundo durante os 6000 anos da sua existência, e a cada pessoa no período de 70 anos da sua vida, tem por objetivo trazê-las ao fim da correção, à equivalência de forma e à unificação com o Criador.



Com isso, clarificamos o sistema de forças impuras e as Klipot (cascas) que emergem da Pureza do Criador e existem às suas custas. Esse sistema estava sujeito a existir a fim de viabilizar a criação dos corpos (isto é, os desejos egoístas) que, mais tarde, seriam corrigidos pela Luz (Torá), e com a ajuda da tela (o cumprimento dos mandamentos).



Sem que nossos corpos fossem criados com desejos não corrigidos (egoístas), pelo sistema das Klipot, nunca teríamos a oportunidade de corrigi-los (isto é, o homem nunca seria capaz de perceber seu próprio “eu” e alcançar o nível do Criador por si mesmo).



Do contrário, seria o mesmo ponto solitário existindo na Luz Infinita, e não um ser independente, mas um desejo feito pelo Criador e que não existe por si mesmo.



Pergunta: Existe qualquer método prático que fortaleça o contato com o Criador? É possível unificar-se com Ele nessa vida?



A Cabalá é um método prático que aumenta o contato com o Criador chamado Revelação. Enquanto existimos no nosso mundo da forma em que estamos, o acaso de apenas ouvir sobre isso, sobre esse método, já nos habilita a implementá-lo em nossas vidas, isto é, nos fundir completamente com o Criador. Podemos revelar toda a realidade de tal forma que deixaremos de sentir qualquer transição entre a vida e a morte do nosso corpo biológico. Hoje, podemos ascender ao Mundo do Infinito e existir no seu mais alto nível.



Não se trata apenas de aumentar nosso contato com o Criador, estamos falando de nos tornar semelhantes a Ele, iguais a Ele.



Possuímos todos os pré-requisitos para isso. Diferente das gerações anteriores de cabalistas, não precisamos esperar 10 anos por isso, podemos fazê-lo em 10 meses. Só depende da nossa união e desejo comum. Vamos unir as nossas forças.



Continuaremos a estudar o item 13 do “Introdução ao Livro do Zohar”. Baal Ha Sulam escreveu diversas introduções ao Zohar: “Introdução ao Livro do Zohar”, “Prefácio ao Livro do Zohar” e “Introdução ao Comentário sobre o Livro do Zohar”.



O “Prefácio ao Livro do Zohar” é o mais profundo e sintético de todos. Ele versa sobre o Sistema Geral da Criação, explorando suas profundezas. O “Introdução ao Comentário sobre o Livro do Zohar’ descreve o mecanismo da subida espiritual. O “Introdução ao Livro do Zohar” expõe as peculiaridades do Livro e explica como ele pode ser abordado.



Nos deteremos na mais importante dessas introduções a fim de compreendermos melhor o escopo e o poder do Universo. Devemos, também, nos preparar para a verdadeira leitura do Zohar.


segunda-feira, 8 de junho de 2020

Shamati (98)




Espiritualidade é chamado aquilo que nunca se perderá. Portanto, o desejo de receberna forma que se encontra, ou seja, a fim de receberé chamado corporalÉ assim porque ele será extinto a partir desta forma e vai adotar a forma de “a fim de doar”Um verdadeiro lugar na espiritualidade é chamado o lugar da realidade, uma vez que quem vem ali, naquele lugar, vê a mesma forma que o outroNo entanto, uma coisa imaginária não é chamada de um lugar realuma vez que é imaginária e então cada um imagina isso de uma forma diferenteQuando nos referimos às Setenta Faces da Torá, isso significa que ela tem setenta grausEm cada ponto, a Tora é interpretada de acordo com o estado em que alguém se encontra. No entanto, um mundo é uma realidade, o que significa que qualquer um que venha a qualquer um dos setenta graus naquele mundo, atinge a mesma forma que todos os outros que venham a atingir. A partir dai é que entende o que dizem os nossos sábiosque interpretam os versos da Torá. Eles dizem que isso é o que disse Abraão a Isaque, e outros ditos similares de nossos sábiosDizem o que é dito, o que é explicado nos versosSurge a pergunta: “Como é que eles sabem o que um disse para o outro?” Mas, por causa daqueles que atingiram o grau em que Abraão (ou alguém) alcançou, eles veem e sabem o que Abraão viu e sabiaPor esta razão, eles sabem o que Abraão disseÉ da mesma forma em todas as palavras de nossos sábios, quando eles interpretaram os versos da Torá. Tudo isso porque eles, também, atingiram o grau, e cada grau de espiritualidade é uma realidade. Todo mundo vê a realidade, como todos aqueles que vêm para a cidade de Londres, na Inglaterra, veem o que está na cidade e o que se diz na cidade.

domingo, 7 de junho de 2020

Shamati (50)




Dois estados
(Escutei em 20 de Sivan)


Há dois estados no mundo. No primeiro, o mundo se identifica com a “dor”, e no segundo, com a Sagrada Shekinat (Divindade). Isto acontece porque antes que a pessoa esteja dotada da capacidade de corrigir suas ações para transformá-las em outorgar, percebe o mundo somente sob a forma de dores e tormentos.



No entanto, depois, se é recompensado com o fato de poder ver que a Sagrada Shekinat está vestida no mundo inteiro, e que o Criador está preenchendo o mundo inteiro. Neste estado, o mundo recebe o nome de “Sagrada Shekinat”, pois está recebendo do Criador. Isto se chama “a unificação do Criador e da Divindade”. Do mesmo modo que o Criador dá, o mundo se ocupa somente em outorgar.



Isto se parece a uma melodia triste, por meio da qual alguns músicos sabem como transmitir a dor que é o seu tema central, porque todas as melodias são como uma linguagem falada que representam as palavras que a pessoa deseja exteriorizar em voz alta. Se a melodia evoca tristeza em quem a escuta, a ponto de fazê-la chorar pela dor que ela transmite, então é chamada “uma melodia”, e todos amam escutá-la. Isso se deve a que a melodia não aponta uma dor presente, mas sim uma dor passada, ou seja, a tormentos que já ficaram para trás e que já foram adoçados e receberam seu preenchimento. Por tal motivo, as pessoas gostam de escutá-la. Então, a música faz alusão aos adoçamentos dos Dinim (Juízos), e que as dores que a pessoa sentia foram adoçadas. Por isso, este tipo de aflição resulta doce ao ouvido, e assim, o mundo recebe o nome de “Sagrada Shekinat”.



A principal coisa que a pessoa deveria saber e sentir é que existe um líder que a guia até a cidade, como disseram nossos sábios: “Abraão o patriarca disse: ‘Não existe cidade sem um líder’”. A pessoa não deve pensar que tudo que acontece no mundo seja por casualidade, e que a Sitra Achra a induz a pecar e a dizer que tudo é fortuito.



Este é o significado de Hamat (vasilha de) Kerí (sêmen). Há um Hamat cheio com Kerí. O Kerí induz a pessoa a pensar que tudo é Bemikré (fortuito).



(Ainda quando a Sitra Achra provoca nela pensamentos tais como dizer que tudo é fortuito, sem uma direção determinada, isto tampouco é casualidade, pois o Criador assim o quer).



No entanto, não se deve crer na recompensa e no castigo, e que existem um juízo e um juiz, e que tudo está conduzido pela “Providência da recompensa e do castigo”. Isto se deve a que, às vezes, quando algum desejo e manifestação do trabalho de Deus desperta dentro da pessoa, e ela acredita que isto aparece por casualidade, deve saber que também aqui ela realizou um esforço prévio para escutar. Rezou por ajuda de Cima, para poder executar uma ação intencionada, e isto se chama “elevar MAN”.  



Entretanto, a pessoa já o esqueceu e não considerou fazê-lo, já que não recebeu uma resposta imediata à sua oração, como para declarar: “Para que tu escutes a oração de cada boca”. Ainda assim, deve crer e entender que a ordem de Cima estabelece que a resposta à oração pode chegar vários dias ou meses depois de se haver rezado.



Não se deve pensar que não é por casualidade que a pessoa tenha recebido este Itorenut (Despertar) presente. Às vezes a pessoa diz: “Agora que sinto que não me falta nada e que nada me preocupa, minha mente está curada e saudável; e por esta razão, posso focar minha mente e meu desejo em direção ao trabalho de Deus”.



Disto se depreende que a pessoa pode dizer que todo o seu compromisso no trabalho de Deus consiste em que “sua força e o poder de sua mão lhe concederam riqueza”. Assim, quando a pessoa pode comprometer-se e alcançar necessidades espirituais, deve entender que esta é a resposta a sua oração. Aquilo pelo que ela pediu antes, agora sim foi respondido.



Ademais, às vezes, quando se lê algum livro, o Criador lhe abre os olhos e a pessoa sente um certo despertar; então, também sua reação normal é atribuir isto à causalidade. Não obstante, tudo está guiado.



Ainda que se saiba que toda a Torá consiste nos nomes do Criador, como que se pode dizer que através do livro se está lendo e se obtendo algum tipo de sensação sublime? A pessoa deve entender que normalmente lê o livro e sabe que a Torá inteira consiste nos nomes do Criador, mas que apesar disto não recebe iluminação nem sensação alguma. Pelo contrário, tudo está seco e o conhecimento que a pessoa possui não o ajuda sequer minimamente.



Portanto, quando a pessoa estuda de certo livro e deposita sua esperança Nele, o estudo deve apoiar-se sobre a base da fé, ou seja, que a pessoa crê na Providência e que o Criador lhe abrirá os olhos. Neste momento, a pessoa se vê necessitada do Criador, e desta forma está em contato com Ele. Por meio disto, se pode chegar à adesão (Dvekut) com Ele.



Existem duas forças que se opõem entre si: uma Força Superior e uma força inferior. A respeito da Força Superior está escrito: “Todo aquele que é chamado por Meu Nome, e a quem Eu criei para a Minha glória”. Isto significa que o mundo inteiro foi criado somente para a glória do Criador. A força inferior é o desejo de receber que argumenta que tudo foi criado para ele, tanto o corporal quanto o espiritual. Para ele, tudo obedece ao amor por si próprio.



O desejo de receber argumenta que merece este mundo e o mundo vindouro. Por suposto, o Criador triunfa, mas isto recebe o nome de “o caminho da dor”. Se denomina “um caminho longo”. Mas há outro caminho mais curto, chamado “o caminho da Torá”. A intenção de todos deveria estar dirigida a encurtar o tempo.



Isto é chamado “eu aceitarei”. Do contrário será “em seu tempo”, segundo foi dito pelos nossos sábios: “recompensado: eu aceitarei; não recompensado: a seu tempo”, “que coloco diante de ti um rei como Hamán, e ele te obrigará a corrigir-te.



A Torá começa com Bereshit (No princípio): “... Agora a terra estava sem ordem e vazia, e a escuridão...”, e finaliza assim: “Diante dos olhos de toda Israel”.



No princípio vemos que a terra está “sem ordem e vazia, e a escuridão...”, mas, então, quando todos se corrigem para poder outorgar, são recompensados com “Então disse Deus: ‘Seja feita a Luz’...” Até que aparece a Luz “diante dos olhos de toda Israel”. 


sexta-feira, 5 de junho de 2020

Introdução ao Livro do Zohar (54)




11. Os Mundos descem ao nível da realidade desse mundo, isto é, ao local onde o corpo e a alma existem. Essa é a hora de estar não corrigido e também é a hora da correção. O corpo é o desejo de receber, que tem sua raiz no Pensamento da Criação. Enquanto atravessa o sistema dos Mundos Impuros, ele permanece sob a influência desse sistema até que comece o processo de correção.



Como você já deve saber, na Cabalá, o corpo do Partzuf refere-se ao desejo de receber prazer. Via de regra, o cabalista interpreta o corpo como o Kli e a alma como a Luz.



Frequentemente, a palavra “alma” implica tanto o Kli quanto a Luz e, às vezes, a palavra “alma” é utilizada, de maneira informal, para referir-se ao Kli sem Luz. Entretanto, enquanto estivermos estudando os degraus espirituais acima do nível deste mundo, não devemos pensar sobre o nosso corpo físico, pois ele não está conectado à alma de forma alguma.



Todas as nossas propriedades e desejos, tudo o que podemos utilizar a fim de influenciar nossa alma e o nosso avanço espiritual, em nada se referem ao nosso corpo. Os poderes que desejamos desenvolver em nós não são biológicos, mas espirituais. Devemos recebê-los de Cima, pois só assim seremos capazes de ajudar nossa alma a alcançar o Criador. Somos incapazes de influenciar o estado da alma através das nossas propriedades animais.



Portanto, as qualidades do homem são irrelevantes. Ele pode ser saudável ou doente, inteligente ou não, ou possuir qualquer outro traço de caráter. Isso não faz a menor diferença. Nada que se relacione ao nosso corpo físico, ou que possa caracterizar, no homem, sua propriedade humana, refere-se ao espiritual. Essas propriedades não influenciam nosso desejo egoísta, que é oposto ao Criador, nem a revelação da Luz em nós.



A fim de expor minha alma, minha parte interior ainda inexistente em mim, a essa influência, eu preciso adquirir novos Kelim que ajudem minha alma a crescer e me permitam revelar o Criador.



O instrumento para o desenvolvimento da minha alma é chamado de masach, tela. Eu preciso recebê-la de Cima, pois não posso alcançar o objetivo com as propriedades animais que possuo.



A compreensão de que não sou capaz de utilizar os instrumentos que tenho à minha disposição, isto é, minha mente, força de vontade, ou até meu enorme desejo e a total incapacidade de mudar espiritualmente, é chamada de Revelação do Mal: a consciência da insignificância da minha própria natureza. Não se trata do mal em si mesmo, mas o considero falho, pois ele me impede de descobrir o Criador e me fundir com Ele.



De fato, essa consciência não pode ser chamada de “mal”, a “Revelação do Mal” é apenas uma definição. Quando eu alcanço esse estado, na verdade eu descubro um milagre. Eu vejo que há Alguém a Quem recorrer, e que eu posso receber força do Criador, a Luz que me corrige ao me conferir uma tela.



Por um lado, a sensação da minha própria insignificância é chamada de “Revelação do Mal”, mas, por outro, ela me leva a receber uma tela.



Eis outra definição que demonstra a ausência do mal. Os cabalistas nos chamam de pecadores porque existimos abaixo do sistema das forças impuras. Na verdade, não somos realmente pecadores. Como poderíamos pecar se estamos totalmente inconscientes disso? Em outras palavras: esse nome é utilizado de maneira puramente alegórica.



Os Mundos descem ao nível da realidade desse mundo, ao local onde o corpo e a alma existem (o Kli constitui-se de desejos egoístas impuros, o corpo e a alma são uma parte da Essência, uma pequena partícula de Luz, um ponto no coração, o núcleo da alma). Essa é a hora de estar não corrigido e também é a hora da correção (em nosso mundo, percebemos os níveis de correção a partir de um fator temporal).



Pois o corpo, que é o desejo de receber egoísta, estende-se da sua raiz no Pensamento da Criação (a partir do Criador, Yesh mi Ayin, algo a partir do nada), através do sistema dos Mundos Impuros, e permanece sob a influência desse sistema pelos treze primeiros anos, que é o tempo da corrupção.



O que significa “o tempo em que a pessoa permanece sob a influência do sistema de forças impuras”? Isso se refere a milhares e milhares de anos, quando passamos por determinadas correções de maneira inconsciente, através das nossas sucessivas reencarnações.



Dos 13 anos em diante… Ou seja, quando o desejo pela Evolução Espiritual começa a se manifestar através dos mandamentos, isto é, com a ajuda da correção dos desejos. Ao todo, temos 620 desejos. É claro que não compreendemos todos eles ao mesmo tempo. Onde estão esses desejos? Talvez possamos identificar 10 ou 20 desejos, mas certamente não 620. Mais tarde, descobriremos que a correção de cada desejo, da intenção para si mesmo para a intenção pelo Criador, é chamada de cumprimento dos mandamentos do Criador.



Se o homem observar bem, ele começará a purificar seu desejo de receber e, pouco a pouco, ele se transformará no desejo de receber pelo Criador. Assim, a Alma Superior desce de sua raiz no Pensamento da Criação, passando pelo sistema de Mundos Puros, e “veste-se” na sua alma.



O que isso significa? Assim, a Alma Superior (isto é, a Luz Espiritual) a partir da sua raiz no Pensamento da Criação atravessa os sistemas de Mundos Puros (começa a manifestar-se em nós através do sistema das nossas correções graduais). Ao nos corrigir, construímos nosso Kli puro. A Luz que será revelada nele já o preenche, mas ainda não a sentimos.



Isso é descrito pelas palavras: Ela passa através do sistema de Mundos Puros e “veste-se” na sua alma. Isso é chamado de “tempo de correção”.



Há um período preliminar chamado de “estado não corrigido” que dura até que a pessoa receba o ponto em seu coração. Esse ponto começa a impulsioná-lo em direção ao espiritual. A partir desse momento, inicia-se o período de correção.



Dessa forma, o homem avança e recebe os níveis do Pensamento da Criação estando no Infinito do Criador, até que ele transforme seu desejo de receber para si mesmo em desejo de receber pelo Criador.



O homem gradualmente recebe novas porções da Luz que reforma. Com a ajuda dessa Luz, ele gradativamente revela sua alma, e o grau da sua semelhança com o Criador determina a medida dessa revelação. Em outras palavras: tanto quanto for capaz de criar uma tela em si mesmo, assim ele revelará sua alma, seu Kli. O homem sente a Luz dentro do seu Kli. Isso é o que os cabalistas definem como os graus de semelhança do homem em relação ao Criador, os níveis da sua ascensão espiritual.



Esses níveis se auxiliam mutuamente: o mais baixo ajuda o mais alto, e o mais alto ajuda a revelar completamente a alma do homem a partir da sua unificação com a Luz Superior.



As qualidades do homem tornam-se equivalentes às do Criador, já que a recepção com o propósito de doar é uma forma “pura”, uma doação.



O que é a revelação do Kli e da Luz que o preenche? Se desejo revelar e sentir essa luz não para o meu próprio prazer, mas para agradar Aquele Que me preencheu (quando eu vejo o prazer que minhas revelações trazem a Ele), então meu recebimento será considerado doação e se realizará.



O homem alcança a completa unificação com o Criador… Onde ele a alcança? No interior daquilo que ele revela. Lá ele descobre a si mesmo, seu Kli, sua intenção e o Criador que o preenche. Ele não precisa mais olhar para o Criador e revelar o Kli, agora ele vê tanto a si mesmo como o Criador no interior desse Pensamento comum.



O homem alcança a completa unificação com o Criador, pois a unificação espiritual nada mais é do que a equivalência de forma. Nossos sábios perguntaram: “Como é possível fundir-se com o Criador?” - e responderam a própria pergunta: “Ao fundir-se com Suas propriedades”.



Em outras palavras, isso pode ser expresso da seguinte maneira: “Eu Te conhecerei a partir da minha semelhança Contigo”. Ou seja, se pouco a pouco eu revelo o Criador de acordo com a minha crescente semelhança com Ele, então, por fim, me tornarei exatamente como Ele. Ocorre que a revelação do Criador, a semelhança com Ele, a correção do Kli e a recepção da Sua Luz são a mesma ação.



Por isso, o homem descobre que não existe divisão entre ele, a ação que ele faz e o Criador. Tudo isso é um conjunto único e indivisível (como se o vaso fosse uma coisa, a Luz que o preenche fosse outra, a reação do vaso em relação à Luz e a reação da Luz em relação ao vaso, uma terceira). Nada disso existe. Subitamente, a pessoa percebe que tudo isso é uma única coisa indissociável. Essa condição é chamada de Unificação com o Criador.


quinta-feira, 4 de junho de 2020

Introdução ao Livro do Zohar (53)




10. Eis a oportunidade de compreender o quarto questionamento. Como é possível que o sistema das forças impuras e das Klipot venham da pureza do Criador? Como é possível que o Criador o preencha e sustente quando, de fato, o sistema das forças impuras é o extremo oposto da Sua pureza?



Além disso, podemos imaginar os mundos de cima para baixo: AK (o Mundo do Infinito), depois Atzilut, Beriá, Yetzirá, Assiyá (os mundos puros), e Beriá, Yetzirá e Assiyá (Klipot). A Parsá econtra-se logo abaixo do Mundo de Atzilut, e o nosso mundo está abaixo das Klipot. Tudo o que desce de Malchut do mundo de Atzilut atravessando todos os Mundos para chegar aos mundos impuros refere-se à Ner Dakik (uma pequena vela, uma pequena luminescência). Quando a Ner Dakik atravessa a Maschom e nos alcança, recebemos o que chamamos de "nossa vida".



Ou seja, tudo o que preenche, sustenta, revive e nos impulsiona para frente no nosso mundo é recebido através do sistema de forças impuras.



Baal HaSulam pergunta: “Como pode uma propriedade do nível Espiritual do Criador (total altruísmo) criar desejos impuros (incluindo a nós mesmos, que somos os mais baixos e insignificantes)? E como não bastasse serem criados por Ele, Ele também os nutre, ainda que com uma pequena Luz. Além disso, Ele constantemente os sustenta e mantém contato com eles”.



Vamos clarificar essa questão: “Como o Criador pode agir dessa maneira? Essa pergunta surge a partir da perspectiva da nossa definição anterior. Se dizemos que no Mundo Espiritual categorias como unificação, separação, aproximação e afastamento ocorrem na mesma medida da semelhança de forma, isso significa que não há conexão entre o Criador e esse sistema, já que o sistema das forças impuras é absolutamente contrário ao Criador. Portanto, como pode ter sido criado por Ele?



Suponha que tenha se dado uma ação não-recorrente de nascimento. Mas tal conceito não existe no Espiritual, onde tudo existe permanentemente (isto é, nasce, é suprido e nutrido permanentemente). Isso difere do nosso mundo, onde há um evento de criação através do qual o corpo passa a existir e, depois, morrer. O corpo existe e morre justamente porque o ato de criação terminou. No Mundo Espiritual é diferente: tudo o que lá ocorre é permanentemente nutrido e, portanto, eterno. Todas as ações existem constantemente em todos os níveis.



Assim, se o Criador cria, nutre e mantém forças impuras, isso contradiz a conclusão anterior. Como é possível reconciliar isso?



Primeiro, é preciso compreender a essência do sistema de forças impuras e Klipot. Saiba que o enorme desejo de receber, sobre o qual falamos antes, é a essência das almas criadas. Esse desejo está pronto para receber todo o preenchimento previsto no Plano da Criação, mas ele não permanece nas almas da mesma forma, pois se o fizesse (se permanecesse em uma forma contrária ao Criador), as almas estariam separadas do Criador para sempre. Essa dessemelhança de forma sempre as excluiria do Criador.



Para corrigir esse afastamento inicial, Ele criou os Mundos e os dividiu em dois sistemas: os quatro Mundos puros de ABYA, e os quatro Mundos impuros de ABYA.



Além disso, Ele posicionou as almas entre eles.



Em nosso avanço, continuamente escolhemos a linha do meio - a combinação de forças puras e impuras. A alma ascende ao Criador precisamente por essa linha intermediária.



Ao criar o sistema de forças puras e impuras, ou seja, esse imenso e impuro egoísmo inicial oposto a Si Mesmo, Ele também criou um sistema com o qual podemos transformar esse egoísmo - mantendo os mesmos desejos, mas corrigindo sua intenção. Portanto, ocorre que, enquanto subimos a escada intermediária entre os dois sistemas, de forças puras e impuras (altruísta e egoísta), escolhemos como agir.



Extraímos do nosso sistema egoísta, da nossa essência, tudo o que pudermos a fim de adaptar nossos desejos ao Criador e, assim, avançar.



Vejamos um exemplo.



Há dois sistemas: “Eu” na sua forma original (um ego absoluto), e um sistema oposto a mim, o qual concordamos em chamar de Criador. Eles são opostos e totalmente separados. Entre nós existe um sistema de comunicação, o qual chamamos de sistema das forças puras e impuras.



O que ele me proporciona? Para existir, eu recebo Dele uma pequena porção de Luz, chamada Ner Dakik. Além disso, dela eu recebo o famoso ponto no coração. Ao receber a Ner Dakik, eu recebo meu coração.



Ao receber o ponto no coração, depois de uma série de esforços, eu alcanço determinado nível base. Nesse nível zero, chamado “Ibur” (embrião), é possível comparar-se a todas as propriedades do Criador apenas como um pequeno ponto. Esse ponto encontra-se no meio dessas propriedades, e ele significa que tudo o que eu possa conectar às qualidades do Criador não é maior que um ponto.



Se eu separo 10% dos meus desejos e os integro de acordo com 10% dos desejos do Criador, então o ponto médio entre eles será o meu nível seguinte. E assim sucessivamente. Isto é, eu sempre avanço a partir da linha do meio, onde comparo meu egoísmo às propriedades do Criador até que eu trabalhe integralmente com 100% dos meus desejos. Só então eu alcanço 100% de semelhança de forma com o Criador.



Isso revela que o sistema de forças puras e impuras não se constitui nem de bem nem de mal. Eles existem apenas em relação ao observador, que necessita desses níveis gradativos para suas próprias comparações, associações, uniões com o Criador (a terminologia exata não é importante). Tal sistema interno existe em mim unicamente por esse motivo. Esses mundos não existem fora; eles são a essência da minha estrutura interior.



Com a ajuda desses níveis - esses limites sensoriais - podemos nos sentir tanto mais afastados do Criador como também mais próximos Dele. É impossível sentir a metade ou um terço de cada nível. Internamente, somos nivelados de tal forma que apenas percebemos certas mudanças no limite das sensações, chamadas de degraus dos mundos. Naturalmente, isso tudo ocorre dentro de uma pessoa, pois nada disso existe fora dela. No geral, não conhecemos o que existe “fora”, logo, o que está fora não existe. Falamos somente do que existe dentro de nós. Isso é o que sentimos e esse é o nosso mundo, a nossa vida.



Assim, Baal Ha Sulam diz que o Criador criou o desejo de receber egoísta… e Ele conferiu Suas qualidades ao sistema dos Mundos Puros para serem disseminadas, retirou deles o desejo de receber para si mesmo e os entregou aos Mundos Impuros. Como resultado, esse sistema tornou-se completamente separado do Criador e de toda a Pureza.



Portanto, as Klipot são chamadas de mortas, assim como os pecadores (nós, que estamos abaixo delas), pois nosso desejo de receber, que é o oposto do Criador, não permite à Luz de Vida, a Luz do Prazer, manifestar-se em nós (por isso, experimentamos apenas uma pequena parcela da influência dessa Luz, ou seja, nossa vida animal). Além disso, estamos totalmente afastados do Criador, já que Nele não há desejo de receber, somente a qualidade de doação. Contudo, nas Klipot (e em nós), naturalmente não existe o conceito de doação, apenas o desejo de receber, o desejo de autogratificação.



Nossa separação espiritual em relação ao Criador começa com uma pequena diferença de qualidade com o Superior, e termina na mais completa oposição.



Nós emergimos dos Mundos Espirituais e então, gradualmente, nos diferenciamos. No nível do nosso mundo, estamos na mais absoluta oposição ao Criador. Ao superarmos o abismo entre o Criador e a Criação, alcançamos o Infinito Superior, a percepção ilimitada do Criador.


quarta-feira, 3 de junho de 2020

Introdução ao Livro do Zohar (52)




9.  Assim, na espiritualidade, a dessemelhança de forma age como um machado em nosso mundo, separando a matéria. O grau de divergência é determinado pelo nível da dessemelhança de forma.



Não devemos nos ater a nada mais - nem aos meus parâmetros, nem aos parâmetros do Criador, ou a qualquer outra condição. Devemos pensar uma única coisa: "Como posso me assemelhar ao máximo com Ele? Dessa forma, irei descobri-Lo e sentirei em mim mesmo o Seu preenchimento, e é nessa medida que receberei a sensação de prazer, Luz, vida, Eternidade e Perfeição".



E disso se apreende que, já que o desejo [egoísta] de receber prazer é inerente às almas e, como já vimos, essa propriedade não se encontrae no Criador, podemos concluir que é exatamente essa dessemelhança de forma (o desejo egoísta de receber prazer), adquirida pelas almas, que age como um machado, separando-as do Criador. Portanto, é através da diferença de forma que a alma torna-se separada do Criador e vem a ser conhecida como "criada".



Até que a alma sinta a sua completa separação do Criador, é impossível falar da existência da Criação. Neste ponto, ela ainda é simplesmente o desejo de receber prazer, que não deixou o Criador e não foi separado Dele para tornar-se algo que exista independentemente. Portanto, ao olhar o mundo ao nosso redor, para esses 7 bilhões de "homo sapiens", não podemos dizer que eles são criações (e tampouco podemos falar sobre os níveis mineral, vegetal e animal, pois eles não tem a sensação de contraste em relação ao Criador).



No momento, ainda nos falta essa propriedade, essa análise. A primeira coisa que devemos alcançar é a tão famosa "revelação do mal" (Akarat Ha Rah), que é a compreensão da polaridade inversa à do Criador. É aqui que a Criação começa. Assim que a alcançamos em todas as nossas propriedades fundamentais, sentiremos, nessas propriedades, o quão opostas elas são do Criador. Então essas propriedades são percebidas como independentes, totalmente remotas, cortadas, podadas Dele com esse machado (essa alteração do Criador). Assim, elas já são consideradas Criação.



Entretanto, tudo o que as almas recebem da Luz do Criador é recebido da Essência do Criador, daquilo que é existente. A Luz do Criador recebida pelo Kli (alma, desejo de receber) não difere da Sua Essência. De fato, ela vem diretamente do Criador, como de algo existente. Toda a distinção entre as almas e a Essência do Criador provém do fato de que as almas são apenas uma parte da Essência do Criador. A medida de Luz recebida dentro do desejo de receber prazer (essa parte que foi excluída do Criador, já que ela não é totalmente semelhante a Ele) separa-se do Criador pela dessemelhança de forma, assume a forma de estar separada do todo, e é chamada de alma. De fato, não há diferença entre elas exceto que uma é o todo enquanto a outra é sua parte, como uma pedra cinzelada de uma rocha.



Reflita sobre a profundidade do que foi mencionado acima, já que é impossível explicar esse assunto elevado mais detalhadamente.



Mesmo assim, tentaremos acrescentar umas poucas palavras sobre o assunto.



A percepção mais inofensiva sobre a Criação é a de que existimos no estado final mais perfeito, pois esta é a única coisa criada pelo Criador, a única maneira em que existimos. Somente nós percebemos o estado final, muito embora tenha existido um estado inicial e um intermediário. Na verdade, esta é a única condição existente. Ou seja, quando o Criador considerou criar criações, Sua ideia instantaneamente tornou-se ação.



O fato de que estamos inseridos no Criador, totalmente preenchidos pela Luz do Infinito, é ocultado. Na verdade, essa é a nossa condição natural, única e verdadeira. Se é assim que a percebemos, então outra relação torna-se clara: como descobrir a medida de conexão entre nós. Eu me encontro em uma condição estática, completamente preenchida pelo Criador, e o que me separa do Criador (impede a sensação de proximidade com o Criador) é o meu egoísmo, meu desejo interior, que é oposto ao Dele. Na mesma medida em que consigo mudar meu desejo interior, meu direcionamento, imediatamente sentirei o Criador, me sentirei como que preenchido por uma vida de outro tipo e com outra dimensão.



A ínfima medida da sensação do Criador que está em nós, chamada "Ner Dakik" ("Ner", vela; "Dakik", da palavra "Dak",  muito fino, parte mínima), é uma porção de Luz que nos permite existir no estado biológico animal em que estamos.



Se pudermos mudar a quantidade de Luz que percebemos dentro de nós, mudaremos drasticamente a nossa vida - elevaremos a vida ao próximo nível e, quanto maior nossa percepção de Luz dentro de nós, maior o nível que alcançaremos. A única coisa que precisamos fazer é permitir que a Luz que existe em nós faça o seu trabalho, nos abrir e deixá-la brilhar em nós. Podemos facilitar esse processo somente a partir da nossa atitude em relação ao Criador, da nossa semelhança com Ele. Portanto, ascender aos níveis Espirituais não é um movimento mecânico, pelo contrário: é uma semelhança interna crescente em relação à Luz, a sensação de uma vida plena, perfeita e eterna.



O homem não deve contentar-se com aquela pequena partícula de Luz que sustenta apenas a condição animal da existência. Antes, devemos receber uma grande porção de Luz que poderia sustentar o homem em uma condição de vida acima daquela do corpo biológico. Esse é o nosso desafio.



 O passo seguinte, a próxima porção de Luz que receberemos, já será uma Luz Espiritual, que nos elevará ao nível Espiritual da existência. Isso é o que devemos ter em mente hoje.


Shamati (137)

    137. Zelofeade estava coletando madeira (Ouvi em Tav - Shin - Zayin , 1946-1947)   Zelofeade estava coletando madeira. O Zohar i...